HLIA CORREIA
A CASA ETERNA

Obras de
Hlia Correia

O SEPARAR DAS GUAS (romance, 1981; 2 edio, 1985)

O NMERO DOS VIVOS (romance, 1982)

MONTEDEMO (novela, 1983; 3 edio, 1987)

VILLA CELESTE (novela, 1985)

A PEQUENA MORTE/ESSE ETERNO CANTO (poemas em dptico com Jaime
Rocha, 1986)

SOMA  (Romance, 1987)

A FENDA ERTICA (folhetim, 1988)

A LUZ DE NEWTON (7 histrias de cores, 1988)

A CASA ETERNA (romance, 1991)


PUBLICAES DOM QUIXOTE/CRCULO DE LEITORES
LISBOA-1991


Publicaes Dom Quixote, Lda.  Rua Luciano Cordeiro, 116, 2
1098 Lisboa Codex - Portugal

Crculo de Leitores, Lda. Rua Eng Paulo de Barros, 22
1599 Lisboa Codex - Portugal

Reservados todos os direitos
de acordo com a legislao em vigor

1991, Hlia Correia


Edio do Crculo de Leitores:
Sobrecapa de Jos Antunes
Fotografia de A. Sequeira

1 edio: Abril de 1991
Depsito legal n 44 459/91
Fotocomposio: Textype - Artes Grficas, Lda.
Impresso e acabamento: Resopal - Indstria Grfica, Lda.

Distribuio no mercado livreiro:
Diglivro - Rua Ilha do Pico, 3-B, Pontinha, Lisboa
Movilivro - Rua de Gomes Leal, 93, Porto

ISBN: 972-20-0896-X (Publicaes Dom Quixote)
ISBN: 972-42-0246-1 (Crculo de Leitores)


Ao
Antnio Ramos Rosa

E lembra-te do teu Creador nos dias da tua juventude: antes
que venho os dias do mal, e cheguem os annos, quando digas:
No tenho nelles contentamento:
2 Antes que se escurea o Sol, e a luz, e a Lua, e as
estrellas; e tornem a vir as nuvens depois da chuva:
3 No dia em que tremerem os guardas da casa, e vergarem os
homens de valor; e cessarem as que moem, porque se fizerem
poucas; e se escurecerem as que olho pelas janellas:
4 E as portas dobradas se fecharem na rua, abatendo-se o som
do moinho; e se levantar  voz do pardal, e todas as filhas do
canto se deprimirem:
5 E tiverem medo tambem do que he alto,
e houver espantos no caminho; e a amendoeira florecer, e a
cigarra vier a ser enfadonha, e a alcaparra ficar desenxabida,
porque o homem vai a sua casa eterna, e os pranteadores ando
rodeando pelas ruas:
6 Antes que a corda de prata se relaxar, e a copa douro se
despedaar; e o cantaro se quebrar  fonte, e a roda se
despedaar ao poo:
7 E o p voltar  terra, assim como a era; e o esprito voltar
a Deos, que o deo.

Eclesiastes, Cap.  XII
(A Bblia Sagrada, Londres, 1872)





Fala de Bento Serras, cobrador de bilhetes, nascido e morador
em Amorins:

Diz que quer contar tudo dos princpios?

Dos princpios a gente nunca sabe.

Quando  o caso de se lhe pr a vista em cima, j o que quer
que seja vai no meio...

Pois eu do homem no me lembro, no. Diz que seria fcil de
lembrar, mas no para mim que tenho esta cegueira.

Cegueira  modo de falar, entende. No me fixo.  assim como
umas sombras.  Dizem para onde querem ir, eu marco, e marco,
boto-lhe as notas gradas entre os dedos, os trocados na mala,
e vai que vai, volta que volta, e  noite, e  manh, e nem
reparo. Podia levantar-se a uma cidade por obra do demnio, 
um supor, uma cidade dessas que se perdem de vista na direco
de cima, e eu no dava por ela, to cego ando.

Pois o homem no vi. Se veio na carreira. Se foi no meu
servio, no no vi.

Sendo segunda, que podia ser, vai para a um povo, um
corropio. Diga.  a feira, pois.  Sacas e trouxas, crianada,
vinhos. Parece isto uma terra dos Brasis. Que, no se
exagerando, eu no condeno. No tenho  alegria. Falta-me
muito o ar.  Desde pequeno, sim, nem eu estou certo de quando
comeou.  isto que lhe digo.  Ningum sabe os princpios.

O tal homem?  Pois no, minha senhora, fosse ele como fosse,
eu no no vi.

Palavras da senhora Rita Chanca, vendedeira, com banca  porta
da garagem:

O Bento no no viu?  Ele no v nada!  dos sufocos, e o mal
trepou-lhe s vistas.  Uma pieira s vezes, coitadinho, eu sei
l o que vai naqueles peitos. Uma ninhada, diz a me que uma
ninhada. De noite ataca mais, espanta-lhe o sono.  Faz l o
que lhe cumpre, mas no v. Logo a menina havia de ir ao
Bento!...

Que, se fosse segunda, ningum arreparava?  Ai, sim, isso se
fosse uma segunda.  Que isto, nestas alturas,  a febre.
Esquenta-se-lhes o corpo, uma coceira, nem que tivessem
apanhado brotoeja. Qual qu, comida, gneros?  o que menos
compram.  Raes?  Sim, fava, alguma. Mas o que eles querem
mesmo  domingar. Fatos e msica, a batem os negcios.

Ah, pois no foi numa segunda, no. Estava a um sossego, nem
pardais.  Alembro, sim, senhora, fie-se nestas memrias. Essa
caixinha a, julgava que eu no sei, diz coisas igualzinhas
tal-qual ao que saiu da boquinha da gente. Ora se no conheo:
isso h mais que anos que por c apareceu. Da a pouco diz
estas coisas que eu disse, assim, preto no branco. Esperta que
nem raposa.  No tenho medo, no. Nem de tirar retratos, no
senhora. Porque havera de Ter? Nos retratos sou eu, a no
sou, no  a minha voz.  qualquer maquenismo, ora carregue.

Pois o tal homem? Vi-o chegar, vi, e ento no conheci...
Brincarmos juntos no brincmos, derivado a que eu nunca
brinquei. Mas conhecia o Alvarinho. Quer saber? Levei-lhes
muita cesta de figo l a casa. Eu, querer-lhe, no lhe queria
mal nem bem. Gostava de l ir levar os figos porque me davam
sempre alguma  coisa
A me? No, a me, no, a gente nem na via. Quem l tinha o
governo era a av.
Dona Carlina, um pedao duma mulher. Mas quem me dava os
mimos, uma saia, uns pes doces, isso era a Marjoana. No
morreu, est tontinha em casa de afilhados. A tem no que d
servir a  vida inteira. D-se o sal do suor e o sal das
lgrimas e depois na velhice o que  que se arrecebe? Um
coice.  Eu no, menina.  Servir nunca servi.

O Alvarinho?  Pois ento: ele apeou-se e eu vi logo quem era.
No no tinha tornado a encontrar, pois no. Passou o qu?  Um
carro de anos. Mais. H-de  andar por perto dos cinquenta. Ele
apeou-se, assim, meio tolhido, como se se doesse.

No me viu, e que visse?  Sabia quem eu era? Eu  que me
alembrava e alembrei logo, no custou nada, no senhor,
menina, foi s pensar no Alvarinho antigo e pr-lhe em cima a
vida e os desgostos.

Como sabia eu dos seus desgostos? Olhe, era Vero, torrava-se
na sombra. Eu tinha de dar gua  cadelita e tinha enchido o
balde ali no chafariz.  E estava com o balde na mo quando ele
passou. E sabe o que ele trazia?  Um sobretudo. Espcie de
capote, ou que era aquilo. Vestimenta do pino dos invernos.
Com uma malazita e um sobretudo, e o calor a a rachar pedra.

Quantos desgostos no h-de um homem ter sofrido para o sangue
lhe esfriar dessa maneira?

Ou sim, seria j coisa malina que lhe apertasse o corao, no
sei.

No possuo a infncia de lvaro Roz. Tenho de percorrer o
sentido contrrio ao da memria da senhora Rita. Devo
tirar-lhe o peso, a espessura da vida, toda a camada do anel
dos anos que se foi enrolando em volta da criana e lhe
conferiu aspereza e solido.

Quando eu o conheci, estive perante um homem esplendidamente
s. Tinha-se a impresso de o avistar para l de uma distncia
de vago e de penumbra, num ilhu que era quase feito de
inexistncia, de um tal recolhimento do ser sobre si prprio
que dele irradiava uma ameaa, como a de estrelas mortas ou
sereias.

Passava as tardes na poltrona, ouvindo. Ainda existe, o grande
cadeiro forrado de cretone s rosas amarelas. Demorei-me a
olh-lo, na semana passada, quando fui ver a casa uma vez
mais.

Faltavam muitos livros nas estantes, foi com certeza Paolo que
os levou. E algum retirara pequenos objectos que eu no
pensara haver referenciado, mas cuja  ausncia dava nitidez a
cores  que evocava agora: um relgio arte-nova, uma caixa
chinesa, uma boneca de casaco preto. Mas no era uma sala mais
deserta do que no tempo em que lvaro era vivo e recebia
aquela multido que voltejava, efmera e aturdida com a
intimidade de um poeta. Dormitavam s vezes pelos quartos sem
mveis e entendiam como honroso servir ch, beber estranhos
chs por tigelinhas.

Julguei que para ele tudo era j um movimento, um indistinto
jogo de sombras contra sombras. Deixava-se cuidar, como um
invlido. No o incomodava que o fossem adorando porque de
certo modo criara  sua volta o vazio que protege a divindade.
Estava s, como cego, como mudo, e quase no escrevia.
Desesperava Paolo com a caligrafia preguiosa, rasteira, que
reduzia as frases a linhas descontnuas. No queria lembrar-se
das palavras. O pobre italiano desistiu de apanhar-lhe o rasto
da memria, renunciou  ao sonho de poder redigir uma
biografia. No porque houvesse enigmas ou perodos sem registo
no passado de lvaro Roz. Mas os dados que amigos e at
familiares podiam fornecer revelavam  tamanha mediania que
entre a vida e o poeta houvera certamente um total
desencontro.

Recm-licenciado em Estudos Portugueses, Paolo del Vecchio
abandonara Roma
E todo o tipo de futuro previsvel para vir tocar  porta de
lvaro Roz e dedicar a vida aos poemas. S pde dedicar-lhe
quatro anos.

Antes do seu secreto retorno aos Amorins, lvaro prometeu que
lhe daria tudo o que tivesse algum valor literrio e pediu-lhe
que fosse a Itlia comprar lbuns sobre a Villa Adriana que
andava a ser falada.

Paolo no partiu logo. Chorou um dia inteiro no quarto de
aluguer e depois telefonou-me, ciumento e assustado. Passemos
um pouco  beira-rio, havia
Vento. Eu receei de sbito que os pescadores fossem levados
para o lodo, e a seguir pus-me a consolar Paolo, a convenc-lo
a concordar com tudo.

Ele caminhava dolorosamente, com o seu grande corpo sempre em
desequilbrio, lutava contra a ira abanando os cabelos. Fi-lo
parar: lvaro a legar-lhe toda a gesto da obra. Devia estar
feliz, era um bom fim.

O cime de Palo explodiu:

- O gato, deu-me o gato ? A ti!, o deu! Que ama ele mais que
tudo: os seus poemas?!

Mais que tudo, ele amava Zaratustra.

Comprara-lho a irm, apavorada com o movimento de um certo
cheiro a fumo dos jovens visitantes. Sentiu-se algumas vezes
ridicularizada, percebia sorrisos por trs das suas costas, e
um desses sorrisos de troa e de impiedade vinha-lhe da
poltrona debotada.  Anabela Roz Vaz era orgulhosa. Telefonou
 sobrinha, recebendo as respostas indiferentes e moles que
sempre recebera: Sofia prometia vagas coisas e sentava-se 
espera de as ver realizadas. Tinha herdado do pai o sonho
vicioso.

Anabela gostou de despender dinheiro para adquirir aquele
persa azul porque assim, confesso-me h pouco tempo, dava
satisfaes  conscincia. Teria preferido um galgo egpcio,
mas escolheu um bicho de interiores.

Enganou-se ao pensar que Zaratustra seria de algum modo o seu
representante na casa do irmo, como que um delegado do seu
exausto e mal compreendido amor fraterno: o animal  atravessou
a sombra e entrou no reino de lvaro Roz. Assistia    s
conversas, varando os visitantes com o seu olhar de ouro,
altivo e crtico. O dono observava-o sem sossego, parecia
sempre um tanto intimidado.

Zaratustra era jovem quando nos conhecemos.

Ao dar entrada no salo obscuro, eu  estava grandemente
constrangida. O que me acontecia no momento podia ter o ar de
uma catstrofe porque  quase sempre um passo horrvel admitir
uma vulgaridade, na autoria de uma escrita genial. No foi
porm o choque do vulgar que recebi, mas o de uma presena
desumana, absolutamente  desprovida de luz.

Para disfarar a incomodidade, prestei a homenagem devida a
Zaratustra. Ele estendeu-me uma pata e bocejou. Houve na sala
um burburinho de cime: o persa nunca antes retribuira as
atenes de algum.

Eu viera trazida por Tino, o Pintor-de-Arte, assim chamado por
provir de uma famlia cujos homens so todos pintores de
parede. Esta excentricidade nas origens tornava-o popular, se
bem que algumas vezes um pouco assustador. Ele fazia gala em
comportar-se como o dono das portas de lvaro Roz, o que
tinha os segredos do caminho de acesso. Fi-lo embebedar-se por
trs noites, escutei-lhe os desgostos e acabei por lhe comprar
um quadro onde pastas de tinta contguas, regulares, formavam
uma espcie de manta de retalhos.

Quando por fim anunciou a data em que me levaria a casa de
lvaro, ri da magnanimidade do seu gesto e inventei pretextos
para no ir. Comecei a riscar o quadro com as unhas. Nunca
ousara faz-lo com nenhuma pintura. Depois deitei-o fora e
disse a Tino que o oferecera a um escritor ingls. O
Pintor-de-Arte duvidou por uns segundos, a seguir riu-se e
arrastou-me para a visita.

Ofereceu-me mais tarde um outro quadro. Cortmos relaes
quando ele compreendeu que o diplomata turco a quem eu o
cedera nunca tinha existido.  Cruzmo-nos ainda muita vez na
grande sala de lvaro Roz, mas Tino comportava-se como se eu
fosse apenas uma alucinao capaz de iludir outros, que no
ele.

Nessa primeira tarde, o Pintor-de-Arte no pressentia a
prxima degradao na pequena amizade que ao tempo nos ligava
e exultou, e fez sobressair a especial deferncia que
Zaratustra me manifestara. lvaro interessou-se e eu tratei de
agarrar-me  ao meu conhecimento sobre gatos - o mais antigo e
o menos duvidoso dos meus conhecimentos, confessei - para
falar longamente sobre a alma, os desejos e os medos de um
jovem persa como Zaratustra.

lvaro no sabia as regras da comida, da higiene e da
recreao: o mistrio do gato afligia-o. Amavam-se um ao
outro, isso era bem visvel, porm com um amor ignorante e
culpado. Corri a fazer compras, marquei o veterinrio,
desinfectei a loia e o caixote. Zaratustra comeu biscoitos de
pescada e achou delicioso beber gua corrente dentro do
lavatrio.

 Alguns meses depois, lvaro disse que no experimentara
cime mas consolo e que isso lhe parecera  um mau pressgio.
Via-se, com efeito, o torpor do alvio a distender-lhe o
corpo, os ombros  descaram levementmente e, talvez porque o
sol pesado do  crepsculo se introduzira enfim pela janela
parecendo por instantes que o ia atravessar, eu pude
contemplar-lhe os pormenores do rosto sob aquele fugaz
deslumbramento.

 Nos jornais, quando algum dos seus antigos livros era
reeditado, aparecia sempre uma fotografia em que ele estava
sentado num banco de madeira, diludo na  sombra de uma rvore
em flor. No se sabia se por desfocagem se por estremecimento
da leve ramaria, as feies do poeta tornavam-se ilegveis,
ningum o poderia reconhecer na rua.

Eu tinha construdo a seu respeito uma imagem etrea,
anemizada. Tinha, atravs desse  retrato pblico, entendido
tratar-se de um ser impondervel que, nenhuma pelcula poderia
captar. Mas, quando o conheci em carne e osso, deparei com um
homem que no era indefeso na sua natureza; decidira arrancar
de si as armas.  Qualquer coisa lhe ardia, uma chama de cobre,
no fundo do olhar. Uma barba grisalha ocultava-lhe as faces.
Percebia-se ainda a ossatura larga sob os msculos lassos,
desistentes. Ele no envelhecera pela fora dos anos, mas pela
determinao de envelhecer.

Quando fui v-lo ao hospital depois da crise, lvaro
confiou-me Zaratustra, para sempre.  Foi nessa tarde, naquele
quarto branco, entre tubos e cheiros infernais, que se
inclinou para a morte - e no depois.

Porque, ao voltar a casa, no deixou que eu devolvesse o gato
ou sequer lho levasse um dia, de visita. Era como dizer que j
fechara os olhos.

Estou, como ele, no largo de Amorins. Estou, como uma criana
na areia, procurando-lhe o rasto para colocar os ps
exactamente onde ele os colocou.

Segurando uma mala e tendo muito frio.

Transform-lo agora em personagem  no o encontrar e tecer
uma espcie de glosa  sua volta.

Eis o pequeno largo de Amorins com os seus bancos verdes e a
sua japoneira.  Maro, porm lvaro chegou em pleno Vero.
No foi isto que viu, mas os tons sujos, a relva ressequida. O
casario em volta estaria chispando, provocaria dor.  De modo
que ele seguia recolhido, separado das coisas pelo seu
sobretudo, como se em volta houvesse apenas gelo, um azul
estonteante, de plancie.

Teria ele j esquecido o caminho de casa? Ainda assim no
iria, como eu, pergunt-lo a este homem  porta do caf.
Seguiria o seu rumo, por aproximaes, fechando grandes
crculos, num tenteio de pssaro.
Talvez que entre Amorins e a quinta da Viosa houvesse apenas
dantes um caminho de terra. E nele passassem bois, ao
pr-do-sol, regressados de um velho bebedouro. Ou talvez fosse
j uma rua empedrada onde ecoassem solas de couro duro com as
suas chapinhas de metal.

Dos lados cresceriam cisto e giesta. Sob o poder da chuva
estalariam os campos das azedas cujos ps as crianas roam,
ruminando, deitadas sobre o grosso odor dos fenos. Ali
esperariam que surgisse nos cus a Estrela-do-Pastor,
agarrando com fora os dedos uns dos outros para que nenhum
deles apontasse cima, no se fossem encher as mos de cravos.
Naqueles jogos de corpo teria o Alvarinho esfregado a cabea
contra os seios nascentes de alguma criadita, buscaria ele
depois em vo esse prazer em que houvera quentura e cheiro a
estbulos?

Ou, quem sabe, o caminho seria exactamente igual ao que agora
percorro, esta estrada cinzenta onde h, aqui e alm, um
remendo mais escuro, granitoso. Ladeiam-na estas casas com uma
s janela. E, em certas esquinas, ocultas para alm dos muros
rendilhados e de renques de cedros,  podem adivinhar-se
vivendas restauradas, com os seus varandins e as arcas da
ndia. Ouve-se o restolhar dos ces em correria ao longo de um
arame preso  terra.

Em Agosto, os pomares e as rvores de ornamento estariam
pesados, como bronze, e, dos pequenos lagos dos jardins,
subiriam os gritos das crianas. O ar estremeceria, criando
ondulaes. E tudo pareceria arder devagarinho. Era o Vero: o
que eu tento sobrepor a esta exuberncia de flores e de
rudos. Anda uma mulher  erva, pelas bermas. Sinto na minha
nuca o seu olhar sombrio, a velha hostilidade aos forasteiros.
Ter espreitado assim para lvaro Roz, ter reconhecido nos
seus ombros, no seu modo hesitante de avanar, o
desajeitamento aristocrtico do filho das senhoras Baioas, da
Viosa?

Decerto no o viu, esta mulher, porque a estiagem j queimara
o verde, j moera a serralha. E qualquer camponesa sabe,
alis, que a fervura do sol d maus conselhos. No se exporia
s foras do calor.

Ele deixaria ento os Amorins, caminharia agora em plena
estrada, entre os campos de fava apodrecida, e ouviria saltar
os gafanhotos.

O freixo indica-me o desvio para a quinta. lvaro viu-o mais
escuro, espesso, deitando a sua sombra sobre um cho
esterroado. Eu colarei ao seu o meu olhar e avistarei a casa
com alvio, com um grande desnimo no corpo, uns sapatos de
ferro que se arrastam na poeira da lea. Algumas destas
rvores so de folhagem perene, no se percebem as pequenas
mutaes que lhes vo renovando as pontas aguadas. Outras,
pelo contrrio, estaro mimando a morte, esguias, plidas.
Este cer, creio bem que ganhar tons fulvos, tons de clera.
Flores que parecem feitas de papel abrem aqui e ali a sua
chama.

lvaro ouve o rangido dos seus passos,   o nico som. Podiam
esvoaar-lhe os sons antigos em volta da memria, preparara-se
mesmo para os afugentar, mas eles no comparecem.

Detm-se no terreiro e a pedra da casa enfrenta-o, silenciosa,
absolutamente esvaziada. De uma mata de accias, surge um co.
Tem o plo empastado de imundcie. Ento lvaro pensa que vai
provavelmente ser mordido como qualquer intruso e sorri,
excitado pelo medo. Mas o co vem cheir-lo com cordialdade.
Aparenta completo desinteresse pelas  guarda. Mergulha
novamente entre as accias.

lvaro toma assento no banco de granito, junto da romzeira.
Pousa a maleta e sente o cheiro a lenha. Um ganso solta a
queixa de um  grasnido, ao longe batem instrumentos de metal.
E, de dentro de casa, chega at ele o choque de uma queda.

lvaro no previra que ali vivesse algum. A Maria Joana
endoidecera havia muitos anos. E no entanto, a casa estava
quente, respirava e olhava-o com suspeita. No antigo jardim,
cresciam malmequeres  e couves de p alto.

Ele no recuaria, no tinha para onde ir. Tentou reconhecer na
porta principal a estrela que talhara a canivete, mas talvez
que entretanto mudassem  as madeiras.  O relevo esculpido
sobre a verga - Dizia a av que eram as armas dos Baies -
mantinha-se ilegvel: um sobressalto mais acentuado na
aspereza da pedra, um frisado de vento onde alastravam
lquenes.

Notou que algum fechara imperceptivelmente uma meia janela.
Havia ali prudncias e pacincias de cerco: isso exasperou
lvaro que vinha para morrer e no para sustentar fosse que
rito fosse com outros seres humanos. Abriu o sobretudo e deu a
volta. O acesso s traseiras pareceu-lhe muito rpido e
liberto de obstculos.

Da cozinha saiu uma mulher. Tinha as mas do rosto encarnadas
de raiva ou de grande embarao. Os seus olhitos negros
piscaram contra o sol. Tentou humedecer a boca para falar:

- O senhor  daqui?

Perante o aceno dele, afirmativo, a mulher encolheu-se,
perdendo um pouco a cor. Meteu-se bruscamente para dentro. A
porta principal rangeu, sob um puxo contnuo e decidido. E a
voz da mulher gritou dos fundos:

- Venha de roda, venha!  Cada qual, sua entrada!  J lha abri.

Devia ser ento muito visvel o trao dos Baies sobre o seu
rosto. Esperara que ela o fosse confundir com um mendigo ou
com um vendedor e que a sua secreta identidade lhe devolvesse
alguns prazeres de infncia.

Penetrou, como dono, no vestbulo onde o bafio pairava num
vapor. A mulher conservava-se  distncia, ia torcendo o
avental nas mos.

-  irmo da senhora? - perguntou. Cuspinhava as palavras,
como que repugnada, movida por um dio sem propsito.

lvaro desejou que se acendessem luzes, que se arejasse aquele
abafamento. Mostre-me um quarto, disse, com janelas.

Tinha falado com severidade e a mulher estremeceu nitidamente.

Fala Perptua Dimas, caseira da Viosa, depois de muito
instada e sucumbindo enfim a algumas promessas:

Bom. Se d garantias que isto no vai mexer com a autoridade.
Acho eu que eu no fiz nada contra as leis, mas  que um pobre
nunca sabe o que vem escrito. J se viu multas e cadeias por
um ai. E se a senhora jura que os patres no se importam.
Que, se souberem, no me pem fora. Porque isto que voc me
est a dar no vale um tecto e aqui os campos e o gado que
eles me deixam criar. J viu?  Teria eu necessidade de ir
arranjar tamanha confuso?

Pois conto. J agora, conto tudo. Capaz at de aliviar,
contando. Que o mal est feito. E quero que me digam se fui eu
quem no fez.

Eu? Estou aqui vai para uns quinze anos. Veja se agora por ms
artes do destino eu perdia o lugar, dormia no relento.

No, no sou bem de c. Sou de uma terra l pra riba, nos
montes. Chama-se a Meia Cova. Ah, no sei,  assim,  s um
nome. L conheci o meu Joo num casamento e l casei. Tarde.
No era mal jeitosa, no, senhora. Um bocadinho arisca, a
puxar  famlia. Pobres? ramos, pois. A gente fabricvamos
umas lavourazitas, quer dizer: fome, fome, de ter de comer
cardos para sossegar o bucho... Que os h, ento no h!...
Havia! A gente, no. Fominha dessa, a gente no passvamos.
Mas frio!  E sujidade! E os vestidos virados! E as calas com
remendos! Chegava a ser o caso, imagine a senhora, de serem s
remendos com a forma de calas, sumido j o pano verdadeiro.
Coser? Cosia, pois. Aquele ponto mido, aquela linha, assim,
assim, depois atravessado, para deitar uma rede nos buracos.
Agora j no paga a pena, sabe, desde os nilones que os panos
enrijaram. H-os baratos, diz que feitos de borracha. De modo
que remendos ningum pe.

Mudou. Mudou o mundo. E pra melhor. Mas anda por a muita
ruindade. Isto da rapariga. Conto, pois.

Tenho ento de contar o meu desgosto, a minha viuveza. Comea
que os vizinhos l chegavam com aqueles automveis, as
mulheres delambidas, os rapazicos a cham-las de mam, com
brinquedos a pilhas, eu sei l!  Deram em fazer casas, um
primor, que limpeza de casas, com aquelas cozinhas, aqueles
encerados.  Ento, eu no havia de gostar!  Aqueles azulejos,
as varandas!... Ah, quer que passe  frente?  Assim  tudo.
Tanto que me atentou para eu falar, agora j me quer calada,
veja.

Pois fui, l fui. L fomos para a Frana. Sem papis de
trabalho. De visita. A uns primos, mas era  para ficar.
Prontos. J sabe o resto. Aquelas  ruas, aquelas luzes verdes
para passar: ningum nos disse. Vai: morreu-me o meu Joo.
Atropelado. E eu naquelas aflies. Nem me queira alembrar.
Dou por mim no comboio, a beber lgrimas, a caminho de casa.
Chego aqui e no quero voltar para a Meia Cova. No sei. No
queria, no sentia alento. Ento, o padre ali dos Amorins
meteu-me de caseira na Viosa.

 Quem c tinha vivido a tomar conta  era uma que eles chamavam
Marjoana, que deu  em malcriada  e em mostrar assim as nalgas,
com licena, isto quando a  j nos sessenta anos. Diz-se que
era por causa de nunca ter tido homem, que estava arrependida
e endoidou. Instalaram-se c os afilhados, diziam  que era
para tratar  da velha, mas a dona Anabela no foi nisso.
Desconfiou que no lhe fossem largar a casa. E olhe que no
passaram muitos meses at que  houve essa coisa dessa
revoluo, e se eles aqui estivessem j de c no saam. Que
aconteceu em outras quintas, sim. Agora  que est tudo j na
antiga ordem, tudo na primitiva, entregue aos donos.

Mas a dona Anabela p-los todos na rua, aos afilhados mais 
velha, toma!  E vai, deu-me o lugar na condio de me eu
manter viva. Est claro, uma mulher sozinha e humildade, no
lhe vinha a tineta para querer roubar-lhe a quinta.
//

Ento, l arrecebo a malfadada carta. Da minha irm Lucinda. E
a querer o qu?
Que eu c lhe recolhesse a rapariga. Essa sobrinha, eu mal a
conhecia. J nasceu em Lisboa, sim, senhora. Lizette, . 
Lizette a graa dela. Mas sempre obriga  a que lhe chamem
Liza, se no, no arresponde. Uma mania.

 Pois. L dizia a carta que era assunto mais srio que doena,
e no explicava.  Que pode ser mais srio que a doena?  S a
morte, no ? E ofereciam dinheiro.  Para qu?  Para ter aqui
a rapariga.

O que eu posso dizer  que o papel da carta tinha borres de
lgrimas. No sei quem na escreveu, talvez a minha irm j
consiga escrever, quando abalou para servir, h trinta anos,
sabia tanto disso como eu. Na escola?  Andmos. S por ser
preciso  matricular-se a gente, ao que diziam. Mas saamos
logo, um ano ou coisa... Sei conhecer as letras, sim, senhora,
mas desenho que eu faa de palavras, tirando o nome,  j no
h quem mo entenda. O certo  que choraram no papel da
cartinha. Isso choraram.

Eu pensei muito. O que eu pensei, minha senhora! As voltas que
eu no dei naquela cama! E sem ningum com quem me aconselhar.
Ao padre, eu? No, senhora!  Ento, parva no sou... Pior que
uma doena, havia de ser caso de contas com a justia. Vai,
pesei tudo, os sins e mais os nos. Ento pensei: no  me
hei-de ver com os meus?  No se haviam  de ver os meus comigo?
Talvez esta sobrinha viesse a ser o amparo para a minha
velhice. Mandei-a vir, muito avisada  dos cuidados que era
preciso ter com a patroa. Que no podia saber dela, nunca.
Falei ao telefone, nos correios,  para no ter de ditar uma
carta a ningum.

Ah, quando o senhor lvaro chegou, estava ela a havia quase
um ms. Um martrio de vida, o que eu passei.  Esconder?
Escondia, sim, at de mais. Umas trombas, senhores!  Uns ares
de enjoo!  Trazia um gravador e ouvia as msicas que pareciam
demnios a pular!  Salvo seja. O que eu no me arrependi!  S
quando descobriu o velho aude e comeou a passar l os dias,
 que ganhei um pouco de sossego. Ganhei: julguei, julguei que
ia ganhar. Chegou o senhor lvaro e foi o que se viu.

Se o vi chegar? No vi. O co no d sinal. Eu j tinha migado
as couves para os patos, depois fui  cozinha por uma pcara
de gua. Olhei assim, sem querer, pela janela, e l estava a
figura. Sentado naquele banco. Jasus!  Pensei que fosse da
polcia!  que no tinha olhado bem. Olhando, via logo que ele
no fazia mal.  Que ar tinha?  Que ar ele tinha?  Olhe, no
sei. De qualquer modo, via-se quem era. H por a retratos da
famlia.

Que susto eu apanhei. O homem com a mala, para ficar, e eu com
a Lizette aqui escondida!  A mala era pequena, tive esperana
que fosse de passagem. Pensei: calma, Perptua. Mas que era
dela, a calma?  Quando lhe abri a porta, julguei que ele ia
ouvir-me o batucar do peito. Mas nessa altura, j eu tinha
resolvido. Ia esconder melhor a rapariga. E pronto. Uma maleta
to pequena, nem tinha duas mudas de camisas, esperar, calar.
Foi sempre o lema da pobreza.

Dei-lhe um quarto dos fundos. A cair? A cair anda tudo nesta
casa. Menos as louas da retrete, isso a  patroa  que no
deixa descuidar. Pode-se dar o caso de passar por a e quer
ter serventia com asseio. Gostava de ir l dentro?  Vai, eu
mostro. Quando acabar a histria.

Ai, quer que acabe a histria neste ponto? Ora!
Passou-se mais, pois no passou! Acabo aqui? E ganho este
dinheiro?

Diga. Fui a correr avisar a Lizette. J lhe contei que ela
passava os dias  beira da represa. Ela? Achou bem
esconder-se. Nem ligou. Fazia-se de surda muita vez e eu tinha
de lhe dar uns abanes.

Pronto. Ento no quer mais? Que Deus lhe pague. Mas oia,
ponha a que eu no sabia e que no tive culpa. Ponha. Ponha
outra vez. Dizer a mesma coisa por repetidas vezes, ele no h
outro modo para as  palavras de um pobre valerem qualquer
coisa.

 o quarto da sua av Carlina.

Uma perna da grande cama preta foi substituda por livros em
coluna. lvaro sorri desse pormenor. Est ali um tesouro em
edies antigas. A caseira pensara que se esboroariam menos
que tacos ou tijolos. Tivera-os com certeza ali  mo. Ou
estalara os dedos, contente com a ideia, e correra a busc-los
ao escritrio?

O colcho est desfeito. Os folhelhos do milho
transformaram-se em p.

Perptua entra com lenis, sacode tudo muito ostensivamente.
E ele entende que ela o queria sufocar, transform-lo num nada
com trs pancadas secas.

Em vastas superfcies das paredes a calia caiu, mostrando os
enxaimis e as palhas cor de cinza.

No toucador, o mrmore quebrou-se. Algum levou dali o pedao
partido. lvaro raramente transpusera esta porta. A av no se
queria deixar ver nos seus cheiros e nas suas fraquezas por
nenhuma presena masculina, mesmo que se tratasse ainda de uma
criana. Mas lembrava-se bem daquele tampo de pedra, lvido,
estriado de escurides venosas, que o fizera talvez comear a
ter medo e a sentir o fascnio da febre e da beleza. Perdeu
agora o brilho. Soterrado sob a espcie de chuva de madeira
que o caruncho do tecto vai moendo.

Da poltrona, ele no julga recordar-se. Est encostada a uma
das janelas. As molas quase  rompem a trama esfiapada, como
articulaes de  membros velhos.

Algum, talvez uma mulher doente, passara ali as tardes
assistindo ao cerimonial das estaes. Olhando os pssaros,
vendo a buganvlia enroscar-se na prgola. No a av, que no
gostava de sentar-se.

As janelas no abrem. No aceitam deslizar sobre as calhas
naquele movimento vertical que as assemelha a uma guilhotina.
lvaro entalara-se uma vez, tentando  colher cravos pelo lado
de dentro. Esta recordao, concreta, assusta-o. Iro os fios
tensos  da memria atravessar a mente contra a sua vontade?
Tecer como inspirados por mescal, rpidas cenas desarticuladas
em que o brilho equivale a um grande terror?

lvaro espreita ento pelas vidraas, espreita pelo vu sujo
das vidraas, e avista as galinhas a debicar no cho. Sente
calor e fome. O peso da urina acorda-lhe  uma ponta de dor no
baixo ventre.

Chama Perptua para que lhe traga leite, quer saber o caminho
para a casa de banho. A caseira abre muito uns olhos que
fascam, uns olhinhos de bicho, avermelhados. lvaro entende
que ela est com medo.  um medo marcado nos genes dessa
casta. O medo de quem serve e nunca est seguro de que mantm
o dio bem abaixo da superfcie onde podia ser notado.

Far isso sentido nesta casa que o tempo e o abandono
corroeram?  Ser ele um Baio?  Ser Perptua ainda uma
criada?  Ela vai adiante no corredor sem luz, indica-lhe uma e
outra tbua falsa, como a inici-lo num campo de armadilhas.
Mas a casa de banho brilha e cheira a lixvia. Os azulejos tm
fundos verde-mar.

- Andou em obras. A senhora  que deu ordem.

Ele sorri: da irm e da caseira. Pede duas toalhas e at isso
parece deix-la transtornada.

Suba, tome sentido nos degraus, recomenda a mulher e toma a
dianteira.  Alterou-se-lhe a voz que era fraca, hesitante e
agora empurra autoritariamente as vibraes do ar.

Esta casa que eu tanto imaginara, querendo ver levantados os
cheiros, as paredes, circula no entanto como um redemoinho de
ps e de bolores em torno das chinelas de Perptua. O que quer
que existiu aqui est j desfeito. No houve tempo para que a
podrido tratasse dos lugares a seu modo, um por um, conforme
os usos, conforme as horas que lhes foram dedicadas.  um
corredor velho e sem memria.  Est reduzido  sua prpria
sombra. Olhe se pe um p em falso, olhe o soalho, diz a
mulher, mas no me guia os passos. As suas chinelitas de
fazenda parecem saltitar, tornam-se leves e como que doiradas
naquela escurido, brilham e apagam-se  maneira dos insectos.
A madeira ressoa cavamente, est feita um algodo, fofa, sem
consistncia. E os passos flutuam numa fascinao de pesadelo.

O que h por trs das portas? vou dizendo. Nada, coisas,
responde.  Bicharada.  H com certeza luz, vidraas por abrir.
A caseira rir, ter essa luxria  de me pr aos tacteios, de
me fazer talvez torcer um tornozelo, limpa que traz a
superfcie de conscincia. Bem avisei, no quis tomar
cautela... Terminando-se assim esta intruso em
acabrunhamento, em vergonha dorida. Uma estranha, dir,
depois, na padaria, chegar ali como uma estranha, a querer ver
tudo. E encolher os ombros, indignada.

Pronto, aqui era o quarto, diz Perptua e coloca-se 
ombreira para me deixar passar. Avisto a colcha de algodo
adamascado, cor de rom, ainda arrepanhada,
sob uma manta e os estilhaos do entulho. V a perna da cama?
 com os livros. Ou vinha tudo por a abaixo.

A casa deve ter os seus recursos para se limpar de todas as
presenas. Faz sentir que jamais algum aqui entrou. O
esprito dos anos lambeu-se e sacudiu-se como um bicho de
plo. E tudo se tornou silencioso e vazio.

No esteve aqui ningum, penso em voz alta. Mas a mulher
aceita a frase sem ouvir, pe-se de novo     a chinelar 
minha frente. Leva-me ao rs-do-cho, ao
lado da cozinha, ao que fora talvez uma casa da lenha, um
cubculo fresco, com janelo. Aqui,trazia-a mais debaixo de
olho.

H como que um instinto narrativo na escala com que ordena
esta visita, um faro que estabelece e isola os fulcros onde o
que quer que fosse de ousado e misterioso veio a ter um lugar.
Tambm aqui no restam vestgios da sobrinha, a no ser umas
tachas que afixavam decerto cartazes nas paredes. Tinha a um
div, as roupas numa cesta. Queria era tomar banhos que eu sei
l.

Aos poucos reencontra o gosto pela fala. Aliviou o medo e eu
prefiro parar de lhe fazer perguntas. D-me entrada na sala de
jantar onde os aparadores descaem levemente porque o cho
abateu. Na grande mesa de castanho, aberta,
amontoam-se malgas amarelas, garrafes com a palha apodrecida.
No lambril de azulejos h emendas absurdas, pastoras e moinhos
cortam aqui e alm aquilo que parece um antigo painel com
cenas de tapada. Junto s duas janelas com banquinhos, algum
deu grandes chapades de cal para alisar o esventramento da
parede.

Perptua faz subir uma vidraa, debrua-se a cheirar as
rvores, o terreiro, e isso f-la cobrar alguma cor.
Sentava-se-me aqui, diz ela, a tarde inteira. No compreendo
acerca de quem fala. O sol poente pega-lhe ao cabelo um fogo
quase negro, de carvo.

Dos buracos do cho vem o bafo das velhas areias de uma adega
onde durante muitos anos azedaram as espumas do vinho que
fervia. No sinto encantamento algum em tudo aquilo e  por
isso que fao brutalmente a pergunta:

- Acha que no passou de uma histria de amor?

A mulher vira a cara para mim, mas por aco do sol ou do que
quer que seja, deixou completamente de me ver.

- Assim - insisto ainda - como  nestas novelas?

Ela sacode os ombros, fatigada. Conduz-me, chinelando, para a
sada, tomada de repente por uma pressa, um tique de
ansiedade. Dir-se-ia que quer expulsar-me antes da noite, 
porta, ri-se e encara-me por fim:

- Aquilo foi o diabo.  o que foi.

Fica a dizer-me adeus, hospitaleira, amvel, tendo aos ps o
co fulvo que a chegada da noite agora arroxeou.

At mesmo os fantasmas enfraquecem - disse lvaro Roz em
pensamento, quando a noite acabou.

Andava a luz da madrugada pelo quarto soprando tudo,
dissipando as sombras, mas a sua presena e o que ela revelava
estavam bem longe da serenidade.  Contavam que era aquela uma
hora aberta em que as vrias paredes dos mundos afrouxavam e
cediam passagem. Aquele azul-turquesa, liso e gelado, parecia
mais uma revelao, uma demora no esprito das coisas que
assim se distraam e o tornavam visvel - do que o incio do
fulgor solar.

Os passos que se ouviam pela casa eram muito ligeiros, podiam
ter origem em pezinhos de bicho. Se fosse ainda a sua me que
andava de um lado para o outro como toda a infncia a tinha
ouvido andar, ento  que gastara os taces dos sapatos,
cinquenta anos a fio assim, to aplicada a assombrar a casa,
de tal modo absorvida naquela sentinela que se esquecera j
dos seus motivos, do qu e a quem devia perdoar para que o
apego  terra se soltasse.

Ah, lembrava essa me to bela e to secreta a quem Pedro Roz
fizera a corte embuado a cavalo, entre os loureiros. Sob o
vivo chapo da lua cheia,
o seu vulto, encimado por chapu andaluz, lanava para a
frente a sombra engrandecida de um bom conspirador. Abriam-se
no ar os plenes sufocantes, os pssaros da noite soluavam
soluavam. E a jovem Hermengarda, destinada a sombrias
excitaes dos nervos pelo nome romntico, esmagava as folhas
claras das begnias nos vasos que pendiam da sua janelinha. A
me tinha-a poupado s instrues da vida, tencionando
manter-se no comando da casa para l do nascimento dos netos e
bisnetos. Hermengarda sonhava com os raptos e as escadas
tecidas em seda de bordar, mas ignorava o fim de tudo aquilo.
Quando Pedro Roz a possuiu, muito apressado, sobre um banco
que rangia, ela sentiu apenas o choque da surpresa. Nunca
fizera ideia do corpo masculino. Apesar de viver perto dos
animais, de assistir ao namoro dos pombos nos telhados e s
angstias dos gatos em Janeiro, e conhecendo embora as funes
verdadeiras do galo cantador, nunca tivera com a criadagem
qualquer intimidade capaz de
inici-la no percurso amoroso. Porm, mal resolveu a primeira
vergonha e a bruta
decepo, dedicou-se ao prazer como se dedicara antes aos
devaneios.

Pedro Roz apreciou-a como amante, embora os arrebatamentos de
Hermengarda o obrigassem a usar prudncias e at seriedades
que nunca experimentara.Vivia fascinado pela imagem do av, um
espanhol que lutara por ciganas e viera a
casar-se no Porto, entrando assim num prspero negcio de
madeiras.

Pedro Roz av ganhara estmago e o respeito da vasta
descendncia mas, j entrado em anos - e, ao que se comentava
entre as mulheres, porque o neto a quem deram o seu nome
parecia, ainda de bero, devorar-lhe as palavras -, comeou a
contar histrias antigas de tal modo coerentes e eivadas de
justia que no podiam ter acontecido. Morreu subitamente, a
tempo de deixar uma boa memria levemente toldada pela lenda e
Pedro recordava que o tomaram ao colo e que, ao ver o av
adormecido no caixo de cetim azul-violeta, quisera
desprender-se e atirar-se-lhe aos braos como sempre fazia.

Cresceu muito folgado de vigilncias e deveres de estudo. No
pedia ateno, bastava-se a si prprio, metendo ao bolso os
restos da cozinha. Precisava de sonho e isso rapidamente o
empalideceu. Entre o corpo visvel e o protagonista de airosas
aventuras crescia uma distncia difcil de vencer.

Toda a famlia andava distrada com a educao das raparigas
que tinham mos vermelhas e suadas, boca grosseira e sempre
descada, e um gro de pele que no se refinara desde as lides
plebeias das suas bisavs. Picavam-se ao bordar a bastidor e
subornavam com frequncia a cozinheira para que lhes servisse
merendas de toucinho. Riam de alto, empinadas nas varandas, e
foram das primeiras a cortar os cabelos e a exibir vestidos
com franjas nos joelhos.  Felizmente que a onda dessa
modernidade veio em breve inundar toda uma gerao, e o
-vonta  um tanto desabrido, essa memria do chinelo no p que
tornava ordinria a maneira de andar das meninas Roz, foi
ento tido por largueza de alma, por graa afecta ao esprito
da poca.

Fizeram quase todas casamentos sensatos em que o dinheiro e as
arcas de enxoval foram um grande assunto no namoro. Durante
toda a vida pareceu haver no vinco dos seus rijos cabelos
sinais, no de chapu, mas de cravos e noites em que o vento
soprou. Todos os sustos, todos os cuidados que as filhas de D.
Pedro Roz penaram para dar finuras s meninas se inutilizaram
perante aqueles corpos e  aqueles temperamentos onde o fervor
do sangue se via claramente no vermelho da face e no calcar
pesado dos saltos de taco.

Apesar do concerto com que as mes e as tias juntavam os seus
esforos promovendo dietas, buscando em almanaques receitas de
alvaiade e leite de figueira, tentando sufocar em barbas de
baleia aqueles peitos que o peso j quebrara - as meninas Roz
ganharam, sem vergonha, o nome de Espanholas, o
Que mesmo ao chegarem a avs, ainda as fazia rir e  contorcer
as  mos, presas talvez, por fios indecifrveis, ao fascnio
do av pelas ciganas.

Aos rapazes, em nmero de sete, espalhados em idade, diversos
em feitios, em rostos e estaturas, foi exigido menos - apenas
que soubessem distinguir com clareza os momentos do dia e os
momentos da  vida, adequando a cada circunstncia o grau
conveniente de humor e de prudncia. Tinham queda para as
artes, para os jogos, para as cortes e enredos amorosos, mas
entendiam isso como prendas que tornam popular um homem nos
sales sem que o desacreditem nos negcios. Ainda quando dois
deles guerrearam meio ano pela mesma mulher ou quando o
primognito, Francisco, foi preso pela ronda s quatro da
manh por se haver envolvido numa luta de docas com barqueiros
que iriam, alguns anos mais tarde, t-lo como patro - ainda
assim nenhuma alterao transpareceu nos hbitos domsticos.
No houve pelas casas um suspiro, um silncio, nem sequer uma
reza pela qual se admitisse que a famlia sofria qualquer
perturbao.

Eram aquelas, e outras, coisas da carne funda que deviam
deitar-se para fora s escondidas como pus, ou excrementos,
que fedem e envergonham mas no podem ficar contidos na pessoa
e a respeito dos quais nada pode fazer-se seno deixar que
escorram e aliviem. Havia mesmo um certo esprito fidalgo, um
devaneio romntico e inocente no pendor masculino por becos e
por esperas  porta dos quintais.

Os rapazes passaram com folga e galhardia a prova dos negcios
criando, ouvindo as prprias vocaes, uma rede de interesses
e especialidades que iam do advogado ao construtor civil.
Adaptaram-se alguns vivamente  Repblica, outros fizeram
casamentos com morgadas assustadias que rezavam  rainha,
cuja efgie escondiam entre estampas de santos nos oratrios
que teimavam em manter, transferidos para velhas despensas sem
janela onde pairava ainda o cheiro das
cebolas. Mas acima de tudo os laos de famlia - onde se
encordoavam, em ntima harmonia, lealdades de afecto e
interesses financeiros - mantinham essa gente, de diferentes
ideias e opostas convices, unida e cooperante.

Quando se reuniam nos Veres e no Natal, faziam uso da
severidade e de pequenas manhas sedutoras que os rapazes
haviam aprendido a usar com critrio desde a infncia. Era to
claro como se tivessem escrito um rol dos assuntos abordveis
e a inteligncia estivesse em debat-los pela dcima vez sem
aborrecimento, alterando ao de leve algum vocabulrio e algum
gesto de mos, corts e indiferente. Parecia at que tinham
combinado extrair o poucochinho de picante sem o qual os
encontros seriam intragveis, dos meios sorrisos e discretas
correces que o ramo das meninas Roz ia merecendo - com os
seus vozeires,  a carnao sangunea, os seus desastres,
quando j casadas, na conduo de um lar.

At entrar em plena adolescncia, Pedro Roz nunca se fez
notar. Tinham-lhe dado o nome  do av, quebradas finalmente as
resistncias, as prevenes da me me que receava alguma
contaminao por via mgica, a passagem de um eivo corruptor.
Estava ela agora a contas com preocupaes ditadas pela vida,
como a educao das raparigas, os corpos dos dois filhos de
quinze e doze anos, de tal modo diferentes na estatura, no tom
geral e nas feies do rosto que tinham provocado cintilaes
obscenas no olhar de um parente brasileiro em visita e
tornavam difcil fazer com que o mais novo aproveitasse os
fatos do irmo sem muita emenda. Sentia, alm do mais,
suspeitas do marido que subia as escadas para o sto sem que
outra explicao pudesse haver para tal a no ser a frequncia
de alguma criadita.

Entre os seus cheiros de parturiente, a Roz vomitava com o
terror do escndalo ali, portas adentro. O sogro acompanhou-a,
quebrado pela idade, tornado at um pouco feminino no modo de
invocar, tagarela e pragmtico, o seu quinho de culpas para
aquela situao. Consultou uma egpcia que lhe vendeu ps
brancos para espalhar nas soleiras. Cumpriu ainda obscuras
instrues que envolviam cabelos e uma fotografia escondida no
sapato. O certo  que a ajudante de cozinha amanheceu um dia a
queixar-se de clicas que foram piorando at que se tornou bem
claro para todos o perigo da morte.

No seu quarto, onde os rastos dos lquidos do corpo no tinham
sido ainda totalmente encobertos pela vida normal, D. Hermnia
fingia adormecer de cada vez que o sogro a queria visitar.
Ouvia os gritos que pareciam encorpar na passagem por tectos e
paredes e chegavam com uivos e arrancos de uma tal agonia que
s podiam evocar ali coisas definitivas e fora de controlo
como apenas o so o parto e o passamento. O beb estrebuchava,
pressentindo aquele desassossego pela casa. O mdico, chamado
com suspeita demora, fez para o dono da casa, que chegava do
seu passeio habitual  beira rio, um diagnstico sem
hesitao.  Tratava-se, disse ele, de apendicite aguda. Levou
a rapariga e ningum mais voltou a referir-se ao assunto.

A percepo profunda dos acontecimentos pareceu com certeza
insuportvel para aquela mulher de quase quarenta anos, a quem
a puberdade e a falta de elegncia das filhas enervava a ponto
de ela prpria se tornar descuidada e passar muitos dias
inteiros de roupo. Pedro, que ela julgou ser o ltimo filho,
criava-lhe o
mal-estar, quase o pavor, que d uma muralha em branco na
memria. Na raiz do seu nome estava o nome do av, a sua
juventude dissipadora, orgistica, que durara no homem e no
velho de um modo tanto mais assustador quanto se percebia ter
tomado uma forma secreta, desistente, que conservava assim
toda a sua energia. Ficavam, alis, para sempre ligados quele
nascimento indcios muito vagos, por isso mesmo mais
perturbadores, de uma grande desordem que a roara, cuja mo
pegajosa ela sentira a puxar-lhe os lenis no leito de
parida. Desviou dele os olhos como j tinha feito aos outros
dois rapazes mas sem que desta vez a movesse a confiana no
destino dos homens.

Teve ainda uma filha, porque o marido se assustara muito com a
morte do velho que entretanto ocorrera, de modo ao mesmo tempo
abrupto e aguardado, e viera chorar e enternecer-se na cama da
mulher a quem estes ressaibos de fidelidade, confidenciou ela
anos mais tarde, s trouxeram transtornos do sono e dos
ovrios.  Pensou que entregaria a criana aos cuidados das
irms j crescidas, mas elas intimidavam-se com a fragilidade
da criaturazinha que, aparentando embora a transparncia e a
risonha quietude das bonecas, ameaava com a sua carne,
exangue, fria, como que incompleta. Esvado tambm o gosto
para os nomes, chamaram  menina Ins: era o primeiro que no
fora ditado por laos de
Famlia. Ins no estava realmente armada para a
sobrevivncia. Avisavam-na muito de que iria morrer se
insistisse em sair para o jardim nas tardes em que havia
temporal, mas ela era chamada pela chuva. Quando caam btegas
sobre o p da folhagem, o pessoal corria a recolher a roupa e
a fechar a menina. Ins escorregou uma noite, ao saltar da
sua janelinha. Era um ms de Janeiro, muito frio, e toda a
gente esperava que surgissem neves. A chuva veio em pedra,
barulhenta, a bater um som grosso nas vidraas. Acenava com
dedos cintilantes, sorria por detrs do seu vu azulado, e a
sua cano parecia desta vez mais rude, mais inquieta.

As irms garantiram, entre lgrimas,  que apesar do mau tempo,
no tinham acordado seno quando a menina jazia j em baixo,
coberta de granizo. Destinos  ele h seres que trazem o
destino enrolado ao pescoo tal e qual um barao, diziam as
criadas da casa, comovidas com aquela criana noivada pela
morte.

Pedro tinha oito anos e sentiu-se culpado, mas ningum lhe
prestou a mnima ateno. Fez dessa irm, que as vozes mais
duras da famlia consideraram sempre claramente anormal,
atrasada na fala e com olhos redondos que fitavam de lado como
os olhos de um pssaro -, fez dessa irm a sua eterna morta.
Isso salvou-o do horror ao feminino que de outro modo o
paralisaria.

Teve muitas paixes, mas nenhum desvario, porque nunca
transps essa distncia que avultou sempre entre ele e as
criaturas, ainda que muito amadas. A jovem Hermengarda, loura
e mope, como que rendilhada por mantilhas de lua sob os ramos
das btulas ans, pareceu-lhe no incio literria, imaterial,
levemente tocada daquele gro de loucura que j levara Ins a
quebrar o pescoo por causa do granizo. Possuiu-a sem querer,
humilhado talvez pelo seu idealismo de que os irmos se riam e
que irritava um pouco as mulheres das estalagens, com pressa e
sem pacincia para longos versos brancos e rosas de papel
onde, apesar de tudo, sentiam perpassar o mundo honrado e
histrico do romance burgus.

Passara aos Amorins quando andava a seguir uma gente de circo,
pobre mas caprichosa, que no tinha sequer uma tenda coberta.
Actuavam nos cantos das pracetas, nas bocas das travessas,
como se conspirassem. Exibiam na poca uma cabra malhada capaz
de equilibrar-se sobre um cepo e de saudar, com vnia, nas
quatro direces. Um jovem corvo integrava a companhia mas
nunca se lhe viram quaisquer habilidades, o que era explicado
aos circunstantes como melancolias do humor. Bicava o rapazio
que se acercasse mais para ver os ensaios.

A chefia do grupo estava entregue ao comedor de fogo que, mal
conheceu Pedro numa tasca de feira nos arredores do Porto, se
ps a dar-lhe pancadinhas cmplices e a pagar-lhe farturas,
declarando-se primo de todos os Rozes. Havia no seu rosto,
isso era certo, a morenez e os olhos azeitados que tanto
poderiam atestar parentesco como dar testemunho de algum gene
cigano. Disparava da boca o cheiro nauseabundo do petrleo e
do vinho com que o queria apagar. Pedro tentou cal-lo e
escapulir-se, mas a  sua vontade quebrara no fascnio dessas
foras errantes que pareciam guiar-se por um sol diferente,
por uma estrela azul e protectora.

O comedor de fogo nunca disse a verdade acerca do seu nome,
chamava-se conforme os sons lhe apeteciam, conforme os gostos
da inspirao. Tambm as trs mulheres da companhia variavam
de nome a bel-prazer. S a rapariguinha que, contavam, lhes
surgira ao caminho com a cabra ao pescoo, de ps j muito
roxos pela geada, mantinha o estranho nome de Rolinda, apesar
de ser alvo de troas e aluses.

Pedro seguiu-os, teve amores com as trs mulheres, viu como o
comedor de fogo gargalhava quando, sob as agulhas do cime,
elas uivavam e puxavam os  cabelos e queriam destruir os
adereos. Eram espanholas fulgurantes que fumavam e usavam
saias de veludo martelado cujos rasges cosiam com fiadas de
seda, transformando o remendo em bordadura. Havia tudo aquilo
uma alegria e um poder de raiva tentaram Pedro durante muito
tempo. Andou com eles toda a Primavera. Comprou-lhes
alimentos, a ponto de os tornar pesados e com bruscos
Acessos de preguia. Quando os abandonou, nos Amorins, todos
se entreolharam com alvio. Era como se algum cortasse com um
vcio.

Hermengarda teria ficado para ele uma aventura e uma decepo,
como uma prova mais da natureza sobretudo canina das mulheres,
se D. Carolina sasse a terreiro, movendo influncias e homens
com cacete, ainda antes de saber da gravidez da filha. Casaram
com estado, se bem que com atraso, mas na noite de npcias,
que s serviu para isso,  Pedro deixou bem claro que os laos
de famlia no o riam.  Aquele acordo entre o dinheiro dos
Rozes e o  prestgio fidalgo das Baioas parecia-lhe obsceno
como um trato com puta  porta do bordel.

- Porqu? - pergunta D. Filomena. A plpebra cai-lhe de tal
maneira que lhe arredonda os  olhos e os banha numa luz rosada
e lamentosa. Parece fascinada  por um ponto qualquer para alm
dos meus ombros. Inclina-se ao de leve na minha direco,
concentrada e distante como um cego. - Porqu? - repete, e
agita-se um pouco na poltrona. Chega at mim um cheiro a roupa
quente e urina.

S falar depois de possuir a histria, os motivos e as suas
personagens. Vive semiparalisada, sem famlia. Uma mulher vem
dar-lhe o alimento, levant-la e deit-la, com gestos
repetidos, secos e eficazes, e num poupar de lngua que h-de
significar experincias amargosas, sustos com a lei, pedradas
na janela a punir algum excesso de malcia, algum
desbragamento da imaginao. Pelo menos com ela, diz D.
Filomena, fez voto de silncio. E as intrigas da terra, as
idas e as vindas, o eterno saltitar das peas de xadrez que se
chegam, se tocam, expulsam e repudiam sem que da resultem
filhos ou assassnios; esse rumor de crnicas que paira como
uma nuvem baixa sobre as praas, as vendas no mercado e os
quintais;  o nunca terminado folhetim, atirado de boca para
boca, que desnuda e acrescenta os seus actores com a clera, o
gozo e a intransigncia - recusam-se a subir os seis
degraus de pedra que acedem  salinha  de D. Filomena.

Sabe apenas das mortes. Oh, sim, a morte, sim, comparece na
laje moda da entrada, apoia-se ao de leve na grande arca
porque se sente exausta e tem ainda muito caminho a percorrer,
e anuncia para cima: Levo este, levo aquele.

Est bem, pois bem, diz D. Filomena, e v-a virar costas
devagar, muito magra, embrulhada no seu capote pardo.
Custa-lhe depois sempre a aquecer, fica na escada um cheiro
bafiento, a empregada espanta-se e indigna-se com o bolor que
cresce nas paredes apesar de as caiar todas as quintas-feiras.

Mas  um cumprimento de amizade, uma breve e discreta cortesia
que nunca falha, no se faz esquecida. Quando lvaro morreu,
l surgiu ela, velha
curvada, de olhos a arder. Levo este, disse, e no pediu
desculpa, sabia l ao certo quem levava...

A sala  baixa. Quase roo o tecto de tabuinhas pintadas de
amarelo. Sobre uma cristaleira com  espelhos biselados pousa a
caixa sombria de uma televiso. Pela janela entram sacudidelas
de ar, pequenos turbilhes carregados do aroma, da poeira das
rosas. As narinas de D. Filomena estremecem, pedem mais
informao.   Recebem a visita de cada baforada e mantm com
ela uma conversa breve e certeira, sempre inacabada. Ora,
ento, j floriu a rosa-ch? Que diz? H pras podres no
quintal? Como, ningum limpou a capoeira? Que ideia, assar
chourio de manh!

A imobilidade e o isolamento conferiram-lhe agudezas de
animal, mas de tal modo inteis para a sobrevivncia que cada
um dos sentidos segue estrada sozinho, galopa e volta ao corpo
sem que os fragmentos de realidade que recolhe se entrelacem
de modo a construir a percepo de um todo.

Os olhos continuam fitos em qualquer ponto para l da minha
nuca. Fala pouco e detm-se, inclinada, sorrindo, como se as
vozes e os rudos secos que flutuam no ar fora da casa
formassem uma teia de apelos e confidncias que s por timidez
lhe no so dirigidos. Parece uma boneca abandonada, com as
suas perninhas cheias de gua embrulhadas em tiras. Tem ao
colo uma renda de rosetas a que, de vez em quando, acrescenta
laadas por tacto, sem olhar. O tempo, nesta sala, perdeu a
velocidade. Paira, pesa, perdura como o eco de um bronze. Pega
em cada palavra, alisa-a, secciona-a em delicadas lminas onde
a memria pode revelar quase tudo o que nelas sem querer foi
imprimido.

Filomena Caru acelera os enlaces da linha na agulha, depois
pra e repousa os dedinhos inchados. Vai demorar-se em lvaro
Roz. Vai mentir. As mulheres, quando recordam, nunca resistem
a passar uma demo. E eis uma juventude posta em palco,
iluminada, toda imersa em rendas. E olhem a herona, de cabelo
enrolado em rgidos canudos, alvo das pretenses de rapazes
honestos que
ho-de fazer carreira.

Mas D. Filomena limita-se ao rigor. Falar: falar  j fico
bastante.

- Veio ver-me, pois veio. O Alvarinho. Tinha na ideia uma
rapariguinha.

E conta, conta. Os seus olhos, rosados como os olhos de um
peixe, parecem criar lgrimas, mas no:  aquele soro que os
recobre, aquela transparncia espessa e gelatinosa que se
segura e engrossa na raz das pestanas, corrida como um vidro
entre a cr verdadeira e a massa sonolenta que avistamos.

- No, no tenho retratos - diz D. Filomena. Tenho, mas no
sei deles. Para que os queria ? Uma rapariguinha de tranas, 
janela. E Alvarinho, o estudante que passa na carroa com o
filho do caseiro, depois de bicicleta, para o liceu da cidade.
Fala muito com ela, o Alvarinho.  tardinha ele estica-se todo
de fora para a ver, com a bela cabea morena e emagrecida
assomando por cima dos vidros da garrafa que se eriam no muro
do quintal.

- No, namoro nenhum. Metia-se comigo, e eu ria, ria muito.
Sabia coisas, ele sabia coisas. Ou inventava nunca entendi
bem. Mas que quer?  Eu gostava das histrias. Eram histrias
dos livros, tudo coisas que aprendia sozinho. A Marjoana
queixava-se, dizia a toda a gente que era um tresler aquilo,
que mal comia. Mas comigo era dado. Havia quem esperasse
seguimento, isso havia. Mas no. Ele no se ia casar, ficar na
quinta. H pessoas, bem sabe, ele h pessoas
fadadas mais para o no que para o sim. Por isso ele se
arrimava tanto aos livros, no ? So p, so feitos do que
no existe.

Tambm ela fadada para o no, Filomena Caru, posta em
desterro na sua prpria sala, como se a vila decidisse, zs,
traar uma fronteira que a deitasse para fora, amputar essa
casa que  a ltima na sada para o norte como se fosse algum
enclave hostil, apesar do espantoso odor das rosas.

Ela nada parece haver sentido, tem uns nervos grosseiros, de
pouca vibrao. Foi arrastando a vida atrs de si como um
brinquedo, um cavalo de pasta de papel.  Sentindo-a vagamente
a desfazer-se atravs dos Invernos, de encontres nas
esquinas. Sem horas de viglia pelos filhos, sem vomitar na
luz da madrugada s primeiras ausncias de um marido infiel.
Mas sorri, como dentro de um mistrio.  Talvez tenha inventado
para si mesma qualquer protagonismo romanesco e no quisesse
v-lo emendado por coisas brutas, cheiros na retrete. Ela
cora, ao lembrar-se de Alvarinho. No sei porm, se por pudor,
se pelo esforo de arrancar as imagens de onde as deixou
dormir.

Devagar, para que durem os momentos, sopra contra a poeira,
arruma aos poucos as pausas e as palavras, expe cenas
miudinhas a que faltam pedaos, como se as retirasse de um
ba.
- Entrava c em casa, sim, com tempo. A minha me devia-lhes
favores.  velha, sim, D. Carlina...Ah, sabe. Era a Baioa
velha, era de fora.  minha me, foi quem a levantou.

Nascem por todo o lado as histrias de amor. So como ervas do
mato, como urtigas, em que ningum repara a no ser quando o
excesso de contacto vem provocar na pele algum prurido.
Cinzentas e rasteiras, sem esplendor, rebentam e ressecam
brevemente, deixando pouco escndalo e nenhuma notcia. Assim,
a me de D. Filomena bebeu, ela tambm, a sua taa, ao
tomar-se de amores pelo cangalheiro, o barqueiro da morte que
era, acertadamente, um magricela de costas recurvadas e
grandes olhos baos. Como fora  ou no fora, a filha no
sabia.  Parecia de algum modo um conto gtico, do vampiro
bondoso e da donzela. Ele estava votado  solido, entre o
pinho e o mogno, martelando, forrando os seus caixes com
cetim violeta, armando pregas, bolsas e refegos que prendia
com tachas redondas e doiradas, dando ao lado interior das
suas obras a maciez de um mar e o luxo de um bordel.

A sua fita mtrica com as marcaes detidas causava tanto
horror como uma forca.  Havia em torno dele um vazio
semelhante ao que envolve o carrasco, mas sem capacidade de
atraco. Evitavam tocar-lhe e cruzar-se com ele, e ningum
sabe se essa repugnncia lhe parecia o efeito de um poder
confortvel ou se, pelo contrrio, soluaria ao espelho para
tornar visvel a sua pouca sorte.

Que fez com que a menina, criada com desvelos para um bom
casamento de sangues e fortunas, debruada  janela do seu
pao aldeo, achasse naquele homem, que ela via descer de
volta aos Amorins com a sua carroa carregada de mortos,
motivo ou excitao bastante para saltar, numa noite sem  lua,
para o banco a seu lado, como se tambm ela fosse alguma
encomenda, algum que ele tinha vindo buscar ainda com vida
para adiantar trabalho?

Diz D. Filomena que se amaram, que v-los, sempre
namoriquentos, mesmo quando ela, a filha, j era rapariga.
Diz que foram  felizes e isso, de certo modo, lava a dupla
desonra de onde veio a nascer: a me, desvirginada sem santo
 Sacramento,  o pai, embalador dos mortos do concelho. A peste
e o pecado juntos na mesma cama, soltando os seus gemidos e as
suas contores por cima do sobrado que separava o quarto da
imensa oficina onde se amontoavam os caixes.  Como se
anunciassem, com os sons e os espasmos dessa falsa agonia, as
verdadeiras aflies dos moribundos.

Assim os Amorins imaginavam as noites de Caru, o cangalheiro,
e essa imaginao, obcecante, irritada, chegou a tomar forma
em gritaria e uma ou duas pazadas de lama no porto.  noiva,
abandonada pelos seus, parecia-lhe viver num crculo de
brasas, ouvindo o vozeiro cortante dos vizinhos a disparar
palavras cujo sentido exacto ignorava ainda e sentindo subir,
pelas frestas do cho, o cheiro dos cadveres que no entanto
ali nunca haviam entrado.

D.Carlina veio em sua ajuda, ningum  chegou a perceber
porqu. Talvez porque abrigasse secretas  indulgncias por
perdies de amor. Talvez porque entendesse que os cidos nem
sempre so o melhor recurso para dissolver tumores no corpo
social. Ou talvez fosse o gosto de criar sobressaltos com
sbitos caprichos da sua tirania que ganhava por vezes
dimenses de espectculo, de uma provocao herica e
palavrosa.

Na sua prpria casa tinha dado o exemplo, organizando o
casamento de Hermengarda com D. Pedro Roz, como dizia com um
arranco cnico da glote; e, muito oposta  discrio que o
caso impunha, fez vir aos Amorins duzentos convidados que
alojou num convento abandonado  pressa pelos religiosos no
estalar da Repblica e que ela, sem qualquer direito a isso
restaurou e encheu de serviais com tal esplendor e to
ilegalmente que houve quem comentasse ter resultado aquilo de
negcios com sangue entre a Baioa e o demo. Os Rozes, que
vinham ressentidos porque D. Carlina recusara um centavo que
fosse para as festas, ficaram, pelo contrrio, rendidos ao
requinte que lhes pareceu um muito  muito bom achado na
proclamao de arrogncia fidalga e coragem crist. As celas,
obstrudas por profundos colches cheios de palha de milho,
decoradas  com rendas e rosas de papel, ressumando a frescura
da cal e do sabo, acordaram de novo durante essas trs noites
em que os suspiros de fervor ertico lembravam os lamentos de
contrio dos frades.

Hermengarda passou para a igreja, oculta numa nuvem de tules e
de organdis.  Tomou lugar com determinao entre as camlias
brancas que enchiam a caleche.  A sua gravidez muito avanada,
que j lhe punha manchas na raiz do cabelo, exibia-se  assim
de tal maneira que denegava todas as suspeitas.

 A noiva estava plida e tremia sob as aragens duras de
Fevereiro. Mordia um pouco os lbios e ajeitava a grinalda
pensando no fotgrafo, como todas as noivas.   Naquele tempo
odiava Pedro Roz e,  ideia de que ia encontrar-se com ele em
frente do altar, sentia o sangue a recobrir-lhe o rosto.
Porm,  pelo vu transparente parecia apenas um fugidio rubor.

A modista viera de Lisboa e sorrira sem d por entre os
alfinetes, divertida e espantada com o preo com que queriam
pagar o seu silncio numa terra onde no conhecia ningum. D.
Carlina despediu-a um dia antes, protestando amizades e
dvidas eternas para que  no s o ganho mas tambm a fraqueza
de se supor ligada por correntes de afecto sufocassem a lngua
da mulher. Vestiu sozinha a filha e teve de coser-lhe, j
armado no corpo, um ramo de guipura que viera agarrado s suas
mos brutais.

Hermengarda chorara, desejando poder sentir pavor pela noite
de npcias.  Imaginava as noivas verdadeiras, sentadas na
caminha virginal, retrocendo as fitinhas do bouquet, a olhar
para as mes que lhes falavam pela primeira vez das leis da
natureza e dos deveres de obedincia da mulher. Sentiam-se
cobertas por qualquer ameaa que, por algum processo que a me
no esclarecia, se iria transformar numa coisa pacfica que as
introduziria para sempre na copa, na cozinha, na sala de
visitas e no quarto dos filhos.

Ela, porm, sabia o que era acasalar, j conhecia o sopro e os
msculos do homem. Falhava essa passagem dos romances e tudo
aquilo, excepto o luxo do vestido, a desinteressava. Logo aps
a cerimnia partiu para Lisboa, exigindo paragens frequentes a
pretexto de nuseas que o marido julgou serem autnticas,
obrigando-o assim a s tomar o gosto s suas cigarrilhas fora
do automvel,
escondido atrs de giestas e de figueiras bravas, como para
defecar.

D. Carlina explicou a fuga como a nsia amorosa comum  em
casamentos. A festa prosseguiu, valendo por si prpria, com
fogos-de-artifcio e vitelos no espeto, sob o cerco enervado
dos mendigos. O meneio das ancas das Rozes dava uma
obscenidade de tango aos rodopios com que os pares se
entretinham no terreiro.  A Baioa sorria e vigiava, pouco
crente nos dons e na honestidade daquela criadagem que
recrutara, com conselhos do prior, entre os filhos dos pobres
espalhados pela serra.  Devolveu-os a todos, excepto a
Marjoana, que era nesse tempo uma raparigaa risonha e
diligente e que se foi tornando a pouco e pouco a sombra, o
ser suplente da patroa. Como se insinuou ou deu nas vistas de
modo a ficar logo na Viosa, isso nem Hermengarda, que no
gostava dela, conseguiu apurar.

Terminadas as festas, esvaziado o convento, devolvidos Baies,
Peraltas e Rozes aos trens e automveis em que haviam
chegado, partiu D. Carlina para Lisboa, a velar sobre o neto
em gestao.

Os noivos habitavam um andar num  prdio com nobreza,  rua do
Possolo, que a famlia comprara, muitos anos atrs, sem grande
interesse  nisso, numa daquelas pagas de favores to
desproporcionadas que logo se percebe serem definitivas e
significarem realmente corte de relaes. Tomava conta dele
uma parente que professara e que depois rasgara os vus, e se
pusera  porta da capela a acender charutos e a dar vivas.
Envelhecera de um momento para o outro e vivia sozinha, sem
criados, percorrendo, meio cega e muito maquilhada, as dez
enormes divises da casa. Tal rapidez na degenerescncia, que
muitos atribuam  gula do maligno, cevando, antes da morte,
com invisveis vermes, aquela carne apstata, parecia ter
contaminado os mveis, os estofos, as tintas, que quebravam e
mostravam peladas, zonas lvidas, abatimentos prprios de
coisas cadavricas. E, no
Entanto, ao recolher a prima, havia pouco mais de quinze anos,
D. Carlina tinha renovado toda a decorao do seu andar.
Pensava, nesse tempo, deslocar-se a Lisboa com assiduidade
para vestir de cetim e dar os seus e passeios pelo brao do
marido, o terceiro dos Peraltas que punha mos  obra de
escrever uma histria ria dos heris africanos, esperando-se
para este, finalmente, as angstias e as glrias de uma
publicao. Mas o temor  grande sociedade, aos sales onde se
era escarnecido se no se conseguisse lanar todas as noites
um dito original,
Fazia-os fincar p nos Amorins, naquele meio tranquilo aos
seres se davam receitas de ungentos e se pensava ainda que o
rei era D.Pedro, no se sabendo exactamente o qual.

Aventino Peralta morreu subitamente, constou que estrangulado
por um antigo scio, do tempo em que acarretava caf e marfins
falsos do interior de Angola.  Houvera ali engodos, histrias
de terras virgens onde os campos no davam papoilas mas
diamantes. Correu tambm com insistncia a tese de que ele se
enforcara na adega, farto das ambies de D. Carolina. O certo
 que o cadver dava ideia de um homem gordo e apinhado de
palavras, como que a querer ainda soltar algum discurso
daquela boca azul. E o Peralta, em vida, fora uma criatura
ossuda e silenciosa, com uns sorrisos despropositados que
ameaavam transformar-se em tique.

Hermengarda trancara-se no sto, dali ouvira os roucos sons
da morte, o sbito veludo que almofadava os passos e as
recomendaes. O pequeno Caru chegara aos Amorins havia
pouco, vinha pegar assim no negcio do tio que no tinha outro
herdeiro, apesar de afirmar-se como progenitor de quatro
rapazinhos cujas mes, receosas de qualquer ligao quele
homem soturno que barbeava os mortos, preferiam manter a prole
em bastardia. Hermengarda lembrava-se de espreitar entre as
telhas e de ver vomitar aquele desconhecido: vomitava,
inclinado sobre as suas penias. Isso irritara-a muito,
ficou-lhe sempre grata porque se distrara assim do luto. S
depois do enterro, a que no assistiu, se disps finalmente a
reflectir na morte, mas o pai aparecia-lhe como sempre,
embrulhado no cachecol de angor, passeando  nas leas do
pomar que era ento o orgulho da Baioa, muito branco,
assustado com o voar dos pssaros.
Ensinava-lhe as contas com exemplos de empresas, coisas muito
avanadas para a poca e que  filha pareciam repugnantes,
como grandes complexos avirios e porcas com velozes ciclos
reprodutores. Hermengarda  enjoava-se e tudo lhe parecia
pesado e sufocante.  Acabou por crescer, esquecendo-se do pai.

Maria Carmelinda, a Carmelita, como incorrectamente lhe
chamavam, pois que tomara ordens em S. Jos de Cluny, no
recebeu os noivos  com amabilidade.  Podia,  claro, proceder
como quisesse, porque, no sendo louca, cedo se apercebera  do
poder da loucura. Nas infindveis noites em  devaneava  luz
da lamparina, perguntou-se mil   vezes por que rasgara o
hbito e fumara os charutos que tinha encomendado a tempo ao
hortelo como se tudo fosse gesto premeditado. Mas nunca achou
resposta, nem motivo para glria ou arrependimento. Amara
mesmo a lisa brancura dos tecidos, tinha uma vaga ideia de que
essa beleza severa e depurada  que a chamara a ingressar na
Ordem.
To-pouco as consequncias daquele desvario - as terrenas e as
outras, ditadas pela clera de um Deus escarnecido lhe
assombraram  a vida. Fazia as coisas mais disparatadas, dando
por vezes tratos  imaginao que se esgotava e recusava a
criar mais rupturas nos actos quotidianos. Maria Carmelinda
considerava s vezes como era trabalhoso desviar os objectos
das funes para as quais o esprito dos homens durante tantos
sculos os concebera e aperfeioara. Era fcil usar um dia a
saladeira a servir de chapu, mas isso parecia-lhe dar  sua
loucura uma faceta demasiado corriqueira, no traduzia a
existncia de um talento. Havia tambm gostos que a prudncia
mandava no cultivar em excesso: despejar os bacios pela
janela sobre um passeio por onde circulavam senhoras da mais
limpa sociedade originou a interveno da tropa, porque uma
das vizinhas atingidas disunha de uma influncia junto de um
general. Os soldados vieram dar-lhe de ombros na porta, rindo
baixinho e murmurando obscenidades. Ameaaram regressar e
entrar  fora para a internarem num asilo, se a graa dos
bacios se repetisse. A Carmelita comentou ento,  de si para
consigo, que at aquela sua liberdade, paga a to alto preo -
j que comia mal e perdera a beleza de um dia para o outro -
tinha as suas submisses. Com o  passar dos anos  sentiu-se
fatigada e contentou-se com o dar nas vistas, debruada na
grande varanda do salo, pintada com rosetas e mosquinhas, de
botinas e saia fim de sculo, sorvendo uma boquilha coberta de
saliva.

Tomara por amiga e confidente uma costureirinha de chapus que
lhe fazia as compras e trazia as notcia da sua clientela.
Eram, para Maria Carmelinda, captulos de um longo folhetim
que mais ou menos lhe agradava ouvir, e a dispunham ou a
indispunham com a desprevenida narradora. Como dava
presentes - frutas e bibelots, ls e moedas - quando a intriga
era satisfatria, a costureira foi a pouco e pouco aprendendo
a mudar a crnica em fico.  Quando Hermengarda e Pedro
chegaram a Lisboa ficaram confundidos com o quadro que a prima
lhes traou: eram   facadas, roubos e traies, orgias e
incestos, embuados,
que de alto a baixo, dos palcios aos casebres, transformavam
a vida num esforo ou num milagre. Como os tempos andavam
realmente difceis por causa da
poltica, at Pedro Roz tomou por verdadeiras estas tintas,
roubadas a dez romances gticos que a costureira, em desespero
de inspirao, se aplicara a glosar. Depois riu, e olhou Maria
Carmelinda, que acreditava em tudo o que dissera, com um
estremecimento de ternura.  Diz-se que, alm da filha, e da
muito apagada memria da irm, s esta mulherzinha irritadia
encontrou o caminho para o seu corao.

Ela correspondeu quele afecto a seu modo, enervando-se,
acossando Hermengarda que era afinal parenta de seu sangue mas
cuja gravidez a transtornava, como coisa difcil de entender.

A casa era um monto de ps e de chiqueiro. Hermengarda,
sentindo que a tarefa de repor tudo em ordem exigiria uma
vontade que no tinha, retirou-se para o quarto dos pais e
dormitou.  Dormitou oito dias, at que a me chegou e
contratou criadas. Mordiscava omeletas de tomate e febras
temperadas com muito colorau, o que Pedro aprendera a cozinhar
quando seguia atrs dos saltimbancos. Ele era atencioso mas
frio com a mulher e quando a Carmelita aparecia no quarto,
invectivando a prima pela falta de apetite e de alegria que,
como ela dizia, iam  parar ao mesmo, via-se que o Roz
desviava o olhar para um rasgo que havia na sanefa,
disfarando um sorriso e uma aprovao. Data, pois, daquele
tempo, a cumplicidade entre a ex-freira e o jovem libertino.
As inconvenincias e os pequenos escndalos deixaram perplexas
duas geraes de lisboetas que no sabiam se deviam ofender-se
ou aplaudir o descarado par.

Muitos anos mais tarde, Maria Carmelinda  tentou reproduzir
esses momentos quando lvaro chegou para morar em Lisboa. Era
ento uma velha entrada em anos e de cabea realmente
enfraquecida, de modo que parecia que a sua personagem
finalmente incarnara no corpo criador, como os actores receiam
que acontea  com mscaras excessivamente amadas - e essa
coincidncia da loucura com as vacilaes de uma
ateroesclerose, as rugas que ocupavam o devido lugar num rosto
muito idoso, fazia-lhe sobrar ainda uma energia que, longe de
aplicar-se em hbitos sensatos, alimentava o seu pendor para o
desatino. Mas lvaro sentou-se,  como fizera a me, e
limitou-se a no chocar com ela. Maria Carmelinda foi assim um
fantasma que herdara com os mveis da casa. Ainda era viva
quando ele se casou e acabou por deixar-se  atropelar numa das
suas sbitas sadas, muito mirrada sob a capeline, dentro de
um casaco que tinha cinquenta anos.

lvaro j andava sem ajuda quando os pais decidiram regressar
 Viosa. Por essa altura  que D. Carolina resolvera exibir
relaes cordiais com a mulher do Caru que esperava criana.
Fazia-lhe visitas todos os fins de tarde e acompanhava-a
sempre  capelista, a escolher botezinhos e fitilhos de
nastro para os chambres do beb. Hermengarda aparecia algumas
vezes, no que simpatizasse com o esforo da me em domar os
escndalos mas porque comeava a estar  aborrecida.

Pretextando negcios de madeiras, o que lhe permitia manter
uma mentira que se apoiava na experincia da famlia, o marido
fugia para Lisboa onde, de madrugada, muito bbado, danava
com Maria Carmelinda, narrando-lhe as noitadas nos sales das
poetisas e coando os piolhos que apanhava nas camas de chita
das fadistas. Quanto mais indiferente e esquivo ele lhe
parecia, mais Hermengarda o desejava ento. Pedro voltava
carregado de presentes, muito olheirento e apaixonado pelo
filho. Queria que ele conversasse e montasse a cavalo e dava
pontaps nos bancos do terreiro quando lvaro acabava por
desfazer-se em lgrimas. A Marjoana intervinha, lambuzava o
menino com beijos vingativos e oferecia-lhe acar. Insultava
o patro que se suavizava  vista do seu rosto onde os olhos
azuis cintilavam da raiva, como se ela chorasse.

Hermengarda cansara-se do filho, discutira uma vez com
Marjoana porque a surpreendera a dar-lhe anis com o dedo para
o fazer dormir, mas depois
Desistira e deixara at mesmo de lhe pegar ao colo. No fundo,
tinha-lhe dio porque lhe atribua a culpa de findarem as suas
belas noites com D. Pedro Roz. Quando ele regressava e a
beliscava ainda debaixo dos loureiros, Hermengarda corria a
pintar muito os lbios e a prender flores vermelhas no gancho
dos cabelos. Num Outono enfeitou-se com crisntemos e  Pedro
namorou-a,
tecendo-lhe promessas, tal como se a estivesse de novo a
seduzir. Mas partiu outra vez e s pelo Natal a veio a saber
grvida. Essa filha, Anabela, amou-o e foi por ele amada de
tal modo que em Lisboa correram suspeitas de um incesto. Nunca
houve nada menos verdadeiro.

- Depois - relata D. Filomena - elas foram deixando de
aparecer. Primeiro a me, que pensou que j dera a entender
aquilo que ela queria que entendessem. D. Hermengarda vinha,
assim, por revoadas. A mim, que era ainda muito tamanhinha,
pareceu-me sempre um pssaro. Bicuda e sacudindo a cabecinha,
depenicando algum bolinho, algum licor. Vinha tempos seguidos,
depois desaparecia. S mais tarde, quando ela se trancou de
vez no quarto,   que eu vim a saber que tudo era consoante as
idas e as chegadas do marido. Mas, veja bem, passaram-se anos
nisto. A bem dizer, cresci com o Alvarinho. Houve um tempo em
que a me o trazia com ela, foi quando descobriu que era
bonito. A Anabela, no.  Tinha aqueles olhos, aquele grande
olho, conhece-a? Ah, sim, conhece.  Tirante os olhos, 
feiota, ...

Est fatigada, a D. Filomena. Forou-me a partilhar do seu
almoo, para contrariedade da mulher que a serviu. E falou
durante horas, recordou e colou pedaos da memria com a mesma
presteza e falta de ousadia com que repete e junta as suas
rendas.

Muitas vezes a me contara e recontara a histria das Baioas.
Preferia-a s histrias da sua prpria gente, de quem nunca
gostava de falar. Quando Hermengarda e D. Carolina espaaram
as visitas at que nunca mais lhe bateram  porta, a Carua
no soube prescindir da fonte de emoo que elas vinham
trazendo  sua vida, que to necessitada estava de folhetins.
Falava ento  filha, que ainda no tinha idade para tais
confidncias, dos episdios srdidos e exaltantes que
Hermengarda lhe havia segredado por querer experimentar a
amizade, a nudez da palavra entre mulheres, o que bem cedo a
decepcionou.

S lvaro manteve a frequncia da casa. Era um rapaz magrito
que se desesperava com as frmulas comuns de cortesia e as
perguntas correntes das famlias.  Gostava de trazer a
Filomena cestinhas cheias de ovos e de rainhas-cludias e
ficava a olhar-lhe as tranas pouco espessas e o sorriso
aguado, que parecia faminto. Mais tarde tomou nimo para se
furtar de vez s recepes solcitas da Carua e passou a
falar com Filomena  porta do quintal ou encostado ao muro,
assobiando baixo para que ela assomasse  sua janelinha. Foi
quando se tomou aquilo por um namoro.

- No, no - diz ela. - Eu nunca namorei, mas conheo que 
coisa diferente. Ele falava comigo, o Alvarinho, mas, como
hei-de dizer, falava, s. Olhava para mim sem reparar, como se
olha para os pobres, compreende?  Que, ao meu pai, o trabalho
no faltava. Mas o qu, no podia escolher os fregueses.
Recebeu muita lgrima por conta. Gente de posses no morria
que chegasse. Passei muita manh ali em baixo, a v-lo
martelar, toca que toca. Punha-se a futurar: este e aquele,
ests a ver, Filomena? J andam amarelos. Da vinha o respeito
que lhe tinham, aquela m vontade nas pessoas: de ele parecer,
quando olhava, que j estava mas era a tirar as medidas...

E ri-se, ri-se, a D. Filomena, esfrega com lentido os
olhinhos de peixe... Quem sabe quanto riram, pai e filha, 
espreita nas janelas trreas da oficina, comentando a estatura
dos passantes, imaginando qual a cor do cetim e o veludilho
que conviria  sua cabeceira. Pergunto-lhe o que existe no
rs-do-cho da casa, se ficaram vestgios do tempo dos
caixes. Est alugado h anos, esclarece. Julga que  um
depsito para garrafas vazias. Ouvem-se os ratos, diz, um
fervedouro, sobe de noite aquela chiadeira.

A salinha aqueceu e tudo tem um ar levemente esmagado pelo
peso da tarde. Se houvesse flores em jarras, murchariam,
ouo-me eu a pensar. No por aco da morte que tantos anos
ali fez os seus embrulhos, mas por excesso de cheiros e de
recordaes que voltam a tomar assento sobre os mveis e a
engrossar o espao, agora que a dona da casa se calou e que o
vento soprado pelas suas palavras deixou de circular. Ela
suspira, e vejo claramente que a lembrana do pai a perturbou.
Tem um estremecimento de cabea como quem vem  superfcie
respirar. Aponta para a televiso, a despedir-me:

- No tem visto a novela?  H, pois, s cinco. Acenda, faz
favor.

Tem to poucas visitas a D. Filomena que esqueceu, ou
despreza, regras de urbanidade. No pareceu estranhar que eu
me tenha atrevido a ficar tantas horas na sua companhia e que
tenha aceitado parte do seu almoo, no havendo entre ns
qualquer conhecimento. E, agora, sem cerimnia, expulsa-me: do
seu mundo: est disponvel para outra fico, a horas certas,
onde lhe  garantido um fim consolador. No se encontram a
mulherzinhas hidrpicas a quem a vida e a vila fecharam numa
sala, como quem numa bolha de ncar um qualquer foco  de
malignidade.

Ela vai emergindo do passado de um modo que percebo
irreversvel.

Falava-lhe de qu, o Alvarinho? -  pergunto ainda, e vejo-a
encolher-se,
escapar-se-me das mos. H, porm, qualquer coisa que lhe
agrada, que a leva a conceder-me essa memria:

- De palavras. Falava de palavras.  Ele sabia os sentidos das
palavras que tinham existido antigamente. Dizia que o meu
nome: Filomena, que era o de um rouxinol. E assim por diante.
L anda o  rouxinol no meio das rosas, dizia-me ele, e eu na
janelinha... Invenes dele, s tantas, eu sei l. Acha que
houve sentidos nas palavras, outros, diferentes dos que tm
hoje? Ele tambm dava a entender que sim.

Os seus olhos esto fixos no ecr, mas ainda contemplam
Alvarinho, os seus ombros um pouco inclinados para trs, para
ganharem perspectiva sobre o muro. s vezes, a pequena
Filomena debruava-se um pouco de mais no peitoril,
prendiam-se-lhe as tranas na roseira que lhe trepava em volta
da janela.

- Sabe que o Alvarinho me contava uma histria assim, em
episdios, como estas brasileiras? Um bocadinho cada dia, e eu
zangava-me. No sei porqu. Naquele tempo, a maior parte das
histrias tinha esse feitio de folhetins... Era a histria de
um homem. Queria voltar  terra e nunca conseguia. Por isto ou
por aquilo. As mais das vezes, eram mulheres, rainhas, que o
prendiam. Bruxas, sereias, mulheres ms e mulheres boas.
Queriam ficar com ele, porque ele era bonito. E ele, no seu
barquinho, zac, zac, por aqueles mares de Deus.

- No se chamava Ulisses?

- Era o Ulisses, pois. Conhece a histria?

Encara-me, risonha, um tanto admirativa. H de repente um fio
entre mim e o lvaro que se torna visvel, como uma semelhana
de postura ou um trejeito, reveladores de consanguinidade.

- O que quer saber dele? Morreu. Que mais? -  pergunta,
bruscamente.


- Talvez no fosse morte natural.

- Foi sim. Foi. Sim - diz ela, com firmeza quando ele aqui me
entrou, eu logo vi.  Sim. Conheci-lhe a morte, e no me
engano. Vi-a poisada onde ela gosta de poisar. No pescoo, nos
ombros da pessoa. E a fazer com o dedo o seu sinal: este,
vou-o levar no tarda nada. Estava muito doente, o Alvarinho.
Visitou-me. Uma vez. Com ela s cavalitas.

Comeou a novela e ela sacode as mos, para me afastar. Deso
os degraus e pro ainda, a olh-la. Corresponde, lanando-me
um adeus amigvel:

- No pense nisso, ouviu? Ele veio para morrer. Oua! -
chama-me ainda. - Aquela histria. O Alvarinho nunca a
terminava. Que fim levou o homem?  Sempre voltou ao stio onde
queria voltar?

- Apoio a mo na arca que mobila a entrada e pergunto a mim
mesma o que poder conter.

- No. Era um mentiroso. Esse tal stio, a terra nunca tinha
existido.

- Mas tinha nome.  Tinha um nome, sim.

- Era inventado.

- Ah. Ento no havia mesmo fim para a histria. E eu que lhe
levava aquilo a mal... - suspira, desligada de mim, j
desatenta.

Caminho de regresso ao centro de Amorins, primeiro
envergonhada, depois surpreendida com as minhas respostas.

- Ento, sempre l viu quem ia ver? - informou-se Perptua.
Estava a servir-lhe um prato de galinha guisada e lvaro
esforava-se por lutar contra a nusea que o vapor da comida e
o cheiro a p e a azedo lhe acordavam no estmago. A mulher
afastara para um extremo da mesa a tralha inominvel que a
cobria e estendera um quadrado de tecido vermelho. Depois
cruzava os braos e encostara-se  pedra que ombreava a
janela. Respirava com fora, vigiando-o.


Ele no se atrevia a mand-la sair e desejou, como era seu
costume, que qualquer coisa acontecesse e a levasse. Ela
fizera enfim aquele rudo, quase um soluo, um atropelo do ar,
como se a fala no se produzisse seno com esforo e com
preparao.
-
 L viu quem ia ver? - interrogou. A voz pareceu repor o tempo
no seu curso, despreg-lo das manchas da parede. Era uma
conversa a comear e ele sups que a mulher se aplicava a
trat-lo com afabilidade como tinha a ideia que faziam no
campo. No, - respondeu -, no estava l ningum.

A mulher inclinou-se, entrou na obscuridade e perdeu todo o
ouro vermelho que a cobrira. Ia-se aproximando, enegrecia, com
a anca encostada ao rebordo da mesa.  Ouviu-se-lhe o estalido
da saliva:

- E quem, se bem pergunto, procurava voc? A Carua?  Ento
tinha de l estar.  No sai de casa, aos anos que aqui estou,
nem nunca a vi. Tinha de estar, no se enganou na porta? A
ltima a caminho para c. Com o quintal em cunha. Ajuntam-se
as estradas. Essa. Bom. Dormiria.  experimentar com a fresca.
Foi a isso que veio?

As palavras surgiam facilmente, cobrindo enfim noes
familiares. E empurrada por elas, como se algum lhe desse uma
pancada autoritria e ntima contra as omoplatas, a caseira
sentou-se, com os braos traados em cima da toalha. lvaro
nunca vira um criado sentar-se  mesa em que ele comia. Olhou
para a mulher com ateno e despejou um pouco de vinho para o
copo. Era um vinho pesado que levantava espuma. Como  o seu
nome?

- Perptua, para o servir.  Beba-lhe, beba-lhe. Coma-lhe mais.
Com este caloro, azeda tudo de hoje para amanh. Tenho a uma
arca, avariou-se. No h quem queira trabalhar, senhores. Pois
ento, quando a vir, l vai de volta? Digo, fao uma ideia
pela roupa.

O quebranto do lcool ia-o apequenando, o seu sangue
tornava-se um sangue de criana, difcil de conter, sempre
pronto a escoar-se pelas feridas, pelos raspes na pele, pelo
nariz. Era um sangue que ainda no estava resignado a circular
sem fim nas mesmas galerias, como um escravo nas minas. Lutava
ainda contra o seu destino, tinha o seu prprio ouvido, reagia
com aceleraes e com tardanas.
lvaro estava a  v-lo regressar, sentiu calor e uma ligeira
repugnncia e confundiu depois Perptua com  Marjoana, que lhe
empurrava o prato para o peito.

To diferentes as duas, Perptua  e Marjoana: negro e luz,
magreza e vastido.  Marjoana, na glria da sua trana loira,
a incit-lo, a lambuz-lo de carinhos, rindo o seu riso bravo
que  enchia toda a casa. Entre ela e o D. Pedro havia coisa,
sabia-o por exemplo, a cozinheira que puxava o pigarro e
encruava a comida aquando das estadas do patro. lvaro
conhecia esses furores, chegava-se ao fogo para apanhar na
queda os sarcasmos que quase no faziam sentido.

Ele vivia no cheiro de Marjoana, aninhado nas sombras que
espalhava aquele vulto carnudo, todo sol. Merecedor de raivas,
sufocante, feito para estender as mos e embalar, como quem
pode meter de novo a  cria na barriga. Enquanto que
Hermengarda, trancada no seu quarto, se dava a conhecer apenas
nas pancadas dos taces dos sapatos no soalho. Falou-se que
deixara por fim de alimentar-se, como tinha deixado de sair e
falar, sem que Pedro Roz se sentisse por isso carrasco ou
carcereiro. Embora nesse tempo as crianas no fossem poupadas
s tragdias, D. Carlina foi mantendo os netos afastados da
vista da suicida porque  aquela era a nica forma de
passamento que lhe parecia indecorosa como um parto.

lvaro recordava que tudo acontecera devagar, devagar. E que a
irm chorava ao colo da ama,  com birras que apiedavam toda a
gente porque as atribuam ao desgosto, a uma inteligncia
supranormal do, factos, havendo quem lhe achasse perfis de
santidade. Mas, bem pregada  solidez da terra, movendo os
dias com o seu empurro, armada dos pequenos pensamentos  que
garantiam a comparncia da rotina, estava Marjoana - desse por
onde desse, a vir chegar-lhe prato contra o peito.

Agora que a lembrava, percebeu claramente que preferia essa
imagem  da mulher de meia idade, lacrimosa, que se abraara a
ele trinta anos atrs quando ele imitara aqueles que levam a
mulher, a famlia, aos seus lugares de infncia.
 Marjoana engordara e cortara o cabelo que havia empardecido.
Os olhos tinham ganho blefarite, mas o esplndido azul
brilhava ainda com o seu bruto afecto. Ela e a casa estavam
sujas, apoiavam-se com mais peso no cho.

Depois, devia com certeza ter  morrido. Anabela ter-lhe-ia
segredado a notcia e ele no a ouvira, como era habitual.
Ainda que vivesse, no existia j, seria outra pessoa. Tal
como a Filomena que ele vira essa manh: uma idosa senhora
apatetada que props recordar-se, cumprir exactamente a sua
obrigao, o seu papel de velha. lvaro retirara-se ao
primeiro silncio, no queria partilhar com ela essa menina na
janela das rosas que ele via ainda a persignar-se, aflita, com
os lances de perigo das histrias.

Onde se dava o seu encontro com Marjoana era ali, quando os
nervos e os sentidos, levitados pelo vinho como por um jejum,
a tinham avistado por  dentro de Perptua. Magra, escura,
rugosa, essa Perptua, com minsculos olhos de carvo. E no
entanto  criando as suas aves com smea e hortalia escaldando
a roupa branca, pondo a mesa e empurrando a travessa coma,
coma, feroz, como quem tem de salvar vidas, igual a Marjoana,
ensinada no bero com as mesmas lies.

lvaro enganava-se, interpretava mal. Interpretava sempre mal
os gestos que lhe eram dirigidos, querendo reduzi-los a pouca
variedade, torn-los to familiares que se aquietassem. No
suspeitou que a ansiedade da caseira, aquilo que a sacudia e a
levara a atrever-se  fala, nascia do seu medo e da sua
avareza das contas  que deitava na cozinha enquanto  depenava
o frango aos repuxes: que queria, ao que viera o raio do
homem e quem lhe pagaria os gastos com a mesa, que o trabalho,
isso, enfim, lavar-lhe uma  camisa, pr-lhe  um  lenol um
lenol na cama, seria o menos, afinal era um patro. Movia a
faca com enervamento, a  fungar, com o lume atiado de mais
para o estrugido. Tinha de perguntar. Como quem faz conversa
de  entreter, para distrair a boca do fastio.

E lvaro sorria, sonolento, via naquilo uma solicitude. Pouco
teria de pagar por ela, por ali os olhos dos que em Lisboa o
iam procurar vidos, assustados, pedindo o benefcio da
contaminao, como se a  virulncia da escrita se pegasse. O
que Perptua lhe pedia era somente que comesse e dissesse quem
ia visitar, em que lugar estaria a cada instante: praticamente
o que se exige a um menino. Ele ergueu-se da mesa, confortado,
porque lhe era possvel regressar. Ento, pensou ainda, o que
havia a fazer era regressar mais, chegar-se para trs.
Entraria depois na zona sem palavras, depois sem luz, sem
oxigenao. E, l no fim, aquilo que o chamava, o ninho da
sereia, balouando. gua de dormideira, gua pesada que
petrificar o corao.

- Onde quer ir com esta caloraa? - atirou-lhe Perptua,
tomando a dianteira.  Parecia disposta a erguer-lhe barreira
com os braos em cruz, a vedar-lhe a sada.  Era, supunha
lvaro, uma velha corrida: a mulher a marcar os limites da
casa at onde alcanasse  a sua proteco, e a criana
escapando, enlouquecida pelo cheiro, pelas vozes do perigo. A
represa do rio. Ainda l est?, perguntou e a caseira parou
subitamente: havia nela, quando se voltou, um qualquer
pensamento de tal intensidade que pareceu clarear o corredor.
Mas brilhou e morreu no mesmo instante. Descaam-lhe os
ombros, desistia; e abriu-lhe passagem, suspirando com um leve
suspiro, puxando a grande porta com os restos de uma energia
que se dissipava.

lvaro recuou sob o calor. Como se um co de guarda o
recebesse, de patas levantadas, a lamb-lo. Todos os sons da
terra repousavam, esperando a sua vez, a fraqueza do sol. Mas
no lhe foi difcil caminhar, era o mesmo carreiro entre as
accias, depois entre terrenos de cultivo que ferviam, rodos
pela seca, e, adiante, entre pinheiros bravos. E, como essas
distncias se tinham encurtado e as subidas  se tinham abatido
porque agora as transpunha com o seu passo de homem, pensou
que havia naquele cheiro a p e  a seiva qualquer blsamo, um
tnico que o fazia correr, chamado pela gua.

Perptua no dissera se ela existia ainda, em todo o lado os
rios iam secando, deitando espuma como os mortos por veneno.
Fosse o que fosse, alguma coisa l estaria, um stio onde a
memria se firmasse, ia-se ele avisando, e caminhava.

Ento, do alto do pequeno cmoro, pde avist-la,  praiazinha
branca que se engrossava em pedra como para durar e ganhar
permanncia, no rio. E, apesar daquele Vero que  requeimava,
a represa l estava, verde-escura, orlada de amieiros, com o
seu corpo luminoso escorregando deixando-se levar, arrastando
consigo um ligeiro carrego de  plenes e folhagem. Mas to
devagarinho que podia despir-se, perder um pouco a pele,
assentar sedimento naquele fundo. L estava: e era igual 
que lvaro encontrara escondida na lembrana, enquanto tudo,
tudo se tinha transformado. De tal modo comeou que quando
comeou a descida lhe pareceu tomar posse de uma  prenda,
abrir com um sorriso aquele embrulho.

 Vista de perto, a areia estava suja, tinha em cima papis e
cabeas doiradas,       restos de peixes fritos. Dentro da
gua, um sol chispava, preso, revelava as
 Poeiras, os farrapos do lodo. Com aquela matria que fugia e
que o ameaava, essa massa que a tudo se agarrava para sorver
a forma, a cor, a temperatura, com os olhos na gua  que ele
escrevera muitos dos seus poemas: vendo as imagens muito
refractadas, as janelas submersas, ondulando, as mulheres
azuis de boca entreaberta.

Fugia para ali em rapazinho, sem nunca se despir, sem
descalar as meias, agitando somente as mos  superfcie para
engodar o peixe. E contava a si prprio as histrias que
sempre se contam as crianas, inventando injustias, coitos de
benfeitores. As damas protectoras sentavam-se nas pedras,
emergiam do lago enxutas nos seus vus, cantando s vezes, se
sofriam do feitio.

Estava ele a lembrar-se, e j sem a vergonha que o faziam
sentir os devaneios. A lembrar-se, com tempo, podendo demorar.
Ento, do outro lado, surgiu a rapariga e deitou-se a nadar
direito a ele. No tinha semelhana com as suas vises: era
morena e quase atarracada, com um excesso de msculo nos
ombros. E, ao contrrio das fadas, no mostrava doura nem
maldade. Soprava, sacudindo o cabelo curto, como a querer
libertar-se de uma clera. Os mamilos, num peito j pesado,
tornavam-se visveis contra o fato de banho. Tirou uma toalha
de onde a
dissimulara, entre um tufo de canas. E virou-se para lvaro,
enfrentando-o.

- Pronto, j me encontrou. Ia encontrar.

Aquela irritao pusera-lhe no rosto o verde pardacento que 
a palidez das peles grosseiras. As espessas sobrancelhas
escureciam mais uns olhos pestanudos.  Toda ela, alis,
parecia recoberta de uma penugem que sujava a vista. Era um
corpo de  pobre e estava a atirar-lhe com a raiva dos pobres,
essa obscura energia que eles criavam nas veias e rebentava ao
mnimo pretexto, como a vontade de danar nos negros. lvaro
conhecia aquelas exploses, anos atrs ainda dava alguns
passeios na direco do Tejo descendo por caladas onde ouvia
gritar e rir as  vendedeiras. E agora esse sangue, essa raa
impulsiva, difcil de entender, viera ter com ele, mostrar-lhe
os dentes na sua prpria casa. Quis rir, mas teve medo de que
ela o agredisse.

- E a menina, quem ?

- A Liza, sou a Liza. - Caminhava  de um lado para o outro,
remexendo a areia com os ps. Depois parou, a enfrent-lo
novamente. Cravara os ns dos dedos na cintura. - O meu nome 
Lizette e ele  obrigou a darem-me este nome. J viu? Por uma
guerra no sei onde, calhou-me a mim ficar com um nome de
puta.

lvaro riu, surpreendido pela histria, pela maneira fcil e
brutal com que lhe dava voz a rapariga. Ela hesitou, pareceu
ganhar confiana, depois sentou-se na toalha e riu tambm.
Tinha uns lbios carnudos, com cutculas.

- E agora, corre com a minha tia?

- A caseira - disse lvaro e procurou a sombra  porque ia
demorar-se. Havia ali a raiva, as dissimulaes, a pequena
histeria do poder que dantes forneciam a trama dos romances. -
A caseira.  Que mal tem?

- A senhora no quer que ela meta ningum, ningum, em casa. E
ento eu.

- Tu porqu?

- Porque  esquisito. Voc no acha que  esquisito eu aqui
estar?

- E eu?

- Parece um pobre, com a barba, e isso... A minha tia achava
que voc se ia embora porque no trouxe roupa.

Estendia-se, a secar, muito feita de terra, escura, coberta
ainda do seu plo animal.  E naquele modo de deitar-se ao sol
via-se que contava com a benevolncia, que no queria
cruzar-se com males definitivos.

- No. Vim por muito tempo - disse-lhe lvaro.

- E a roupa?  E aquele quarto no est em condies.

Assim surgia o instinto da mulher, a lavar, a varrer, a
sacudir as coisas. A mulher  varanda, com vasos de gernios e
os pssaros presos, a mulher retirando o tabuleiro do forno,
enfiando na espuma os cotovelos. Mesmo a sua mulher parecera
omnipresente, regendo tudo, conhecendo a palmo o contedo e as
faltas nas gavetas. De um lado para o outro andava ela,
exausta, barulhenta, perseguindo as criadas. Eram precisas as
mulheres: esbracejavam, mantendo a casa  tona, aquecendo os
espaos com o seu movimento para que o bolor no comeasse o
seu trabalho. E ali estava Liza que devia tem-lo e pedir-lhe
desculpa por ter contrariado as ordens da Anabela - ali
estava, indiscreta, autoritria, sabendo a misteriosa cincia
feminina.

- Podes dar tu um jeito. No meu quarto. Ou limpar-me outro.
Vais ficar por c?

Ela encolheu os ombros, enervada:

- A senhora, em sabendo, pe-nos fora.

lvaro levantou-se, fez-lhe com a cabea sinal para que o
seguisse. Antes da morte, na preparao da morte, passava-se
por estranhos territrios, pensou:  jogos de luz, pavores,
deslumbramentos. Talvez tambm estivesse prevista essa
experincia tocar noutro mundo, de conhecer de perto gente e
falas e vcios que toda a sua vida se tinham deslocado
paralelos a si, na cozinha da quinta, nos bairros populares.
Sentia-se excitado, divertido, como se viajasse no meio de
aldeias ndias. A perspectiva de uma luta  com a irm, supondo
que algum a informasse da presena de Liza e que ela, como
lhe era muito prprio, viesse aos Amorins escandalizar-se,
tomou at o aspecto de um prazer. J no o transtornava
imaginar os ais, as dispeneias ansiosas de Anabela. Ningum
ali se comovia facilmente.

A penso: com as tbuas compridas do soalho a ranger, muito
gastas pela escova.  Com os velhos armrios de onde se solta
um p, como um suspiro, matria que se exala de si prpria.

As fendas nas paredes foram recm-cobertas, correm agora sob a
tinta azul com mais relevo, emaranhadas, claras - levando a
que as conversas  hora do jantar incidam muitas vezes sobre
fsseis, as razes areas das runas ou os canais de lodo que
minam o subsolo da baixa lisboeta e ho-de ser a tragdia da
cidade.  Conversas que se travam antes da refeio, enquanto
no se acendem as luzes amarelas e o noticirio no domina os
rudos. Porque ento se acautelam todos os comensais que,
sendo poucos, podem no entanto ter as suas leituras
antagnicas dos factos do desporto e da poltica. Convm que
nada mais azede a sopa que Dona So Jos serve, em triunfo, -
para alm do tomate que ela usa em abundncia.

O arroz que acompanha o peixe frito  cor-de-rosa vivo e
cintila, ensopado na cozedura de cebola e leo.  bonita, a
comida de Dona So Jos, os farrapinhos
de Pimento verde que se vo descobrindo aqui e ali quando a
colher vai mais ao fundo na travessa e que levam a que s
vezes, sem razo aparente, algum perca a notcia mais
impressionante e abane a cabea envergonhado assim que outros
lhe chamam a ateno, porque se abandonara s conjecturas de
como e onde crescem as esmeraldas e se, coando as guas dos
riachos, tal como dizem que se faz por ouro, as acharo no
fundo da peneira. Ou se as arrancaro dentro da
terra, por corredores de minas onde anda  um tal esplendor que
aqueles que avanam no regressam  nunca mais, e os que fogem
a tempo, com uma ou duas pedras nas mos enregeladas, perdem
para sempre o gosto da riqueza.

- Est boa, a pescadinha? - diz Dona So Jos e eu olho-a,
assustada. Sorrio, aprovo muito, com precipitao. Ca na
armadilha das imagens, o que, venho a saber, sucede a toda a
gente na penso Pr-do-sol. H at quem prefira, mesmo por uma
noite, alugar quarto na do Fernandinho, casa particular de
pouco asseio
mantida pela viva de certo jogador que ficara famoso no seu
tempo, no apenas pelos altos e baixos da fortuna como tambm
por sofrimentos e arrojos a que as paixes por homens o
levavam.

Pois que, apesar da sua mo possante aliada ao feitio pacato
do marido, a Dona So Jos no conseguiu ao comprar a penso
h ano e meio atrs, expurgar inteiramente o stio daqueles
vcios que tinham conduzido ao seu encerramento.

Contou-mo ela prpria, a So Jos, debruada ao balco do
telefone, ainda bela e sem cabelos brancos na sua trana
intacta atravs dos vinte anos passados em Paris. A fala, essa
anuncia a contaminao, com as suas vogais afuniladas, aquele
crescer da convico no fim da frase, v'l, v'l, insiste,
significando que entre os interlocutores se deu a harmonia,
que ficou estabelecida uma compreenso. A filha, que lhe
herdou, afinada, a beleza, pouco se d com os hspedes. Diz a
me que ela cisma pelos cantos, que folheia revistas sem as
ler.

 uma idade m, pondera So Jos. Mudei o nome da penso e
assim, mas ficou muita coisa a  solta. Nesta idade, j sabe,
apanha-se de tudo. S passa em se casando. Ainda acabamos por
sair daqui. J viu? O sonho inteiro de uma vida.  Que, para o
pai, no ver dele,  falta de trabalho. Que os cheliques s do
nas horas vagas. Ora! Passei muito, eu, para ela no passar.

A So Jos criou-se perto dos Amorins, num lugarejo que hoje
triplicou de tamanho. Vinha  vila ouvir missa com as tias
porque a me muito cedo lhe ficara entrevada. Conheceu desde
sempre a fama da penso que se chamava nessa altura O
Casalinho. Ningum por l passava sem que se lhe notasse um
ligeiro transtorno, nem podia chamar-se uma perturbao - mas
um grande apetite por histrias, uma incapacidade para manter
conversas com certa ordem e sobriedade, como se de repente a
imaginao inchasse e no pudesse ser contida.  mais leve
impresso da vista ou dos ouvidos, era um galope, um desfiar
alucinado que ia deixar boquiaberta a audincia, sem que por
isso se considerasse haver ali loucura.

Tudo se atribua ao provado fascnio da dona da penso, uma
mulher clarssima que parecia fazer um luto misterioso e que
passava as tardes  janela perfumada e exibindo em pleno
Inverno um decote sardento. Ningum levava a mal estas
maneiras, todos sabiam que Maria Estela no tinha, no tivera
e no iria ter qualquer vida secreta, que era to virgem como
Deus a dera ao mundo apesar de albergar em sua casa muito
homem com pinta de sabido. Alm do mais, Maria Estela era
bondosa, mandava sempre cozinhar em excesso e os filhos dos
pobres
Saltavam-lhe, ao crepsculo, o muro do quintal para encher as
latinhas.

- No, diz-me a So Jos, esse senhor por quem tem perguntado,
o da Viosa, no sei se a conheceu,  Estelazinha. Quando eu
c vim servir para a penso, que me lembre, no vi. Seria h
qu? Foi h trinta anos, pois. Trinta e cinco, v'l. Ah, j c
ele no estava? Ela teria, a Dona Estelazinha, agora, os seus
setenta. Para mais.  Ah, bom, ento talvez se conhecessem.
Nasceu aqui, isto j vinha dos avs. Mas o qu: queria
convencer a gente de que correra mundo, e cortejada. Era
bonita, sim, loira, vistosa. S que ningum a queria, ela no
tinha o tino que  preciso para uma pessoa se casar, mandar
vir filhos, conduzir a vida. A penso caminhava  para trs,
tinha criadas velhas que orientavam tudo. Ela, no. Uma santa.
Mas ia para a sala de jantar com aqueles veludos, os leques,
faa ideia, e parecia que a  coisa se pegava, aquela falta de
noo, eu assisti, os risos, os disparates por d c aquela
palha. Mesmo algumas criadas foram perdendo o p. s tantas o
trabalho no rendia. Iam fazer as camas, l ficavam sentadas
junto ao espelho, a sonhar.  Eu: no,  senhora, fiquei sempre
a salvo, acho que so fraquezas da cabea.
O que : de tanto ano assim passado anda a uma espcie de
fantasma. Veja: a Estelinha morreu, fecharam tudo, isto tambm
no tinha movimento nenhum, e ningum da famlia se entendeu.
At eu regressar. Deus me perdoe, parece que ela estava a
tomar conta, a segurar a venda. Porque eu tinha jurado, e
abalei, e casei, tive a filha e conheci a vida, tinha jurado
que ainda um dia havia de tomar a penso. Fizemos-lhe obras, e
mudmos-lhe o nome. Mas  o que se v. Ficou a fama e de
qualquer maneira,  verdade, as conversas vo ter fora do
stio. Reparou?  No h tino. Tudo mania, diz o meu marido.
No  de c defende-se e faz bem. O que nos vale  a
televiso. Ali ao menos  assim e  tudo. Calam-se, mas s
vezes v-se que j escaparam. Houve a um senhor que achou que
era uma pedra, que era uma pedra de im por debaixo do cho.
Que estudou, que sabia, afianava. Mas a gente no quer que
isto d escndalo, que venha nos jornais. Era a uma santa da
ladeira. O meu marido diz que, a ser verdade,   fermento que
os vinhos apanham na despensa.  Ri-se. Eu tambm me ria , se a
rapariga no me andasse  azamboada. Da idade, no ? Estou em
crer, pois. Quem lhe pode falar da tal pessoa  a o velhote,
o senhor Rosa. J lho mostro ao jantar. Tudo, sabe de tudo
sobre a terra e o mais do tempo andou por fora, veja. Disse,
ele disse, ele disse uma coisa da Viosa quando o homem
morreu. No era esse? Era, vl. Eu mostro-lhe ao jantar.

 aquele homenzinho a quem a Dona So Jos disse um segredo e
que se vem chegando  minha mesa com rodeios, com o seu
saltitar, os olhos atrevidos, salientes e claros, parecendo
que o arrastam, que o puxam aos saces como se fossem eles o
motor daquele corpo fcil de deslocar, ou porque j mirrou, ou
porque sempre escassearam nele os favores da matria. Vivao,
o senhor Rosa: j entrado em idade mas sabendo aplicar
airosamente as etapas do velho galanteio.  O beija-mo, o
brusco esticar dos punhos fora da camisa, o dobrar da cintura;
a voz mais grave, um tanto sussurrada, cortada por alguns
acessos de pigarro, como se assim fizesse prova de esperar
frases ntimas, insinuaes obscenas. Trata-me por Excelncia
e j me fatigou, mesmo antes de sentar-se e sossegar.

Chamou a ateno de toda a gente. Os quatro outros comensais
evitam bater com a colher nas chvenas do ch. Emudeceram e
revelam claramente que, ainda que passivos, esto dispostos a
tomar parte seja em que conversa for. A Dona So Jos foi
juntar-se ao marido na mesa ao p da porta e abarca toda a
sala, atenta, possessiva.

Eu s quero saber se o senhor Rosa se cruzou de algum modo com
lvaro Roz.  Mas ele no se resigna, no permite que o meu
interesse pelo Baiozinho o queira reduzir a um relatador, a
uma transparncia que apenas serviria para que, atravs dela se
avistasse um espectculo. No  ingnuo, o pequenino senhor
Rosa:
faz-se valer, pe-se na frente e tagarela, seguro de que o
hei-de ouvir at ao fim. s vezes, baixa a voz ao tom da
confidncia, une as pontas dos dedos e reclina-se, comea a
distrair-se at emudecer. Depois investe sobre mim,
esgania-se, tomado por violentos assaltos da memria.

Os hspedes oscilam, transformados num grande ouvido que se
move e alarga, procurando aquilo que me  dito. S Dona So
Jos e o marido, um homem quase negro e sem cabelo cujo nome
ningum parece conhecer - s eles no mantm nenhum esforo ao
demorarem daquele modo  mesa, sorrindo, paternais, sem
pensamentos, muito afastado j daquele lugar.

Eu estou arrependida, esmago nervosamente bocadinhos de po. O
homem incomoda, fala, fala atira com as palavras que se vm
colar como bolas de lama contra o meu devaneio onde lvaro
Roz conversa com Estelinha, se deita com  Estelinha. Conheceu
a Estelinha, o lvaro Roz? O senhor Rosa no se deixa
interromper. Ofega, precipita-se, receia fazer pausas. Ganhou
direito a ateno, este homem. Vejo-o corar um pouco,
escurecer na luz pobre da sala, quando o encaro enfim, j
disponvel. Provavelmente vai repetir tudo, considerando a
hora que passou como um  prlogo, a conquista de uma boa
audincia.

Que viu o mundo, diz. E muito mundo, aplicando na hora, e
consoante as caras e as polticas, e os caprichos dos tempos
que umas e outras mudam, sua cincia da conversao. Que ele,
Agostinho Rosa, se orgulhava de seguir a ideia  de um cliente
com preciso de Perdigueiro, assim: adivinhando quanto devia
adivinhar,  estacando onde era bom que se estacasse.
Concordando: Um men de ponta a ponta, porm com acrescentos,
com razes desdobradas, apresentando histrias como exemplos
para avivar o  quadro, no fossem acus-lo de cinismo. E a
graa  estava, e a  que se via quem tinha unhas para o
instrumento, em mudar, de uma terra para a outra - o que dizia
ele? de uma para outra porta - falando aqui da situao, ali
da bola, e por dentro da bola sendo ora do Sporting ora do
Belenenses, logo a seguir contra as patuscadas, revelar a
delcia que  misturar orgos no molho de escabeche. E as
mezinhas, assuntos de doena? E mortes?   E as pancadas de
assombrados? Serei - atira-me ele -, serei capaz de calcular
quanto saber e mais quanta ginstica, que fibra manda aquilo?

No sou. No fao ideia do que est a falar. Mas ali na penso
 tido por costume que as palavras avancem, se atropelem, sem
antes meditarem num sentido.

Por isso ele hoje, continua o senhor Rosa, reformado e cheinho
de trabalho. Que o patro no o larga, e os clientes?
Troc-lo? Pela gentalha  nova que nem de contas sabe, quanto
mais? Que ele: muito digno, sim, mas agradando. Mas lendo os
pensamentos, uma enguia; sim, de certa maneira, uma enguia a
esgueirar-se para dentro das cabeas.

- Por exemplo, e agora vou deix-la varada, est Vossa
Senhoria a querer falar do lvaro. Ah, como sei?  Sei tudo. Eu
no lho disse?  isso o que distingue um vendedor.

Com um suspiro, a sala esvaziou-se, desvendado o mistrio da
conversa. Os hspedes retiram-se, resmungam, como se fossem
vtimas de um logro. Quer dizer que j todos falaram e ouviram
a respeito do lvaro, que esse assunto  agora qualquer coisa
que os entedia e os impede de voar. Algo que foi perdendo o
cheiro e as entranhas, onde no h espessura, nem sangue, nem
calor para mergulhar as mos e para beber. Histria to
desdobrada e repetida que se moeu, que debotou a tinta.  H-de
ser, pois, uma pequena histria, sem irradiaes, sem
resistncia, que se esvai com o uso, que se apaga.

Agora est o senhor Rosa a rir porque me entrou na alma com a
sua cincia e considera aquilo um feito aprecivel.
Conheceu-o, ento, ao lvaro? pergunto.  Viu-o, quando ele
voltou aos Amorins?

- Se o conheci, diz ele, e olha em volta para as mesas
desertas, como se o que eu pergunto o indignasse e lhe desse
prazer a indignao. - Se o conheci, ora que ideia a sua. Ao
neto da Baioa, ao Alvarinho, se o conheci. Pois se ramos
irmos!...

A Dona So Jos assoma  porta, talvez preocupada com a conta
da luz. Ainda penso em cham-la, para que o senhor Rosa se
assuste ou se envergonhe e no se entusiasme na mentira. Mas
j ela voltou para o corredor. E o homenzinho brilha, est no
palco, demora em mim aqueles grandes olhos agora humedecidos
de alegria. Soube intrigar, criou os seus efeitos.

- Pois se ramos irmos - diz, empurrando a cadeira para trs.
Mas agora
cansou-se, envelheceu, apagou-se-lhe tudo l por dentro. Agora
 ele quem olha, quem se inclina para ver de novo aquilo que
j viu tantas e tantas vezes, uma pequena conta de dios e
habilidades a chegar ao seu fim, a ser deitada fora.  Todo
aquele esforo do sero o deprimiu. Ou ento o passado de que
est a falar ainda lhe faz doer, ainda o magoa com a sua
dentada. De qualquer modo, este  um outro senhor Rosa, o
Agostinho, filho da ama dos Baies. Irmo de leite de lvaro
Roz. Da me, a Ricardina lavadeira, bem criada de carnes e
feies, diziam as invejas que passara debaixo de D. Pedro
Roz, sendo que a miudeza de corpo de Agostinho se devia ao
espanhol e no ao Rosa, homem de peso em vinho e alimento. O
que ps o rapaz no primeiro dilema de uma vida talhada para as
hesitaes: porque, a ser verdadeira a desonra materna,
igualmente seria verdadeiro que, ainda que bastardo e
clandestino, tambm ele descendia de Rozes, tal-qual
exactamente o Alvarinho. Mas se fora engendrado no colcho
conjugal, tinha um pai bruto e uma me sem mcula. Atirava com
pedras contra a rapaziada porque era sempre assim que se
fazia, para isso  que eles se punham a insultar-lhe a me.
Mas rondava a Viosa, queria crescer l dentro, comeou muito
novo a fazer-se prestvel e a merecer refeies  mesa da
cozinha. Corria a ocupar as coisas que lvaro deixava para
trs - os fatos, os brinquedos, as saias de Marjoana.

Quase culpou a me por no morrer assim devagar, sem ser
vista, num desvanecimento,  como D. Hermengarda. Coincidiu,
pelo menos, a morte da senhora com o horror que ele tomou 
lavadeira, s suas mos vermelhas que lhe davam pancadas, s
incansveis ilhargas que pariam uma pequena multido de
filhos.

Agostinho viveu toda a infncia dedicado a D. Pedro, acabou
por tornar-se moo
de estrebaria. Os cavalos da quinta, que passaram de trs para
dois e, enfim,
 para um, ficaram a seu cargo no tinha ele dez anos. Dormia
na cocheira.

lvaro devia ach-lo semelhante de mais, assim franzino e to
necessitado de refgios. Preferia a companhia do Santoro, o
filho do caseiro. Mesmo quando D.   Pedro chegava de Lisboa e
exigia Agostinho para tudo - para o vestir, para lhe lustrar
as botas, para o acompanhar no passeio favorito que era subir
o rio e beber na nascente, lvaro no pensava em ter cimes.
Quando ganhou idade para reflectir sobre isso  no conseguiu
chegar a concluses. Talvez porque no amasse o pai quanto
devia, talvez que o rapazinho, soturno e amarelento, existisse
to pouco que lhe fosse impossvel usurpar um lugar, ou talvez
porque  sendo ele um Baio Roz, j nascera ensinado a no ter
sentimentos  nenhuns por servidores.  Fazia  estas
confidncias ao Santoro, para quem o Agostinho estava  a mais
e
que gostava de o cercar com crueldades, entre as quais se
contavam os relatos destes maus pensamentos do menino. Mas
Agostinho sossegava-se a si mesmo, dizendo que algum dia a
verdade do sangue seria revelada e ele se lavaria para sempre
daquele cheiro a suor  e a bosta de cavalo. Viveu para as
visitas de  D. Pedro com o fervor e a melancolia que buscou
mas no pde repetir nas paixes.

E veio um ano, fcil de recordar, conta o senhor Rosa. No que
houvesse uma grande e nica catstrofe, como foi o ciclone,
muito tempo depois. Mas sucederam coisas, sem relao, 
certo, no entanto marcando todas elas um exagero, aquilo a que
podia chamar-se um descontrolo nas prestaes normais da
Natureza.

No Inverno, por exemplo, geara de tal modo que o rio
paralisou. E a me, a lavadeira, soltava gritos de impacincia
e  de dor, quebrando a murro o grosso gelo das celhas. Morriam
as galinhas. D. Carolina dera ordem para que cobrissem com
palha os canteiros da frente, a fim de proteger os roseirais.
Toda a gente esperava que nevasse, os frios se exprimissem
francamente, tomando o seu aspecto familiar. Mas em vez disso,
os campos reluziam sob esquifes de vidro e assustavam, porque
pareciam j uma viso do eterno.

Caiu depois a chuva, s chicotadas, a soprar; chuva que
parecia peste, como dizem que passa peste em seu cavalo.
Rolaram lamaais pelas encostas, descascaram-se os cimos dos
cabeos, muita, mas muita rvore aterrou. E a se viu que Deus
olha para o outro lado, que para nada lhe interessam histrias
de vendavais. Porque ficou a gente pobre sem telhados e a
enxurrada assassinou duas meninas. Foi um ano malvado para as
crianas: outra houve, roda pelas ratas dentro do seu
caixote, que era o bero. Falava-se que a me a deixara morrer
e que as bichas se tinham atrevido porque o corpinho no se
defendia. Mas a mulher quase que endoideceu. Depois recuperou,
diz o senhor Rosa, e ainda assistiu  morte de outro filho que
comera lagartas por engano. Mas isso j aconteceu depois.

O mais notvel foi que a Primavera apareceu de um dia para o
outro. Tudo amarelo, tudo feito em papa pelos campos alm - e
o sol pregado num ceuzinho azul to bem tecido, to aveludado
que figurava o tecto de uma igreja ou de um ninho, melhor,
para dar uma ideia da maciez, daquele doce calor. E flores a
rebentar por todo o lado. Milagre, disse o padre, e
confirmava-se que depois de tal frio e temporais, depois de se
afogar e arrancar da raiz a planta que tivesse escapado 
crestao - aquele comparecer das flores no seu momento s
podia dever-se  vontade suprema que fazia aplicar a sua ordem
mesmo contrariando as circunstncias.

Aquela Primavera mexeu na sua vida, confessa o senhor Rosa.
Tanto que ainda agora, quando enfrenta um crepsculo mais
coalhado de cheiros, a por fins de Maro ou por Abril, sente
no sabe o qu, uma esquisita maneira de lembrar, como se os
mecanismos da memria estivessem alojados nas narinas.

E no entanto de concreto, de efectivo, no lhe aconteceu nada,
no, senhora. Foi que se lhe acabou ali a infncia. Estaria
entontecido, toda a gente sofria de dores de cabea porque
custava respirar aquele ar grosso, carregado do p das
floraes e das asas convulsas dos insectos. O certo  que D.
Pedro veio passar a Pscoa e dessa vez trazia a menina Anabela
que no ano anterior fora viver com ele. E, por qualquer razo,
perdera o encanto. Era apenas um homem enervado que comeava a
ter fios brancos no cabelo e que se socorria da filha para
tudo. Trocavam as idades: fazia ele de criana e ela de
mulher, e ouvia-se o roncar de D. Carolina que detestava
aquela perverso dos papis.

Agostinho aplicou-se a levantar o muro que sempre deveria ter
existido ali, entre ele e os Baies, entre ele e os Rozes.
Conta que precisou daquele alvio, de aceitar ser apenas um
criado de quinta que recebia as roupas pudas de Alvarinho e
ia levar aos pais sobras da feijoada. Precisou de secar-se
daquele banho de luz, de apagar com o p, zs, zs, aquele
brasido que o cegava e lhe dava um intil calor, que o prendia
 Viosa e era afinal a corda para um estrangulamento.

- Porque se no - afirma o senhor Rosa - eu acabava por me
desfazer, por me matar de encontro quele homem.  Ai, se eu
no o tirasse da ideia, nem crescer conseguia, no medrava,
era sombra de mais que dele me vinha.  Repare, tudo dentro da
cabea, sem que ningum adivinhasse, sem poder abrir um pouco
a alma, confiar. Um segredo envenena os sentimentos, em grande
perigo eu tinha o corao. Foi aquele ano que me deu o alarme,
ou ento ver a moa roubar-me desempenhos, e os olhos que D.
deitava, isso sim, um veludo, talvez eu tenha olhado assim
para os meus filhos. Pronto. O que quer que fosse,
desliguei-me.  Diga?  No era, no. Vim a saber. O homem,
afinal, no me era nada.

Veio a saber: mais tarde, quando a me de repente  perdeu a
carne e a cor e quis entrar na morte com alma a descoberto,
vazia dos pecados que  a  tinham escurecido e que eram talvez
o que a estava  gastando, virando do avesso um corpo de sade
como s os remorsos ou um olhar malino poderiam fazer.

Vestiu-se a Ricardina de lavado, desprendeu os cabelos que
ainda eram formosos e aos quais as brancas davam, no um sinal
de idade, mas um doce claro imaterial. Cercou-se do marido e
de seis dos dez filhos que tivera. Haviam-lhe morrido dois,
pequenos, e a mais velha de todos servia na cidade. A outro,
ao irmozinho de leite de Anabela, levara-o o prior do
Murtinhal que era em segundo grau primo do Rosa e ele prprio
resgatado da misria por um ex-pecador  que investiu nisso o
pouco capital que lhe restava, porque j s do cu esperava
dividendos. Mas morreu cedo, diz o senhor Rosa, o irmo mais
estimado, poupado s invernias, o buchozinho cheio, e a
falecer, ainda rapaz, e sem tomar as ordens. No tem lgica, a
vida. Um torvelinho, no acha a gente aonde se agarrar.

Que confessou a me? Que se deixara tentar pelo cocheiro de
uma das casas onde trabalhava e que desse pecado nascera uma
criana que o tal velhaco nem quisera ver. Qual? Que criana?
Perguntava o Rosa, menos surpreendido do que se suporia,
severo, impessoal, e gozando a fraqueza da pessoa inquirida.
Aquela conteno arroxeava-o, fazia-o transpirar mas ele
queria demorar-se ali, no uso de toda a cena como julgamento,
a mulher lacrimosa, os filhos a coarem-se, estupefactos, sob
a nova grandeza de seu pai.

Agostinho recorda que se ps realmente a admir-lo. Tinha
dezasseis anos, s pensava em escapar-se da vila como de uma
priso. Continuava a ser o moo
Da viosa. Cruzava-se com lvaro, mas nenhum deles mostrava
vontade de parar,
no que se malquisessem, mas porque nada havia que dizer. O
espao entre um e outro ou era inexistente, ou  infinito: de
qualquer modo, tornava-se intil pensar
nele e tentar preench-lo.

Por essa altura  que D. Pedro comeou a reparar no filho, a
querer lev-lo
Para viver em Lisboa. Mas para o Agostinho, aquilo que sucedia
entre os Baies Rozes no lhe dizia j o  mnimo respeito.
Quando ele se foi embora para a tropa, ainda o Alvarinho no
partira de vez. Tropa? O Baio? No fez. Ao que constava, nem
o pai fizera. Davam como desculpa a franzinice, a fraqueja do
peito, mas o que havia ali eram truques ciganos, dinheirame,
influncias contra o frete. Enquanto que, para ele, a vida
militar fora uma porta, um empurro, um vento sob asa. Dureza,
sim ma ntida, decente. Sem caridades, diz o senhor Rosa. No
h coisa pior que a caridade.  Ainda hoje, ele no d esmola a
ningum, a no ser que lhe venham colar as etiquetas para o
cancro e para os bombeiros, sobretudo se est  vista dos
clientes.

- Tenho muito respeito pelo cancro e nisso, enfim, quem pede
no precisa.  solidariedade social - comenta, a rir, perfeito
naquela exibio de uma cultura.

Suponho que escapou propositadamente, aparentando o livre
corropio da conversa; que o instinto o tirou do casinhoto onde
a me agoniza, o pai retarda os mpetos da clera e as
crianas tentam no falhar o momento propcio para o choro e
pem nisso uma ateno faminta. Levou-me pela mo e
arrependeu-se, no quer ali voltar, mudou-se a toda a pressa
para outros momentos. E, visto que ele no era irmo do
Alvarinho, e que o nico filho ou filha concebido fora do
leito conjugal da lavadeira descendia afinal de um cocheiro
qualquer, que passa muito longe da histria que me interessa,
eu poupo o senhor Rosa, finjo que o acompanho naquele saltitar
que lhe fica to bem, mesmo agora que oscila, fatigado, e
perdeu a coragem para os grandes efeitos da efabulao.

Posso elaborar eu um seguimento, fazer a me, por exemplo,
recuperar aos poucos, p-la a estender na erva pesados
enxovais. E o Rosa, que sempre desconfiara muito dos laos que
o ligavam a Agostinho porque no se revia naquele rapaz mido
e claro de olhos, a experimentar, muito tardiamente, um
orgulho de pai pelo seu primeiro varo. E a exercer, no seio
da famlia, a tirania e o direito a ser amado que ele
descobrira no correr da cena em que a mulher, de rastos, lhe
pedira perdo.

A certeza de ter o Rosa como pai nada significou para
Agostinho. H muito que era rfo de D. Pedro Roz. Cultivara
em si mesmo a orfandade, aprendera a nutrir-se dos seus talos
amargos, a beber-lhe aquele leite que arranhava na boca mas
levava a crescer com qualidades agudas de animal: longo
alcance do faro e da viso, funda concha de orelha
interpretando, tirando o seu proveito dos avisos.  Isso
tornara-o gil e muito prevenido, s no chegara a mais do que
este ofcio de caixeiro-viajante porque nunca quisera,
sentia-se assim bem, mexendo na vontade das pessoas para delas
retirar o que lhe apetecesse, com um certo poder de
bonecreiro, levando ao extremo a arte de agradar que era,
afinal, a arte de iludir.

- O Santoro, esse sim, baixou-se, lambuzou tudo o que foi
preciso para fazer fortuna. O Santoro, o rapaz l dos
caseiros. Mais amigo do lvaro do que eu. Aprendeu mesmo a
ler, na brincadeira, mas, aqui para ns, bronco  que ele era.
Saiu tambm para a tropa e no voltou. Seno agora, av de
netos e ricao. Tem a um estado de moradia, sim, pode ir,
pode, v l ter com ele, no sei  se lhe querer falar. No
dispe de um passado, compreende, que possa pr na
mesa  sua frente. Ganhou no contrabando. No cambo. Estava
determinado a ficar rico, e dizem que ficou. Sabe? A quinta
parece que espicaava  a raiva,
que atirava com a gente para o mundo  aos pontaps. Ao lvaro?
Vi, sim. Houve um tempo em que a velha me mandava encomendas
para eu lhe levar : frutas, assadas, at mesmo roupa,
camisoles que ela ia tricotando. Eu passava por c pela
famlia que ainda a ficou, ia cumpriment-la, j se v, ainda
tinha aquele modo de encarar a Viosa, s se a deitasse abaixo
me livraria dela. E a D. Carlina: Vais a Lisboa, levas isto
para o menino. Nem favor, qual favor. Eu tinha, sim, j tinha
furgoneta, j corria o pas com as amostras, trabalhava para
duas, trs firmas a um tempo, sem saberem, est claro, umas
das outras. E l a levar o embrulhinho. O embrulhinho!  As
mais das vezes, um carrego. Ele morava num prdio l  para a
estrela, ah, pois, conhece, ele nunca se mudou. Primeiro com a
irm e uma prima maluca que professou e que foi expulsa por
beber. Mais tarde, ele j casado, ainda eu l ia.  Ainda lhe
conheci a pequenita. Vai, entretanto a velha faleceu e a
Marjoana a teimar nas encomendas. Mas eu recusei. No. E a
pena que me fica  no ter recusado em vida da av. Que no,
senhora Dona Carolina, que eu no era o seu moo de recados.
Mas o qu, o respeito. Aquele atilho a prender as palavras que
a gente organizara to bem na inteno. Pois deixei de l ir.
Sabe porqu? ramos ou no ramos companheiros de infncia,
bebamos ou no do mesmo leite de uma mesma mulher?  Chama-se
ou no se
chama a isto irmos?  E eu chegava a Lisboa e tinha de subir
pela escada de servio, e era recebido na cozinha. A menina
Anabela, depois a esposa dele, nunca lhe soube o nome,
apareciam no espao de um ol, de um perguntar se estava boa
a velha, e deixavam-me ali com as criadas, a comer uma sopa,
um po com carne naquela grande mesa, grande e gelada. Ao
Baio? Vi-o uma ou duas vezes em todos aqueles anos que l
fui. Espreitava  porta: Adeus,  Rosa, ento por c, 
Rosa?, e mesmo aquilo s era produzido no hbito da lngua,
porque o corao dele no reparava, era um corao cego, sem
comunicao. Ento, diga: acha bem eu ser assim tratado? Eram
eles uns fidalgos e eu ainda um criado l das cavalarias?
No, eu tinha direito a senhoria, em toda a parte me chamavam
Senhor Rosa, me apertavam a mo, me convidavam para casa,
para o almoo.  Que diabo, e ali aquela humilhao, a chapada
na cara, o que me espanta  como aguentei. Gostava dele?
Gostava dele, pergunta. Se o vi quando voltou aos Amorins?
No, eu nunca aqui venho no Outono. Fao o sul e depois fico
por l, j posso dar-me a estes luxos, sabe. Porque uma filha
minha tem casa em Vila Moura e juntamo-nos todos no Natal.
Vivo, sim, senhora. Enviuvei. Isso do Alvarinho? Vim a saber
quando passei para cima. As figuras que ele fez, o namorico.
Podia ser av da rapariga. Jesus! No se falava de outra
coisa. Depois aquele enterro, tudo  pressa, a rapariga que
desapareceu. Vergonhas. A irm ia morrendo. J no basta a
criada, a Marjoana, recolhida que foi por afilhados, que lhe
deu para mostrar as indecncias... Ah, no, a outra gerao de
filhos, a do lvaro e os dois da Anabela, no vai querer saber
disto para nada.  o fim da Viosa, sim, senhora. Quem parece
que o viu foi o Santoro. Que o convidou at para jantar. Na
praceta, foi, pois. Muita gente assistiu. Mas ningum soube se
ele l foi ou no.

Cala-se e tamborila com os dedos na toalha que a noite
amarelou.  tempo de o deixar recordar-se sozinho, acomodar-se
como for capaz no possvel conforto da velhice.

A Dona So Jos entra na sala e d a entender, com um suspiro,
que a conversa j dura para alm do bom senso. Algum, talvez
a filha, se esconde atrs da porta, deixando ver as flores de
uma camisa. As paredes parecem Afastar-se desamparando tudo o
que h entre elas. A Dona So Jos retira o gancho que lhe
prende os cabelos, como se no pudesse adiar mais a chegada da
hora de deitar, por muito amvel que quisesse ser.

-  tarde - diz.

E Agostinho Rosa apura-se, sorri quando me beija a mo.
Caminha devagar, preocupado com os olhares que o seguem
naquela travessia. Beija tambm a mo da So Jos.


- Tem razo, tem razo. J  bem tarde - concorda. E, embora
no se volte para trs, estou certa de que foi comigo que ele
falou.

Ouvia novamente aquele murmrio, as mulheres aos segredos. Um
silvo, um crepitar, um passo de serpente que se metia pelo
corredor e s vezes se alteava na cozinha, entre dentes: um
ronco, quase um brado de clera. As mulheres em conjura,
discutindo as maneiras de possuir um homem a fim de o bem
tratar. E lvaro, que voltara aos Amorins porque queria o
vazio, porque queria ser ele a ir ao seu encontro, desarmado e
sem pblico, como se  tratasse de uma entrega amorosa,
balouava-se agora naquela turbulncia entre Liza e a caseira
que sacudiam e que martelavam e lhe vinham pedir dinheiro para
as tintas - salvando a casa, refazendo a casa.

Tinham-lhe at proposto que mudasse de cama, mostraram-lhe uma
outra que parecia um leito de hospital. Liza tinha pintado o
cestinho de flores que o ferro desenhava aos ps e 
cabeceira. lvaro recusou, mas sorriu  ideia de que o queriam
deitar numa caminha de virgem provinciana.

Sorria e conversava, o lvaro Roz, e dava os seus passeios
com Lizette, a comprar gelados, a comer pastis. Tinha
dinheiro: dera ordens para Lisboa, em papel que eles haviam
expressamente comprado numa tabacaria: a folha, o sobrescrito,
o selo j colado, fazendo com que o acto de enviar uma carta
se tornasse solene e empolgante, para mais exigindo ele ao seu
procurador que guardasse daquilo um segredo absoluto.

Liza deixara de ir para a represa, procurava chegar-se-lhe,
cercando-o, sacudindo a cabea.  Escura, mascando sempre, a
remexer a boca beiuda, de caprino.  Sorria, no podia
esquecer-se de sorrir quando se aproximava. Usava to sem
jeito as suas artimanhas que lvaro conseguia prever-lhe as
reaces, assistir aos pequenos pensamentos que se formavam
nela sem leveza, num excesso de premeditao. Avaliando-se a
si prprios ainda antes de originarem falas ou atitudes. O que
a tornava lenta e lhe conferia s vezes uma certa gaguez, como
se ela sofresse e hesitasse, como se conhecesse a luta das
palavras. No deixava de ser um esforo, uma desordem que lhe
esgotava o crebro e a empalidecia.

- Mereces recompensa - dizia-lhe ento lvaro e ela suspirava,
franzia mais a testa, totalmente ignorante sobre aquilo que
devia ser til responder. Lanava  tia uns olhos assustados,
a consult-la, com receio dos estragos.

Via-se que Perptua a ia orientando, instruindo. Isso via-se
um pouquinho de mais. E lvaro sentia-se a penetrar enfim
naquele duro territrio feito de brilho e ao onde costuma
trabalhar o romancista: aproveitando, abrindo as criaturas sem
que nada lhe cause pavor ou repugnncia. Ele, pelo contrrio,
correra sempre em volta um tecido de nvoas. As pessoas
passavam e extinguiam-se como um fulgor, um fogo azul que se
ergue e se dissipa sobre o muro do caminho, deixando atrs de
si palavras, s palavras que essas, sim, ele escondia e
acariciava, dispunha como um ouro de avarento.

Porm ali a trama das mulheres desenhava-se ntida em cada
pormenor e ele podia observ-las com tempo e com malcia, como
se algum tivesse exposto a contraluz uma toalha cheia de
defeitos. Tinha decerto atravessado o espelho: o mundo
feminino j no o assustava, no o levava j a esconder a
cabea, amando o crime e as belas frases que o imitam.
Assistia aos efeitos do poder, ao estrago e  animao que
provocava.

Era bem fcil conhecer Perptua, v-la parar, com o puxo do
medo, com uma qualquer dvida que lhe prendia o brao no acto
de tirar a terrina da mesa ou de lanar a smea  criao. Ela
empalidecia, depois pigarreava, como para deitar fora tantas
hesitaes.

Fazia bem, corria bem os riscos? Pois tinha em mo o velho,
dono de meia quinta e saberia Deus de quanta mais fortuna.
Homem manso, embeiado pela Liza, como muito se via acontecer,
casos de viuvez e at de solteirice, e s vezes mesmo de
amantizao, quando o macho se achava com os ps para a cova
e, mais do que beber, queria patentear aos outros que bebia.

Por todo o lado havia entrechos semelhantes, ainda ali, e no
se tinha que ir mais longe, na casa do coronel, quem era a D.
Bia? Uma criada, sim, que enterrara a patroa, dera mimo s
meninas que eram, ento, de colo e fracas como a me. E outros
mimos dera  coisa do patro, junto sabe-se l com que
comidas, sabe-se l at de que doena morrera a pobrezinha da
senhora, so pensamentos que nem devem ter nascena quanto
mais consentir que nos desam  boca.

Mas, pronto, a D. Bia, ela a estava e dera ao coronel, trinta
anos mais velho, o seu filho varo que atirou,  um modo de
dizer, com as irms j crescidinhas para o sto - costurando,
cosendo os seus vestidos, armando os seus brinquinhos com
pompons para ver se noivavam, se saam de l. D. Bia:
madrasta, assim, na boca cheia da palavra, mo de vinagre, a
desforrar-se daquele tempo em que, no sto, era ela quem
dormia. E amolecendo o filho, acobertando-o, ia ele nos vintes
e escapado s sortes. O marido, embruxado: coronel e sem
talante para mandar no rebento, para lhe acordar os brios com
um par de empuxes. Tropegando atrs dela quando vinham s
compras porque queria mostrar-se, dar nas vistas com aquele
mulhero. A D. Bia usando as peles da morta, diziam as criadas
que as guardava no gelo, temerosa das traas. E as meninas,
coitadas, j trintonas, muito desenxabidas, muito antigas.

Mas, pois, era possvel. Para exemplo  que lhe entrara a
histria da Bia na cabea. Fosse a ela, e teria partido para
longe, outra terra onde o povo no
soubesse dos seus passos em moa, onde no conhecessem os
casebres num daqueles lugarejos das encostas que era onde se
geravam as criadas. Ou talvez sim - e isso, Perptua Dimas
podia imagin-lo muito bem -, talvez todo o regalo de uma vida
fosse pisar no rasto da patroa, enfiar-lhe os sapatos,
dormir-lhe nos lenis, puxar-lhe a trana s filhas. Deixar
cair no lume, sem querer, os seus retratos. Ah, cuspir nas
panelas que andara a arear.

- Ai, Liza, prende o homem, prende o velho, bem se v como j
o levantaste, chegou aqui sequinho como um Cristo e olha como
ele se ri. E o apetite. E o levar-te a ti para todo o lado.
Prende-o, filha. Eu te digo por que partes a gente prende um
homem: pelos olhos, pela boca e pelas pernas, sendo a ordem
conforme cada um.

Histria da D.Bia do coronel. Veio o sero em que a caseira
lha contou, sentado lvaro  mesa da cozinha, achando bom o
frio do cho de lajes. Assistindo aos enredos to claros, to
sem fugas, que iam passando na televiso. E ele precisava de
se sustentar com a realidade  sua volta: as cores, a
temperatura da fornalha, o desastroso movimento dos insectos.
O correr dos seus olhos encontrava Perptua, ela tambm a
desistir, a querer achar um stio onde pr as palavras,
incapaz de guardar serenidade, demasiado cheia dos seus
prprios juzos, das preocupaes que s vezes a faziam
resmonear baixinho, a despropsito.

Ainda quando os pretextos lhe falhavam, ela tomava uma
resoluo, estremecendo um pouco, arrepiada com a hostilidade
que viria de Liza, com as nervosas ordens de silncio que o
corpo da sobrinha lhe daria. Mesmo assim: comeava. E mostrava
depois o quanto era capaz de se manter no cimo de um despique
qualquer, fazendo uso correcto dos recuos e das surtidas
rpidas da voz, levando ao termo a sua histria, a sua crnica
onde toda a provncia desfilava.

lvaro intervinha a seu favor, pedia sempre a Liza que a
deixasse falar. Estava, atravs daquelas narrativas, a retomar
conhecimento da barbrie, de um mundo de matanas em que se
usa o machado e se queimam os mortos para desfazer indcios,
em que se deita  pia ou d aos porcos o menino acabado de
nascer.  Punha-se a recordar os efeitos dos crimes nas
mulheres da cozinha, em Marjoana, e a beleza que o medo lhe
trazia. Como elas trancavam e destrancavam portas, como iam
deitar-se na cama umas das outras com as mos muito geladas,
entalando as camisas bem no meio das pernas e mandando-o sair,
a enxot-lo, sufocados de riso, gritando-lhe ameaas se ele
esventrasse algum.

E fugia do sto, assustado com aqueles grandes corpos que lhe
atiravam com um cheiro a quente e a roupas de flanela mal
lavadas. Tacteava as paredes, perseguido pelos seres da
escurido, ouvindo o ar que se precipitava para dentro de si a
rugir, s patadas, fazendo-lhe doer e ecoar o peito. E a noite
era o imenso ouvido da av, o labirinto que ia desembocar no
seu conhecimento, sempre, por mais cuidado que ele tivesse.
Parecia-lhe que tudo em seu redor se aplicava a mostr-lo, a
fazer a denncia: a madeira das tbuas que estalava, os
animais nocturnos que enchiam de silncio o espao onde
existia normalmente o barulho das suas correrias, dos seus
guinchos.

lvaro recordava, sentia novamente bater-lhe nas narinas
aquele vapor de vinho e de fermento que sem qualquer razo se
tornava mais denso no tecto do seu quarto e o aconchegava, o
fazia esquecer um pouco o frio da cama. Tremia muito antes de
adormecer, a me no vinha nunca, a me morria to devagar que
j ningum pensava nela. E ele enchia de imagens as histrias
de crime, via os ladres com barba por fazer e um saco de
retalhos onde guardavam as baixelas de ouro e os dedos
ressequidos dos cadveres a quem nem tinham tempo de arrancar
os anis.

Histrias como Perptua as sabia contar, quase iguais,
transformados alguns dos pormenores: no existiam j as
candeias de azeite, os cavalos vermelhos que bufavam. Mas o
mal prosseguia, seco e simples, um mal todo ele terreno, todo
ele cimentado em notcias mesquinhas. Mortes por questes de
gua, facadas por palavras, raticidas. Armadilhas de amor
feitas com sujidades. At histrias sem sangue, histrias de
mulheres-putas, de cabelo arrancado em brigas de mo-cheia.  E
as intrigas menores, das irms que tomavam conta de seus
irmos, calvos e delicados funcionrios da Cmara, atentamente
vigiados por quarentonas que pediam favores a S. Gonalo.

Empurrado pelo peso da noite e do calor, lvaro atravessava a
fala de Perptua, dava por si a esvoaar do outro lado,
encontrando as histrias semelhantes que ouvira na infncia e
julgara esquecer. Mas, quando ela lhe contou da Bia do
coronel, apeteceu-lhe enfim surgir na sua frente como um
igual, disposto a pedir pormenores, a cobiar a boa sorte das
pessoas. A dar o alimento s criaturas que, no esconderijo do
seu peito, como em todos os peitos, anseiam por desastres,
pela queda dos felizes.

E, ento, comentou ele que D. Bia corria tambm riscos de vir
a ser trocada, mal as rugas surgissem a desfear-lhe a pele.
Pois que os velhos tornavam-se exigentes acerca do que viam,
queriam parar o tempo  sua volta povoando-o de rostos sempre
jovens, no se lhes dando muito que no fossem um s. Ou
melhor, exercendo sobre cada mulher da sua vida um cruel
exerccio de abstraco, tomando-as todas pela mesma, a sem
idade. E, acrescentava lvaro, fascinado por aquele raciocnio
to fcil e to estranho  sua natureza, sendo os ricos
manhosos como por inerncia, por treino biolgico, parecia bem
possvel que o coronel despedisse a circunstante esposa sem
lhe dar um centavo. Isto o sugeriu lvaro, sorrindo, dando
seguidamente a entender que as famlias dos homens raramente
os deixavam assim desamparados; que se lhes consentiam
devaneios mas jamais um desvio nos rumos da herana. Que a,
pronto: intervinham as filhas, as irms, e que as leis acudiam
em desfavor do escndalo, a proteger o velho tronco
consanguneo, que outro no era, alis, o papel delas.

Ao que as mulheres, a tia e a sobrinha, se viram apanhadas
pelos corpos, pelo lavor dos nervos directo nos seus corpos.
Puxando a cor para dentro, secando-lhes a boca, tornando to
visvel o interno sobressalto que fecharam as duas os braos
sobre o peito, como por um pudor. Logo beberam ar, pegaram na
conversa, e Perptua saiu para apanhar cidreira, oferecendo um
chazinho. Liza disse um gracejo sobre a televiso. Ele sentiu
de repente uma extrema fadiga, o prazer daquele jogo
esgotara-se depressa. Deitou-se, cheio de frio, ouvindo os
pssaros sufocados nos ninhos.

Passeava com Liza pela vila; no, como decerto iam pensar os
outros, por regresso aos namoros, ou por fragilidade que o
levasse a exibir-se, para desafiar a punio.  Mas para que
ela fosse uma intermediria, para que recebesse a curiosidade,
os olhares com perguntas e com pedras que contra ele se
queriam levantar. E escudava-se bem, sentia algum conforto
quando lhe dava o brao e se deixava ir, e atravessavam ruas e
entravam nos cafs, e a rapariga sacudia a nuca a imitar
perfeitamente os bichos, de maneira que todos entendiam a
medida da sua hostilidade. Defendia-o, Lizette; se bem que na
impura disposio das fmeas, agarrando-lhe o ombro,
declarando o domnio.

lvaro via os velhos debruados nas mesas, rodando os seus
bons por entre os dedos. Via-lhes as maxilas que tremiam
iradas, contra ele. No Esplanada Central, passando o ptio
onde havia chapus de sol enferrujados e cadeiras de plstico
lils, entrava-se na sombra, na madeira. O ar grosso, difcil
de limpar, amortecia os gritos do exterior. Ali se disps
lvaro a responder a Liza, a entregar-lhe em mos o que fosse
possvel, aquilo que no tinha a menor importncia mas era to
difcil de oferecer: a memria, os fragmentos da sua prpria
vida.

E parecia-lhe aquilo a prestao de contas, a visita por
dentro que em tudo ia mexer, sacudindo, quebrando, expondo 
luz como quem desinfecta onde habitou um morto, como um morto
se lava na sua travessia. E ela dedicava-lhe ateno,
perguntava, pedia que contasse, punha o peso da cara sobre o
pulso, chupava o seu refresco com tempo, em paz no tempo.
Espreitava-lhe a infncia e todas as idades, queria saber,
porque, de certo modo, fazia assim a instruo que lhe
faltava, tirava dele informaes sobre a riqueza, sobre como
se fala, o que se pensa; como se dorme e o que se come na
riqueza. O seu pequeno mundo de porteiras e de
mulheres-a-dias, espicaado s vezes por tentaes e vcios,
podia, por algum acerto do destino, com sorte e com firmeza de
ambio, abrir um dia as portas e deix-la subir. Mas subiria
nua, envergonhada da sua morenez, dos erros de dico, dos
dedos como lixa prprios daquela raa afeita a revolver as
matrias da terra. Liza odiava o que lhe vinha da famlia;
via-se na maneira como ela emudecia quando lhe perguntavam
qualquer coisa sobre isso, como se, recusando dar-lhe um lugar
na voz, a reduzisse ao nada, a decepasse.

E lvaro prestava-se ento quele papel que lhe repugnara toda
a vida. Falava.  Porm, nada acontecia: nem posse, nem
censura, nem catstrofe, porque Lizette j chegara tarde, j
no o alcanavam as suas intenes. E algures, para trs, sem
que ele desse por isso, as palavras haviam perdido a carne, o
grande rosto que se antepunha s coisas nomeadas. Serviam,
simplesmente, escancarando as janelas, compondo as almofadas,
fazendo com que aquilo que era contado chegasse at ao outro
de forma confortvel, sem esforo e sem traio. Baixavam a
cabea, essas palavras que sempre haviam esvoaado  sua volta
a tent-lo, a gast-lo, arrogantes, risonhas como belas
mulheres. Transformadas agora em utenslios, ajustveis ao
uso, transparentes, refractando ainda menos do que a gua. E
lvaro levantava-as, trazia-as para a luz, humilhadas, enxutas
do seu brilho. Para que a rapariga as recebesse sem nelas
reparar, deitando-as fora.

Isso dava s conversas um sossego, uma serenidade que o
deixavam olhar de longe para tudo, ver-se a si prprio
caminhando na distncia com o sbio e piedoso sorriso dos
fantasmas. Emagrecia, descolava-se do corpo, tinha aquele
tempo todo para morrer brincando com os outros, com os velhos
que ocupavam as mesas em redor tomando os seus refrescos,
enxugando as cabeas com lenos de assoar.

Porque o Baio e a sua putazinha andavam a dar escndalo,
dizia-se. Drogada, ela, ali fugida da polcia ou dessa
bandidagem que no perdoa dvidas. Sem respeito, o Baio,
pelas gentes da terra, pelo bom nome da senhora sua av. Toda
a vida em Lisboa, ou Deus sabia onde, sem laos, sem favores
aos conterrneos.  Contavam-se a respeito dele estranhezas,
acessos de loucura, divrcios, sujidades.  Que escrevia, mas
nada de romances, nada que se entendesse e pudesse
comprar-se. Nada que desse orgulho aos Amorins que andavam mal
servidos de filhos com sucesso. Do Baio, s desprezo e contos
largos que dele trazia o Rosa, o viajante. Histrias que s
ricaos. S almas doentias de no haver trabalho que puxasse
por elas. Que ele nunca foi normal, dizia o Rosa, com
desgosto de irmo.

E lembravam-se bem do adolescente que os olhava de lado como
se  furtasse quando passava com o filho do caseiro - o Jlio
dos Santoros, que era agora um senhor - de carroa, a caminho
das aulas na cidade. Com a Carua, sim, horas seguidas 
torreira do sol, durante as frias. E mesmo quando regressava
do liceu, se ela estava  janela, ele apeava-se, dava ordens
ao Santoro para seguir.

Houve um tempo em que o viam na sua bicicleta; talvez depois,
seria um prmio da idade. Mas, fosse como fosse, fielmente
parado no muro da Carua, namorando-a, coitada,  pobrezinha
que j nascera com a sorte revirada, de me fugida e por assim
dizer tendo o seu bom sucesso em cima de caixes. Meia tonta,
sem tino, a coitadinha, logo se via no seu modo de sorrir,
aquela grande boca descada, de criana a aguar, vazia de
malcia como de entendimento. E enganada.  E trancada depois
no desengano como numa priso. Morta-viva, a Carua, era uma
ideia que incomodava sempre o caminhante quando, na estrada,
no cerrar da noite, apercebia ainda a luz nos vidros. O
primeiro animal no cinturo de caa do lvaro Roz.

Escapando-se de ser segundo: a Estela. A Estela da Penso do
Casalinho. Que o tinham visto, oh, sim, cosido com a sombra,
sumido contra a porta do quintal.  Mas a Estelinha no ligara,
no ouvira. Estava defendida de namoros, de palraes bonitas,
com que os das letras punham lao s raparigas. Ningum podia
entrar na sua cabecinha, acordar aqueles olhos amarelos que
fabricavam sem cessar as suas prprias torrentes de viso.
Sobrando, transbordando, tocando nas pessoas que se usavam da
casa, nos transeuntes que se divertiam com
passar-lhe  janela.

Estelazinha inventava, mantinha folhetins, escovava com os
dedos o decote onde a luz do Vero deitava sardas. Mimada
pelos homens que lhe estendiam embrulhinhos de confeites,
recordaes das festas onde haviam passado as tardes de
domingo. E, de certa maneira, estimada entre as mulheres
porque os maridos, se sonhavam com Estelinha, no faltavam 
mesa  hora de jantar nem deixavam deserto o leito conjugal.
Estavam gratas  ruiva por preencher assim, dando-se a ver
como uma lisboeta e fazendo-se ouvir que nem uma fidalga, o
vazio com que se h-de contar sempre no corao do macho
desposado. E gabavam-lhe os fatos indecentes, chegaram a
tecer-lhe com ganchos do cabelo uma renda chilena cor de fogo
para um penteador. Usou-o, ela, a revelar os ombros que o sol
nunca tisnava, como se at a sua pele escapasse aos gastos a
que obriga a Natureza. Branca e s vezes polvilhada de ouro, a
chamar pelos homens, a Estelinha, para lhes contar as
recepes no pao quando era j bem tempo da Repblica.

E o que ainda durou, envelhecendo de um estranho envelhecer.
Pois no ganhara rugas e no embranquecera e, no entanto, ao
olh-la, todos pensavam: Vejam, como deu cabo dela o muito
imaginar. Parecendo-lhes que estava consumida por dentro, sem
entranhas, como a grande boneca que sempre semelhara. De
certeza, diziam aqueles que recordavam, que, quando
Estelazinha comeou a esquecer-se para morrer melhor, foi
lvaro o primeiro a quem esqueceu. Porque ele se lhe escapara,
lhe fugira; e, indo para Lisboa, podia confirmar que tudo era
mentira: os seus raptos, os condes em duelo, as suas
legendrias entradas nos sales. Ficara-lhe com raiva, a
Estelazinha, isso tinha-se visto na maneira como se lhe
agitavam as narinas quando depois algum, para troar um
pouco, lhe perguntava se ela no o encontrava nessas visitas
que fazia  capital.

Sim, tambm  Estelinha magoara o Baio. Saa ao pai - da me
no se lembravam. Mas o espanhol, que se exibia estrada fora
no seu esbelto trotar, todo ele de negro sobre o negro do
cavalo, parando nas tabernas para oferecer rodadas que ningum
se atrevia a recusar, embora houvesse qualquer coisa nos seus
olhos, a luz de um sofrimento, de uma fome, que causava temor
e repugnncia, esse, impressionara fortemente a memria dos
rapazes de ento. Tinham imaginado os prejuzos que aquele
homem traria ao mundo feminino. At a prpria filha, muito
novinha ainda, resolvera partir com ele para Lisboa, sabe-se
l chamada para qu.  Essa aparecia ainda algumas vezes,
gorda, matrona, inchada no seu posto, mais baixita que a velha
Carolina mas to igual, mistrios que h nas cpias que tira a
Natureza numa mesma famlia.

Que este lvaro, agora, ali, gozoso naquela lamentvel
salivao dos velhos, namorando a garota, espreitando para os
lados, para se assegurar de que era vigiado - no tendo,
embora, o garbo de D. Pedro, herdara-lhe completa a presuno.
E o mesmo mau efeito do sorriso que intimidava, em vez de
convidar.  De modo que eles, antigos conhecidos, nem sabiam se
haviam de chegar-se para, ao menos, sequer, um cumprimento, um
reatar de antigas cortesias. Ou bem: ainda que dantes pouco se
conhecessem, porque, naquele tempo, se isolavam as castas como
se as definisse algum sinal na testa - os pobres para um lado,
os ricos para o outro, com os remediados pelo meio e os de
nome fidalgo mais  parte - ainda que encontro algum tivesse
havido, seria agora o tempo do abrao redentor, entre homens
que aquele cho vira nascer e que quele cho iriam regressar.

Mas o Baio no os encorajava, eram para ele um povo, uma
confusa composio de rostos. Como os adolescentes da
esplanada, desfeitos numa massa de sons e de volumes que se
alterava sempre que ele passava com Liza, como se acontecesse
uma solenidade. E lvaro sentia nesse excesso de olhar que
adivinhava em volta uma dura ateno que conservava ainda o
seu qu de benigno, como um amor de me austero em demasia.
No seria capaz de os afrontar e tambm no os queria comover.
Dava nas vistas, ele, que sempre se fechara, que soubera
emitir a sua escurido do mesmo modo que outros emitem um
fulgor. Dava nas vistas, sendo claro que estava fraco e que
iria morrer quando se lhe acabasse aquela transfuso de sangue
bruto, aquele sustento da rapariguinha.

E isso excitava a vila, dava assunto, fazia-os entrar todos no
Outono mais levantados de nimo, exercitando a clera e as
recordaes. Aquando do encontro com o Jlio Santoro,
procedeu-se com mtodo  reconstituio da histria da famlia
e da  da histria de todas as famlias que fizeram fortuna
com a especulao durante a guerra de 44, levando finalmente o
curso da conversa para os emigrantes que a estavam de
regresso. Fluindo, atropelando-se uns nos outros, tanta soma
de tema e tanto falador. Tornando volta e meia  cena do
Santoro quando parara o seu Mercedes junto ao banco que havia
mais ao extremo da praceta, onde era frequente que o Baio se
sentasse enquanto a putazinha lambia mais um gelado, antes de
regressarem  Viosa. Como o Jlio chamara, brasileira: Seu
lvaro! , e Deus sabe que concertos tivera de si para si
mesmo, procurando o mais seco tratamento, de forma que,
somente com cham-lo, significasse tudo: que j no era o
filho do caseiro mas um igual, um superior, talvez. Que lhe
bastava escrevinhar num cheque e ficaria o dono da Viosa, e
ali faria uma pousada de respeito. Melhor: ali faria a sua
casa. Assim ele conseguisse convencer Anabela, deitar-lhe a
proa abaixo. Por isso a visitava sempre que ela a vinha, por
isso se oferecia para restaurar-lhe a quinta. Que o Alvarinho,
se a irm vendesse, venderia tambm, nem ligaria.

E o Santoro: Seu lvaro! , de dentro do Mercedes. E o Baio
vendo apenas um homem gordo e muito vestido para o clima, a
sorrir, a cham-lo com a mo, autoritrio, ntimo. Liza
aproximara-se primeiro, fascinada pelo lombo luzidio do carro.
Sou o Jlio, seu lvaro. Ento? Grandes amigos! Porm, era
difcil para lvaro fazer fosse o que fosse que levasse a
obter um reconhecimento a partir daquele corpo que parecia
cheio de ar, daqueles olhos minsculos, porcinos. S a pele
bexigosa o conduziu enfim  imagem do Jlio que levava a
carroa e que o acompanhava  casa de Estelinha. Mas no sabia
de que modo dirigir-se-lhe, e estendeu-lhe a mo para ganhar
tempo.

Bom, vai jantar com a gente um dia destes, disse o homem,
olhando para Liza.  Sem perguntar:  sua filha?  sua neta?
J ciente de tudo. Para desfeitear. E arrancando rua abaixo a
rir-se, muito devagarinho, suado com a grande perfeio do
momento.

- No lhe chame Santoro - avisa-me a mulher enquanto me conduz
pela escada de mrmore. No sei porqu, parece-me minhota, com
a sua beleza mordida pelos anos. Estalou muita chinela naquele
p, bateu muito oiro em corda por cima daquele peito.  a dona
da casa, no entanto tem ar de quem ainda se no senta  mesa,
de quem no tira aquela bata de riscado seno para se deitar
ou ir  missa.  Ter suas criadas ou, pelo menos, talvez uma
mulher-a-dias que a ajude a cuidar do casaro. Mas h-de
exagerar nas implicncias, sentir cimes do trabalho com os
tachos, e tropear com elas para verem que incomodam apesar do
tamanho da cozinha.

Leva-me pela sombra, por sobre passadeiras protegidas a
plstico, postas ali para durarem sempre. Alis, as paredes
no secaram ainda da sua novidade, ningum respirou muito
contra elas, ningum se demorou para rir ou chorar de encontro
 sua cal e aos seus azulejos. Como o jardim: perfeito, quase
um jardim francs, com os renques de buxo e os roseirais. Mas
um jardim sem noite, demasiado poupado s prprias emoes,
desconhecendo a seca, os vermes, a geada.  Tambm quem aqui
mora gasta pouquinha vida, raramente faz uso de grandes
pensamentos, no conhece o prazer de um desperdcio.

A mulher lana um breve aceno negativo e anuncia: Aqui  o
escritrio, revelando a estranheza que o nome e as funes da
sala lhe provocam. V-se que houve o propsito de montar uma
cena, que  lugar concebido para obter um efeito naquele que o
visitar. Como dizer? Veludos e pau-preto, guias de bronze; e
em toda a volta a fatuidade obscena das estantes, a nitidez
das suas coleces: histrias disto e daquilo, enciclopdias.
Posso estar a mentir, a pr desprezo como lente fumada 
frente da viso, to tentada me sinto aos maus juzos. Na
verdade, no sei o que existe para l das encadernaes. Nem
terei tempo para averiguar.  O homem a quem no devo chamar
Santoro sorri-me por detrs da secretria, imvel no seu manto
de gordura como sob uma forte noo de dignidade.  Designa-me
a cadeira em frente dele, como num consultrio, e pe-se a
preparar o seu charuto. At que o fumo pesa, assenta na
penumbra, e ele suspira de alvio, porque tudo est a
passar-se bem. A mulher retirou-se mas no fechou a porta,
talvez que vena nela o instinto hospitaleiro e me venha
oferecer uma bebida.

 esquisito este excesso de silncio, mas temos muito tempo,
poderemos fazer devagarinho as coisas, este Santoro e eu.
Tanto que comeamos a falar sobre mim.  Ele recolheu
informaes a meu respeito: quem sou e o que fao e o que
tenho a ver com lvaro Roz e o que aparentemente me trouxe
aos Amorins. Confirmo tudo, espanto-me com a sua influncia,
reajo como ele quer e desvaneo-o.  Agrada-lhe a ideia de que
se escreva um livro onde Jlio Talhada surja em plena
grandeza, desbravando a mos nuas a selva traioeira que  a
vida de um pobre.

Porque, neste momento, comoveu-se. Olhando para trs, avaliou
melhor os ganhos que dar  sua personagem se se mostrar tal e
qual, subindo a pulso pela fora de manhas e estoicismos.
Desiste ento de imaginar de que maneira uma pessoa de alta
posio recebe em sua casa uma mulher como eu. Ri-se, para que
no venha muita raiva agarrada s palavras que dir.

- Santoro, h?  Foi o que foi: Santoro. Se julga que no sei.
Chamam-me assim.  O Jlio dos Santoros, o Santoro. Tanto me
quis livrar, compreende? Fiz tudo para me livrar dele. Qual.
Pior que uma pele. Sinceramente. Eu a subir e o dianho da
alcunha aqui pregada a mim, que no sai, que no h sabo que
a lave. A mulher a dizer-me: que faz mal, que me ataca a
sade. Raivar desta maneira contra nada, contra um nome, diz
ela. No entende. No nasceu c.  Que j viu, que  costume
uma alcunha dar nome e um nome dar alcunha. Sem haver mal. E
pe-se a contar histrias. No lhe fale em alcunhas que j de
c no sai. Toda a zanga que eu ponho contra isso lhe pe ela
a favor. Fora dos meus ouvidos, pois pudera. Mas eu sei. Estou
cansado de saber. Conhece a caa brava, os animais,  escuta,
 espreita, aqueles orelhes? Tal estive eu, toda a vida, toda
a vida. Agora no preciso e continuo. Falta-me o sossegar.
Sinceramente. Falta-me esse saber, limpar das coisas, ficar
rico por dentro, compreende? No se larga a pobreza, no,
senhora. Reparou? Reparou. Diz a mulher: que no tornssemos
para c. Que a ela, tanto faz, naqueles preparos, criada foi,
criada h-de morrer. Diz que no  amsia de ningum para se
embonecar. Bem est ela, no acha? Av de netos, dona de seus
pertences. Mas no brilha. No me bota figura. J. Eu j tinha
posses quando nos conhecemos. Servia ela numa casa da
Pampulha, passava com a alcofa para baixo, para Alcntara,
bonita que eu sei l. Eu? A negcios, tinha ali negcios
perto. Depois da guerra, sim; onde  que pensa que fiz uns
dinheiritos?  No ferro-velho, a vender ferro que depois de
umas voltas ia para os Alemes.  Dizem que vinham c uns
barcos a busc-lo. Para as armas deles, a guerra come muito
ferro. Ento?  dedo,  faro, sim senhor. Diz que vem de
nascena, mas, para mim, foi coisa que se me foi formando
dentro do corao, como outros se faziam salteadores de
estradas. Habilidades filhas da misria, pinos de
saltimbancos, ora v. Uma fria, uma fora de vencer. Fiz de
tudo, senhora, andar ao lixo com uma carrocinha. Sacas de
ossos e trapos. Porcarias. Ora, na porcaria cresci eu. Sem
gua. Sem uma pia, com licena, em casa. Sabe quantas
banheiras tenho aqui? Quatro. E das grandes. Levam um tempo a
encher e a vasar. Lagos, uns lagos. Fiz a casa assim, um
-vontade, vinte e duas portas.  Mas no  tudo, no.  No  o
fim. Tenho um sonho maior. Hei-de comprar a quinta e
restaur-la.  E viver l. H? Na Viosa, pois.

Faz uma pausa,  espera, porque lvaro chegou. Acontece isso
ainda muitas vezes, que ele chegue, que lhe ocupe o
pensamento, a crescer, ensombrando o espao todo. Com a sua
magreza, os ombros recurvados, com aqueles olhos negros como
os olhos do pai, porm sem brilho, sorvendo a luz sem nada
devolver. Um pouquinho mais velho que o Santoro mas levado por
ele pela mo, ensinado por ele nas artes predatrias; como se
armavam laos aos pardais, como se assobiava para que os
peixes viessem morder depressa o isco. Coisas com que costuma
fazer-se uma amizade mas com as quais Jlio Santoro fez o fel
e o secreto adubo de uma vida. Ruminando, lutando contra o
sono no seu fraco colcho de carapelas, desenrolado  noite
junto  cama dos pais, punha-se o caseirinho a desejar: a
assistir  brusca runa dos Baies, a um incndio que
aterrasse a grande casa; enquanto que ele, viriam a saber, era
o filho escondido de um fidalgo. E levaria o Alvarinho, por
esmola, para o seu palacete.

O Santoro no tinha, como as outras crianas, remorsos pelo
mal que havia nos seus sonhos e foi talvez por isso que nunca
precisou de se escapar a eles, renegando-os ou rindo das suas
fantasias. Se tivesse ajuizado sobre a sua justeza,
encontraria causas e no culpa. Achava-os fatigantes, mesmo
quando as verses se iam modificando com o correr dos anos,
mas nutria-se deles como de um vinho que, ainda que transtorne
um pouco o entendimento, empurra para a aco e dispensa os
motivos.

Obsessiva, cumprindo os seus horrios, comparecendo sempre -
sem que uma associao de ideias a chamasse, sem que algum a
trouxesse  cotao: ali estava a lembrana de Alvarinho,
sorrindo, olhando em volta com familiaridade porque, mais do
que os filhos e a mulher do Santoro, era ela a habitante, a
que ocupava o centro do seu esprito e se fincara nele de
garra e bico para doer e ao mesmo tempo ser fiel. De sorte
que,  maneira de uma grande paixo, a vinda de Alvarinho
continua, apesar de ele estar morto e enterrado.

E o filho do caseiro pra e suspende a fala quando ele surge,
pra e massaja os olhos para que a viso se passe com toda a
limpidez. Ento respira fundo e continua, mais baixo e
devagar, agora que lvaro se instalou entre ns.

- Sabe do que ele gostava, o Baiozinho? De palavras. Um doido
por palavras.  A vasculhar nos livros a ver de onde  que
vinham e para onde  que iam, sempre na inteno de complicar.
Porque a palavra interessa  no momento, para a gente se
entender,  ou no ? Ele, no. Sempre a desinquietar.
Ensinou-me a ler, sim, que s fiz a terceira j homem, e
depois a quarta, que exigiram. Mas com ele aprendi o b + a =
b. Oua. No foi por nada, estilo de dizer-se: para o meu
bem, por querer puxar por mim. No fiquei a dever-lhe favores
em nada, sabe, e nisso tambm no.  Aquilo era o seu gosto,
como jogar s cartas: precisava parceiro. Punha-se a bater
palmas quando eu juntava as letras, tal-qual como quem ganha.
Quer que lhe diga? Ele nunca deu muito por mim. E crescemos os
dois e, j que vem ao caso, levei-o  Estelinha. Ah, sabe da
Estelinha? Que no iam l homens? Ah, pois, isso diziam os que
no tinham lbia para entrar. Que ela no era assim uma
perdida, uma mulher da rua, no. Aquilo era a doideira que lhe
dava para ali, uma veneta.  Queria ter aventuras, abrir
portas, passar sinais, conhece esta gentinha?  Geralmente 
criana que l muito, tanto l que tresl, usa dizer-se. Pois:
a Estelinha era saber lev-la, fingir sustos, sei l,
romancear. Eu no tinha pacincia, mas o qu? So precises da
carne. E aqui no havia como facilitar, isso achei em Lisboa.
Que, de certa maneira, ainda hoje no sou contra esses bares,
as penses, porque, se pensar bem, o que faz a limpeza 
existirem os caixotes para o lixo, no?  Pois levei o lvaro 
Estelinha. Porque o rapaz estava a rebentar de borbulhame e de
amarelido. Com o sangue infectado e a recolher, idade para
comer muita gemada e para o que se sabe. Vossemec que
escreve, que trabalha em jornais, no leva a mal esta
franqueza de maneiras.  a vida. E hoje em dia tudo se diz e
v, mas h palavras, com licena, que d nojo, que d
acanhamento de empregar. Abreviando: foi. Foi l que o
Alvarinho se fez homem.  Onde eu me fiz. S que com ele,
durou. Confesso que o levei porque sabia que ia agradar 
Estela, como quem leva uma caixinha com pastis. Sabe? Coisas
que contam a favor. Porque ele sabia tanta histria, tanta, um
no mais acabar. E resultou. Andavam ele e ela metidos em no
sei quantas tramias, tudo mentira em branco, j se v, e eu a
fazer do mau, do bruto, do marido, e a entrar-lhe na cama, com
licena, mais no pagando que alinhar nas invenes.
Esquisitices de mais para o meu feitio, cansei, tive vergonha
e acabou-se. Digo-lhe que bebia o meu copito para ajudar, para
folgar sem arrepios. Deram-lhe como honesta,  Estela? Oua.
As mulheres, por exemplo, sempre a viram assim. E muito homem
que no se lhe atreveu. E mesmo os que l foram. No  que no
houvesse maldade. Havia, pois. Havia muito peso de maldade. A
Estelinha era ruiva. So malandras. No, h ruivas honestas.
S que com ela, sabe... A gente via s o que queria ver. De
uma certa maneira, no existia, a Estela. Fazia desta, e
desta, e daqueloutra, e toda a vida nisto. At que quem lidava
mais mido com ela se desorientou. As criadas, e assim. E
ainda hoje dizem que anda por l muita estranheza. No deu por
isso?  Bem, melhor para a So Jos que se pe ouriada com a
histria, que diz que lhe escangalham o sonho de uma vida. O
meu? No, escangalhado no ficou. Olhe para c. Um casaro.
Trs filhos criados e estimados com tudo do melhor. H? Os
negcios a medrar sozinhos que nem coelhos, graas ao Senhor.
E ora, graas a mim, no  pecado, que tudo me saiu das mos e
da cabea. Muita matutao, muito estudo de esquemas. Coisas
que s puxando pela inteligncia. A vida dos negcios  uma
vida esperta, no arranca quem quer. Isso  bom para os
herdeiros que j podem ser burros e deitar-se a dormir. Eu
tenho a um neto que tem queda, as brincadeiras dele so
comprar e vender e ganhar tudo ao jogo. Os filhos no, saram
finos,  verdade, dois engenheiros e uma mdica, j viu? Mas
no so engenheiros das obras, no, senhora, nada que a mim me
traga utilidade.

Aprendeu a falar das suas queixas, a salpicar aqui e alm de
alguns defeitos a excessiva lisura de uma vida para a embaciar
ligeiramente, para a tornar credvel, vergando-a sob o peso de
contrariedades que mais fazem sorrir que suspirar.  Talvez ele
preste uma ateno discente quando acorre  Viosa, mal sabe
da passagem de Anabela Roz, para a cumprimentar e lhe fazer
ofertas pela compra da quinta - ao ouvi-la falar dos filhos
que no pensam seno em automveis e noitadas, e que nada se
interessam pelos bens da famlia. Estudando essa maneira de
tornar o lamento uma insinceridade, de ostentar o desgosto
como uma transparncia que, bem  vista, encerra o amor sem
ferida.

Temo que o homem esteja novamente a fechar-se, a engordar, a
acender o seu charuto, inseguro, arrogante, como quando
cheguei. O sol j mudou de uma
para outra janela mas continua a no poder entrar, o
escritrio rejeita-o, faz fora contra ele. Nesta pausa  bem
claro que vogamos, Jlio Santoro e eu, ao desamparo,
arrastados na roda do planeta; olho-o e sinto-me empalidecer,
supondo que acontea qualquer coisa que nos deixe isolados
para sempre, a dois seres to alheios um ao outro, postos a
partilhar a mesma sala como um bojo de barca num naufrgio.
Chego a cadeira muito para trs, para que o cinzeiro com os
seus morres deixe de entontecer-me.

Oua - diz ele, e fico sem saber se percebeu o meu momento de
vertigem. No entanto, parece-me suspeita uma chispa mais dura
nos seus olhos. - Cheguei a
 v-lo algumas vezes, sim. Ele no morava longe dos meus
stios. Em Lisboa.  Eu passei-lhe muito  porta. O prdio
ainda l est: um prdio todo verde, de azulejos. Agora dizem
mal dos azulejos, mas veja tanta casa de fidalgo. O Alvarinho
sempre ali viveu. Oua. Andei a segui-lo como um co,
escondido atrs das rvores, na Estrela. Como um co. E ele
nunca por tal deu. Sentado no seu banco, a escrevinhar.
Deixei-me disso. Foi quando conheci minha senhora.  Desde essa
data, nunca mais o vi. O mesmo espao entre ele e eu, no era?
E j parecia um mundo, um infinito. Cada um no seu extremo da
paisagem, coisa de meia lgua abaixo e acima. Que perto e
longe sempre a gente tinha estado. Mas estou em crer que no
foi s comigo. A senhora no tem a mesma ideia? Com essa
lambisgia  que no sei, falou-se que bebiam os ares um pelo
outro. Pois, convidei-o, sim, para c vir, e pus os olhos nela
como numa parede. Uma vontade de ofender que eu tinha. Uma
soma de mal no corao. Mas ele no veio, e ainda bem. Que eu
no sabia o que havia a fazer para o machucar. Que ele
escapava entre os dedos como areia. Dizem-me que so todos um
bocadinho assim, sem norte, os que levaram muito a srio as
palavras. No a senhora, veja, que se entende que tem os ps
na terra, que faz o seu trabalho como os outros, que h-de
saber apreciar o seu passeio, dar o valor a uma feijoada. Falo
 de gente feita o Alvarinho. Sempre embrulhado em histrias,
naquela excitao, digo bem, excitao, que achava nas
palavras. Repare que ele nem teve o seu animalzinho como toda
a criana, um pinto, um cachorrito. Parece que no conta, mas
no  bom sinal.

- Ultimamente tinha um gato - digo. - Deu-mo, quando se veio
embora para c.

- Ah, bom, isso no  a mesma coisa. Um gato, e na cidade.
Desses brancos? Vai ver que nem foi ele que o arranjou.

- Foi a irm - convenho. E ele sacode as mos como se as
retirasse, ainda encharcadas, de umas entranhas que o fizessem
adivinho. Sabendo tudo acerca de lvaro Roz, bastando-lhe
escutar dentro de si, combinar as parcelas do seu
conhecimento, porque naqueles anos em que viveram juntos  que
toda a matria e toda a condio da vida se forjaram.

Aqui, Paolo del Vecchio podia ter achado o que em Lisboa
perseguiu em vo.  Aqui lhe arranjariam,  fora de memrias
que puderam manter o seu vigor, a crnica dos dias da sua
personagem, os dados que permitem antever um destino.  Eu no
venho disposta para esse trabalho, quero apenas juntar o fim
com o princpio para que um ilumine o outro e o esclarea. E,
do fim, o Santoro nada diz, para alm do que lhe disse a vila
a ele. Que lvaro andou a na entrada dos frios ou, mais
certo, nos ltimos calores: um desgraado a rir e a dar
escndalo com uma rapariga de mau porte. Que depois avisaram a
irm, mas, quando ela chegou, j c no estavam. E que ainda
voltara e enfim morrera e houve um envergonhado funeral.

- S o vi na praceta aquela tarde de que j lhe falei. Pegado
 moa. Olhe: tristezas da idade. Da idade e no s. Do
desarrumo. Veja: era rico. Nunca se importou com o pensar dos
outros. Ele nunca quis mas foi saber dos outros.  Palavras. A
tem o Alvarinho. E no enterro, fora o aranzel do padre,
ningum falou, ningum lhe fez discurso.

Escureceu, o Santoro, por efeito de um pensamento mais
ensanguentado ou do entardecer que pe agora no vidro das
janelas um cetim, uma tela onde a luz bate e escorrega.
Despeo-me, mas quero que o lvaro aqui fique, no consinto
que a curva da conversa se feche a evocar um funeral:

- Ele tinha razo algumas vezes, no acha? Quanto a isso das
palavras. Santoro, por exemplo, a sua alcunha. O senhor mesmo
disse que se quis livrar dela e que no conseguiu. Chamava-lhe
Santoro, o Alvarinho?

- Quando me queria arreliar, chamava. J nesse tempo eu tinha
implicao. E ele gostava de usar uma palavra para levantar a
ira da pessoa. Como um latim de igreja, compreende? Um passe
de bruxedo. E resultava, eu lembro-me de escorrer em suor de
tanto pr a raiva para dentro porque,  claro, bater-lhe no
podia. Ele a saltar  minha volta e eu a jurar que havia de o
fazer pedir perdo.

Sorri, enternecido, de p  minha frente.

- Rapaziadas, pois no ? - concede, querendo dar o desconto,
atenuar a cor daqueles verges que ainda hoje se lhe vincam no
fundo da lembrana. Sabe de onde vem isto do Santoro? -
pergunta; e antecede-me no longo corredor, virando algumas
vezes a cabea para trs. Mexe-se com leveza na obscuridade,
como se finalmente conseguisse livrar-se da gordura ou de
amarras difceis de avistar. - Vem do meu bisav, veja l bem.
Que ia ajudar  missa, era um catraio, e um dia, algum
malandro o conversou, bebeu o vinho todo. O vinho bento que
havia l para trs na sacristia ou no sei onde  que o prior
o tinha. Foi isso no Santoro que h ali em Novembro,
Todos-os-Santos, dia um, conhece?  Junto ao dia dos mortos,
cerimnias de respeito. E ele a cair de bbado, e o pessoal 
volta: Ai, Santoro, Santoro. E Santoro ficou.

Descemos as escadas sem encontrar ningum. E eu rio, rio alm
de toda a proporo com a graa da histria porque a casa e o
homem me enervaram e a brisa do jardim circula baixo,
carregada de plen, e intoxica. Jlio Santoro
leva-me  sada, gozando, ao que parece, a descoberta do que
h de inofensivo em tudo aquilo.

- E a Viosa? A Viosa? - segreda, entusiasmado, pondo-me a
mo no ombro.
- Sabe o que  que a Viosa quer dizer? Viciosa: a tem o que
ela esconde.  Viciosa, assim se chamava ela por via de uma
dama, uma familiar destas Baioas que l viveu faz muito e
muito ano. M mulher, se me entende. Viciosa. Depois foi-se
ajeitando a palavrinha, e hoje j ningum sabe o que tem
dentro. Nem a velha Carlina, no senhora. Nunca soube.
Ningum. Coisas que s nos livros se descobrem, l nos
esquecimentos do registo. A Viciosa, h? No tinha ideia?

Pisca-me um olho, finalmente em paz na sua boa carne
camponesa. Mais um instante, e obriga-me a ficar para o
acompanhar na refeio. Passo,  pressa, para o lado de fora
da cancela. Ele segura-me ainda o brao, caloroso:

- A Viciosa. Se quiser escrever, pois escreva. Mas ponha claro
que a guardei comigo. Que o Alvarinho s mo disse a mim, e
pela minha boca no saiu.

Aceno-lhe da curva, sem coragem para voltar atrs e perguntar
por que razo ele nunca usou aquele segredo que to capaz
seria de ofender o orgulho das gentes da Viosa. Talvez por um
circuito malso de lealdade, penso. Ou talvez ainda por sentir
que lvaro lho contara para que ele o espalhasse com o fim de
irritar a av Carlina, ficando o caseirinho com as culpas. E
agora, que o podia divulgar  vontade, no achava ningum a
quem magoar.

- Havia essa criana, disse lvaro, e gritava. Vivia
atravessada pelos gritos.  Vomitava, puxava-os com as mos,
mas nunca conseguia libertar-se. amos para o jardim, sob as
magnlias, ela corria em direco s folhas e aos soldados
cinzentos. Foi depois que os soldados mudaram para verde e h
tempos atrs desapareceram. Mas nessa altura a minha filha e
eu batamos com as mos cada qual do seu lado e no nos
conseguamos tocar. Transtornava-me muito v-la ali, surgida
no sei de onde, uma coisa, uma carne, sempre a espalhar
barulho e sujidade. Ouve: eu esperava. Eu tinha confiana.
Porque houvera um descuido qualquer da Natureza e ela se
atrasara no seu fornecimento. Mas viria o amor, ah, sim,
acabaria por chegar, dizem que nunca falha o amor paterno.

- E ento? - perguntou Liza.

- Chegou, sim. Quando eu estava a perd-la.  Tinha-se
transformado numa rapariguinha que suspirava muito, j
desmoralizada pelos grandes trabalhos que d o crescimento.
Sempre a ter de aparar-se, de desbastar o excesso da sua
personagem para caber na magreza, no momento da idade. A
oscilar naquele desequilbrio. Mas j no era apenas eu,
ningum sabia como se aproximar. Isso ainda aumentou mais o
barulho da casa porque coincidiu com a separao e a minha
mulher comparava-a comigo, fazia residir a o seu desgosto, a
sua decepo. Queria que a filha se lavasse, se esfregasse,
punha-se-lhe a cheirar a boca e o nariz.

- As mes - comentou Liza. - Ah, isso, as mes...

- At que um dia deu-se a troca. Elas saram e entrou
novamente a minha irm.  O certo  que algum tinha de me
tomar a cargo, sim, isso reconheo. E quando a Anabela
desistiu, j estava a casa cheia de gente meio tonta que me
fazia ch e trazia comida comprada no sei onde. Enfim. Nunca
foi isso que eu busquei nas mulheres, mas era tudo o que elas
queriam dar. Filhos, conforto, asseio.

- E a grande paixo de toda a gente? At o meu pai teve uma
grande paixo.
H-de ter sido a malfadada da Lizette.

- Ah, sim. Pois  preciso. Ningum pode deixar-se envelhecer
sem acrescentar isso para trs, porque  tudo inventado, 
pintado por cima, compreendes? Agora eu podia falar-te de uma
grande paixo, uma coisa falhada e gloriosa, com qualquer das
mulheres que conheci. Havia essa mulher, por exemplo, que
sabia onde eu ia passar. E tomava-me sempre a dianteira, a
sorrir, com um leve aceno de cabea. Tinha um espantoso andar,
esvoaava, debicava na sombra. No se livrara ainda da
condio de pssaro ou estava prestes a tom-la, no sei bem.
Essa era uma poca em que eu saa muito, andava fascinado com
a luz, com o deslumbramento dos rostos que encaravam de chofre
com a luz. Como se protegiam num primeiro momento e depois se
entregavam, comeando a brilhar.  Mas ela estava fora disso
tudo, longe, muito entretido no seu voo. Escrevi-lhe um livro
inteiro de poemas.

- E acha que  melhor isso do que, enfim, ter uma relao
normal com ela? - perguntou Liza. Estas perguntas
enervavam-no, eram como encontres na multido, um gargalhar
de gente desdentada que o obrigava a defender-se, a
explicar-se, a ocupar um stio bem  vista. E, no entanto,
pensava, podia perguntar-se, podia responder-se quele enigma.
Talvez que fosse at uma prova de vida que todos tinham de
prestar a certa altura: provar o peso com que caminhavam,
provar como sabiam nutrir-se e defecar, aproveitando e
distinguindo as coisas e conhecendo claramente os perigos e as
falncias do sonho. Mas enquanto ele buscava uma resposta j
Liza se assustara, no receio de lhe desagradar, de lhe parecer
mesquinha. Franzia a testa, procurando, pressentindo, sem
perceber que aquele esforo se notava, que nenhuma conversa de
caf lhe tiraria daquele modo o sangue dos lbios e das asas
do nariz.

- Levei tempo a sair dos Amorins, disse lvaro. Ningum deve
sair to devagar, sem abrir de uma vez o seu porto, sem
transportar a maior parte de si mesmo na primeira, na nica
viagem. Se no, corre-se o risco de ficar pelo caminho. De se
gastar a alma a ir e a vir at que j nenhum lugar faa
sentido. Tu vieste fugida de Lisboa e ainda aqui no ests
toda.

- Eu no fugi - sobressaltou-se Liza, e a sua pele escureceu
um pouco mais. Era feia, pesada, e a mocidade s lhe aumentava
as aflies do corao; os prprios sonhos tinham asas
grosseiras e fceis de abater. Ficava mal naquele papel de
morte, de anjo transmigrador, pensava lvaro, porm, era
preciso ali algum que lhe desse a passagem, que soprasse
depois sobre o seu rasto para que os gros da terra novamente
poisassem, alisados, sem mculas do tempo. E, de qualquer
maneira, as mulheres que encontrara nunca tinham servido
inteiramente, estoiravam com os frgeis tecidos de desgraa em
que as queria envolver, levantavam-se, obscenas, com a sua
sade e as suas lavagens, a rir, conciliadas com os dias. S
Estelinha, ah, Estelinha, que depois o cansara, que num
instante perdera a lividez e aumentara de carne, o que tinha
alterado um pouco as fantasias, s Estelinha, naqueles
primeiros anos, se mostrara capaz de existir fora de horas e
do senso comum. Quem avanasse muito por aquele desvio, nunca
mais poderia regressar.

- O meu pai comeou a vir buscar-me. Julgavam que era coisa
natural, um pai que avista os lodos da velhice, que se prepara
e quer remediar o mal que fez na sua distraco. Eu sabia que
no, como s sabe quem muito necessita, com a inteligncia
cruel que o amor d. Ele estava doente, ficou muito doente.
Emagreceu, curvou-se e tinha dores, pelo menos passeava toda a
noite amparado no brao de Anabela, a gemer. Inquietava toda a
gente. E a minha prima freira, a Carmelita, que adorava o meu
pai, punha-se a queimar coisas e a rasgar as cortinas. Era
doida. As criadas no queriam l ficar. Naquela casa, as horas
que haviam nos relgios no regravam a vida de ningum. E
depois o meu pai ficava bom, levava-me a sair. Parecia ter
perdido de vez o equilbrio. Mas jovial: gostando de dar
escndalo, a comprar, a gastar ao desbarato. No sei se ele
tinha ou no muito dinheiro porque os Rozes eram uma enorme
famlia, ainda so.  Isso retalha uma fortuna, assim o
comentava a minha irm. Da minha av no ia um tosto para
Lisboa, excepto o que ela me punha no bolso, com segredos, com
recomendaes de o no mostrar. Entre ela e a neta houve uma
qualquer zanga cujo sentido eu nunca conheci.

Faziam devagar o caminho de casa, lvaro e Liza, e viam o
Outono cair sobre a paisagem como um leo, no seu rudo de
crepitao. Passavam pelo muro de Filomena, pressentindo que
dentro do quintal a folhagem tambm se avermelhara, cumprindo
as sequncias do vio, da secura e enfim da podrido, como se
a vida no se houvesse j retirado dali h muito tempo.

As nuvens ocultavam de vez em quando o sol, muito azuis,
despegando-se dos montes dificilmente, numa emanao. E lvaro
comeava novamente a querer ganhar um espao para o voo, a
separar-se. A chegada do frio aconselhava-o a recolher-se, a
proteger-se contra Liza, ensinava-lhe o gesto de apertar de
novo o sobretudo como uma coisa estanque, algo que deveria
vedar inteiramente, impedir toda a comunicao. Isso
aconteceria muito em breve, pensava, e tinha ento de se
apressar, de falar, para que tudo passasse pela boca, deitado
fora.

- Em Lisboa, contava, eu tinha medo. A comear pela velha, a
Carmelita, que era igual  figura daqueles pesadelos que anos
a fio recomeavam sempre, por muito que eu tentasse manter-me
sem dormir. Vim depois a saber que ela j estava naquela casa
quando eu l nasci. No me lembrava mas reconheci-a, era a
viso que encheu a minha infncia. Julguei que ela habitasse
numa fenda do quarto, a rir, despenteada, como as bruxas.
Dava-me essa agonia quando olhava para ela, quando a via
lamber a cara do meu pai porque ele lhe andava sempre a levar
mimos. Ainda l estava quando me casei, depois morreu, quando
chegou a perceber que as pessoas em volta j a tinham matado,
e que o meu pai, por quem ela chamava, no mais responderia 
sua voz. At ento, corria para a porta sempre que algum
entrava, a pensar nele, que j no existia h uns seis ou sete
anos.

Ningum a suportava, queriam-na internar. A minha irm  que
se opunha e a defendia, mais por fidelidade quele amor pelo
pai. Porque era claro que a Carmelita a enervava, at eu lhe
notava a falta de ar. No sei por que a deixou ali quando
casou, no sei de que maneira a convenceu. Lembro-me de a ter
visto colada contra os mveis, fincada neles como um animal em
perigo. Para que no a pudessem retirar. Isto era s quando
lhe vinha o medo, a intervalos. Tinha humores, a Carmelita.
Era incapaz da mdia, do bom senso. A loucura
empurrava-a entre extremos, era um grande baloio de criana.
Agora entendo.  Mas naquele tempo tive de fugir-lhe, de
arranc-la de mim, e isso no podia
fazer-se sem sangrar, no por ela mas porque os pesadelos
esto fechados na alma.  Esto do lado de dentro, onde apenas
se chega com rasges,  facada, como quem abre a inciso num
abcesso. Eu voltava para c e ia espreitar nos esconsos do
sto. Para ter a certeza de que eram tudo coisas de outro
mundo, da infncia, que  um lugar macabro de onde precisamos
de escapar-nos a tempo. Eu espreitava os esconsos para ver
somente o p e a tela dos males. Era o meu banho de
realidade. Vinha e limpava os cantos onde o terror fizera os
seus novelos, acho que comparo bem se falo de higiene,afinal
expus a casa inteira  luz, virei-a toda para o lado da
Marjoana que dava vassouradas como se o lixo fosse o mal. Era
a cruzada em que ela se apostara a combater. Acho que levou
nisso a vida inteira.  Depois no sei o que lhe aconteceu.

- Vive com uns sobrinhos - disse Liza.- Meio tonta. So coisas
da idade.

- Quem te contou?

- A minha tia. H tempo. Parece que voc tambm ouviu.

- Se eu te fizer perguntas, no respondas - pediu lvaro,
olhando para o cho. - No so perguntas para se responder.

Aqui atraioaram o esprito das rvores. Usam-nas para
reforo, como alado do muro. Para recusar a casa ao
viandante.

Agora esto em flor, mas parecem pr nisso bem pouca
convico. Os botes dos pitsporos espalham-se na valeta,
muito rapidamente macerados. Tambm os marmeleiros deixaram
cair as ptalas, como quem se sacode de uma futilidade.  Por
um momento, penso que a folhagem no nos oculta ninhos mas
mandbulas.

Canzoada: imagino esta palavra solta por todo o lado,
misturada no brilho irritante do sol. Empurram-se uns aos
outros contra o grande porto, ouo o seu restolhar, os uivos
entre a baba, uma dana da fome que no vem daqueles buchos
cheios de refeies, mas da voz que eles escutam nas
entranhas, dos mastins que ferravam o pescoo da caa e a iam
atirando contra o cho, at que ela estoirasse, deixasse de
gemer. Ponho-me a antever ndoas de sangue no focinho dos
bichos que me aguardam, que rosnam baixo, agora, mais
inquietos porque no me decido a puxar o manpulo para chamar
algum.

No posso demorar-me deste lado, com o peso da bruta Primavera
assente sobre a nuca, engalfinhada como um outro animal nas
minhas costas, com o seu bafo grosso e apodrecido.  uma
Primavera mal-disposta, fatigada talvez das cclicas rotinas.
Envelheceu tambm, com o senhor Rosa, com lvaro Roz. Tem
ainda estes dias de obsessivo calor, s vezes solta revoadas
de bom cheiro, esto em flor as azedas e as glicnias - mas
tudo revelado numa spia sombria, tudo envolvido em vus de
fumo e p.

 porque no h vento, diz-se. Eu vejo essa mulher curvada,
com o seu crnio lvido j posto a descoberto entre os fiapos
sujos do cabelo. Vejo o seu vestidinho muito usado, todo aos
rasges; aparentando estopa o tule e o cetim de que era feito.
E a face amarfanhada, escurecido, onde ainda se repete a
maquilhagem, pintada agora abstracta e cruelmente numa
aspereza de tela.

Passa, com dores, cumprindo o seu trabalho, ordenando o florir
e o verdejar sem que seja preciso prestar grande ateno,
tanto que praticou, toda uma vida.  Hostiliza-me a mim
especialmente porque fui acordar no senhor Rosa lembranas
daquele ano em que, ento sim, dominou tudo e todos, exercendo
o esplendor da sua carne com um franco exagero de tons e de
perfumes como vira fazer s cortess. Enfurecida, pe-se a
cuspinhar, espeta-me os cotovelos na cintura para que eu me v
embora, para que no remexa no corao dos homens que se
recordam dela. Por isso  que me custa continuar de p, aqui,
sujeita s suas
mordeduras, e a ouvir l de dentro os ces que se organizam
para melhor proveito do ataque.

Finalmente, os sons mudam, elevam-se e amortecem, misturam-se
a um X supostamente humano, e algum comea a abrir o
tremendo porto.  uma criadita como j se no vem, com farda
de riscado verde e branco sob um aventalinho de bordado
ingls. Parece-me haver troa no sorriso que lhe repuxa os
lbios para baixo.

- No h azar - garante, ao afastar-se para me dar passagem. -
A senhora j estava  sua espera.

Ergue os braos e faz estalar os dedos, autoritria, tensa
como uma domadora na plena lucidez do seu espectculo. Passe,
no fazem mal, no tenha medo, vai dizendo, x, x, e os
seus olhos observam a minha palidez, a fingida firmeza dos
meus passos que atravessam enfim aquele terreno cravejado de
coisas rosnadoras, de brasidos vermelhos encimando bocas de
onde escorregam humidades, viscosas peles que abanam sob os
dentes. So bons guardas, comenta a criadinha. Vendo que 
gente conhecida, pronto. Agora atrevo-me e olho para trs.
Eles devolvem-me o olhar: dois podengos, um castro laboreiro,
ofegantes, a rir, abrindo mo do seu poder. E afastam-se
enquanto o alarido de um outro, talvez preso, porque traz de
mistura pancadas de um metal, insiste em desviar-me a ateno.

A rapariga leva-me pela rua de saibro para o lado direito do
jardim. O ar modificou-se inteiramente, cheio da fina
vaporao da relva, repousado nas
muitas penumbras da folhagem. O som vem das crianas que
brincam na piscina, gritos que atiram umas contra as outras
juntamente com gua como se se queimassem, na imperfeita
imitao do pnico.  Detm-se a estudar-me e voltam para os
jogos, sem que o seu julgamento transparea.

A mulher est sentada sob a cor das mimosas. E essa cor
esvoaa  sua volta, separa-a, como um leve tecido de cortina.
Acena e a criadita afasta-se, apressada, vejo-a correr para
escapar da zona onde as crianas guincham e empurram as
cabeas umas das outras para as submergir.

- Desculpe receb-la aqui - diz a mulher. -  Tenho de estar a
tomar conta, nem ler posso...

Sorri, toca no brao da cadeira a seu lado. Eu gostaria de
dispor de um tempo em branco antes de me sentar e de partir
para a fala. Gostaria de a ter avistado de longe, para me
habituar  sua figurinha, ao vestido rodado de musselina creme
com flores azuis-escuras, aos miostis de seda que circundam a
copa do imenso chapu feito em palha de arroz.

Maria Carlos Sotto no deve ter trinta anos. O senhor Rosa no
me preveniu de que iria encontrar uma mulher to jovem e to
visivelmente fatigada com as tarefas que lhe destinaram. Deve
manter o rosto no seu ninho de sombra, sob uma coleco de
capelinas, para que a sua beleza chegue aos outros sem grande
nitidez, para que no doa e no lhe traga mais incmodos. As
ris verdes-secas brilham soturnamente atravs das pestanas.
Semicerrou as plpebras como se receasse consequncias
malignas ou efeitos de amor em cada ser banhado pela sua
viso. Penso no que contou D. Filomena, como lvaro lhe
inventava as histrias de um homem perdido entre sereias.
Devia imagin-las assim, desencantadas.

Maria Carlos veste-se, imagino, e desce a tomar conta dos
filhos no jardim. V naquela piscina uma ameaa, qualquer
coisa capaz de engrossar, de mudar-se em matria viscosa que
lhe sorva as crianas, que as puxe pelos ps e as incorpore no
lodo, nas goelas sob a terra. Contra isso ter de vigiar, de
se manter naquela penitncia dando a sua ateno, no
permitindo nenhuma distraco do pensamento.

Talvez que anos atrs, quando casou e veio morar na melhor
casa de Amorins, ela tenha gostado de receber visitas, de
armar os grandes ramos nas floreiras, de vir estender a mo,
inclinando a cabea um pouco para trs a fim de cativar os que
chegavam com o gelo fascinante dos seus olhos. Sentiu-se, com
certeza, saciada, vendo, para l de invejas e paixes,
deslizar a montona, a macilenta vida de um crculo
provinciano. Fosse o que quer que fosse, ela perdeu a
curiosidade. Nada daquilo que ainda no conhece pode
surpreend-la e interess-la.

Tambm no quer gastar-se no atrito com as outras pessoas,
naquele raspar de pele mesquinho e delicado que no chega
sequer para abrir feridas. De certo modo, penso, envelheceu:
de repente, por querer, precipitando as coisas, tentando
proteger-se ao esgueirar-se para dentro, ao habitar
excessivamente em si.
 difcil tocar-lhe, atravessar o campo de tdio e de
indiferena que a separa de ns.

Decido dar-lhe tempo, deixar que se dissipe pouco a pouco a
estranheza, tornando confortvel o silncio como um bem-estar
de amigas que j dispensa a voz.  Observo as paredes quase
curvas da casa, tal o peso da sua solidez, e espero que Maria
Carlos queira abrir enfim uma passagem onde eu possa caber.

O Agostinho Rosa foi quem lhe telefonou para pedir este
encontro. s quem aqui resta da famlia, disse-me, e houve
uma festa em casa dela. Gente ainda melhor do que as Baioas,
mas estmagos diferentes, compreende? Muito empreendedores ou,
se quiser, muito gananciosos, comentou ele, a rir. A sua
diligncia ainda incomoda s vezes. Porm, fico a dever-lhe
quase tudo o que sei da Viosa e de Alvarinho.

Estes Sottos, explicou, no precisavam de fazer pela vida.
Eram donos de aldeias inteirinhas. Mas, enfim, batalhavam,
batalhavam, metiam-se em empresas e em fbricas, o marido da
moa, da Carlinha, tinha agora o imprio da construo civil
para as classes com posses e com gosto que queriam
distinguir-se a todo o custo dos emigrantes que faziam
palacetes. Os Sottos: gente sbia, que olhava para os lados.
No outro tempo, o velho dava muito dinheiro s escondidas para
a oposio. Mas que no divulgassem, no o comprometessem,
pedia sempre. E era obedecido. De modo que, quando mudou a
ventania e os de baixo vieram ao de cima, na famlia e nos
bens ningum tocou. Considerados, fosse por quem fosse, ainda
que a velha, a D. Antonieta, mantivesse as distncias, sisuda,
arrepiada que nem uma rainha.

Como sabia o senhor Rosa disto? Ora, sabe de tudo um
caixeiro-viajante. S no fazia exactamente ideia da ligao
dos Sottos ao lvaro Roz. Algum o informara de que D.
Carlinha ainda era prima. E tinha organizado aquela recepo
que no deixara boas lembranas a ningum. Pareciam todos de
comum acordo para no falar do caso. Mas enfim: se eu
quisesse, ele, Agostinho Rosa, me arranjaria a hora e o dia de
l ir.

Est presa no rudo das crianas, mas a minha pacincia
comea, finalmente, a cham-la para mim.

- Desculpe - diz. - Sou muito descuidada.  preciso beber
alguma coisa.

Recuso e isso parece alivi-la mais. Luta contra os desgnios
da piscina, contra a gua que engole e lhe devolve os filhos,
esse  o seu trabalho principal, mas j desvia os olhos para
mim, lanando os fios de seduo do seu sorriso.


- Era com a minha sogra que devia falar. S volta para a
semana. Se esperasse...

- Mas a Maria Carlos  que era prima dele.

- Do lvaro? - pergunta e encolhe os ombros, tentando manter
firme um pensamento que se desinteressou de tudo aquilo. - Nem
nunca o tinha visto.  irm, sim. Terceiros primos s, parece.
Quase nada. Acho que ao quarto grau se acaba o parentesco. De
qualquer modo, eu pouco os conheci.

Peo-lhe pormenores sobre a famlia e ela lana-se ento numa
loquacidade que surpreenderia se no fosse visvel que no
quer que esta histria se torne a histria dela, que a atira
para fora de si como uma roupa que um dia lhe serviu e a
identificou, mas que longe se rasga e apodrece. Pe-se a
falar, sem perigo, para a prova de que no h destino, de que
o sangue deriva por caminhos de acaso.

- A minha av materna era sobrinha da velha Carolina.
Adorava-a. No sei, aquelas coisas: achava que ela, sim, era o
retrato autntico da tia. Vinha por grandes temporadas 
Viosa e entendiam-se as duas, como a velha e a filha nunca se
entenderiam. At que houve o casamento de Hermengarda e a
minha av s c voltou para o funeral. Mas toda a vida foi
fiel  tia, igual  tia, e ela prpria se gabava de ter
herdado aquela fora, o pulso, o p que nunca perguntava onde
pisar.  Deu  primeira filha o nome de Carolina,  segunda
Carlota, a minha me, e o primeiro filho veio a chamar-se
Carlos, j se v. Os outros que vieram acharam, felizmente, a
lista j esgotada. Mas olhe: prolongo eu a tradio. A minha
me tentou ainda para os meus filhos, mas os Sottos tambm
tinham    nomes para dar. Pelo contrrio, o meu av no disse
nada. Como o pai de
 Hermengarda: tambm nunca mandou. Veja: ele era um Peralta e
no entanto
 A famlia ficou sempre Baio. Baio  frente, nos registos e
tudo, ouvi
 dizer. Hermengarda Baio, lvaro Baio. Roz depois,  claro,
a onde entra a
 histria de amor com o espanhol.  um bom apelido. Eu vir
aqui casar, foi,
 at certo ponto, uma coincidncia. Fazamos os dois a praia
na Figueira. Antes
 de ns nascermos, j havia entre os pais alguma intimidade.

Traiu-se, apreciando um apelido e lembrando em seguida o
prprio casamento.  Ainda bem que esperei, que estive imvel,
dando a minha inocncia a conhecer porque ela foi saindo ao
meu encontro, farejando, hesitante, pronta a saltar para trs.
E agora ganhei-lhe a confiana. As crianas cansaram-se da
gua, fugiram, faiscando, engorduradas. Tenho-a, finalmente,
para mim, a esta criatura que deslumbra por muito que se
esforce por apagar as linhas da luz com que foi feita.

- Dizem que me pareo com a prima Hermengarda. Como podem
saber? Ningum a viu. Quero dizer: aqueles que a conheceram
morreram todos antes de eu nascer.

- Talvez a Marjoana?

- A criada? No sei. De qualquer modo, eu tenho a fotografias
e no percebo por que dizem isso. Fotografias com mais de
cinquenta anos acabam por parecer-se todas umas com as outras.
J lhe disseram que ela morreu louca?

Suspira e agita um pouco os dedos miudinhos como se tambm
deles esperasse uma resposta. Tem medo de Hermengarda, tem
medo de se ouvir a percorrer
o quarto da janela para a porta, da porta para a janela,
calada com sapatos de taco.

- Que ideia, no. Morreu tuberculosa. Era muito vulgar naquela
altura.

- Todos me dizem que ela morreu louca. Que se fechou e j no
quis comer. E que virava a cara para o lado quando algum a
tentava ir chamar  razo. Com os filhos pequenos, e assim.
Sabe, ela j era preguiosa, muito parada. Dizem que incapaz
de orientar a casa. Tinha a me para tudo.

- No - asseguro. - Isso so lendas na famlia. Vi a certido
de bito, os registos.  Foi a tuberculose que a matou.

- Acha? - insiste ela.

Olha-me e sinto que a mentira no serviu, que foi mesmo atear
qualquer suspeita.

-  tarde - diz e faz teno de levantar-se, porque j me
expulsou e agora tudo o resto se passa  superfcie, umas
poucas palavras que tomem a seu cargo fazer as despedidas,
tornar menos brutal a precipitao. - Desculpe, mas a casa e
as crianas... A minha sogra quis ir ver a filha que teve
outro beb. Est tudo organizado, o pessoal  muito
competente, sabe. Mas h os imprevistos, sempre  espreita.

Sorri, encolhe os ombros, resignada. Vai andar pelos stios,
espreitar os movimentos dos filhos pelos quartos, para se
assegurar de que tudo est bem: as catstrofes dormem fechadas
nos seus cofres por muito tempo ainda, sem que o seu respirar
se faa ouvir. Aproxima-se a hora do almoo e imagino-a
plida, assustada, lanando o verde insuportvel dos seus
olhos para cima das crianas que se engasgam e se do pontaps
por sob a mesa.

- Fale-me da festa - digo, e prendo-a pelo brao. E doce e
fria, tem a pele de um mineral. Obedece ao meu gesto,
recosta-se e comea a contar com voz fraca para se manter
longe, separada da histria, das suas personagens e do mal que
parece haver passado entre elas, desarranjando a situao de
cada um.

Os chs de D. Antonieta Sotto tm lugar depois das seis da
tarde.  um de vrios meios a que ela deitou mo para separar
as guas que andam agora muito misturadas, com a democracia e
um poder de compra que no define as classes.  Por exemplo,
esses chs a to esquisita hora montam guarda s visitas to
aceradamente como se ainda houvesse lacaios de libr. Pois no
  segunda ou  terceira e nem talvez  quarta gerao de
bem-estar que uma mulher pode
manter-se calma e dissertar com -vontade sobre modas,
comprimentos de saias ou mimos das crianas, totalmente
indiferente ao que vai na cozinha da sua prpria casa quando
se est to perto da hora do jantar.

Ao invs do marido que aceitou de bom grado as mudanas
trazidas pela revoluo, D. Antonieta obstina-se em encontrar
diferenas que estejam encerradas, presentes como um sangue
que ao mais pequeno estmulo saiba aflorar  face, mostrando a
sua inimitvel lividez. Sculos de po branco, de lavagens com
leite, de pequenos sufocos nas varandas sob a espessa folhagem
que entontece; o peculiar modo de sorrir que vem de mes e
avs terem escondido os lbios em leques de marfim, tudo isso
se revela, mostrando cada corpo a sensibilidade fatal e
involuntria que h numa amostra qumica. D. Antonieta deixa,
por exemplo, cair de vez em quando um pratinho no cho para
desafiar a erecta rigidez de cada convidada, pois, ao menor
vestgio de neurnios servis, pode, diz ela, ver-se uma
senhora dobrar a espinha ou mesmo ajoelhar-se para juntar as
migalhas e s depois corar.

Quis, no princpio, aconselhar a nora: Veja, filha, o segredo
de manter um lugar  movermo-nos ns quando eles se movem.

Porm Maria Carlos no se mostra interessada em nada que
suponha um sobressalto, que rompa a segurana da sucesso das
horas, dos gestos adequados a cada situao. Nem o tal eles
de que lhe fala a velha Sotto como de adversrios num jogo de
xadrez tem para ela relevo de ameaa. Parecem-lhe uma coisa
sem contornos, quase um fantasma, fruto de uma mente idosa e
corroda que anda a imaginar as suas patuleias com toques de
tambores e decapitaes, como as crianas sonham e se assustam
com histrias de homens sbios e perversos.

Senta-se no seu canto da salinha de Vero que tem uma frescura
um pouco pegajosa, virada que  ao norte e toda revestido de
ladrilho mido ocre e azul, cujos desenhos lembram de algum
modo decoraes romanas. Cheiram a cera porque D. Antonieta
recusou as vantagens do verniz, outro artifcio da
democracia. No pode comparar-se, assegura, um soalho lavado e
encerado por boa criadagem de joelho no cho com outro, posto
s pressas na construo em srie, afogado com baldes de
resina que qualquer mulherzinha supe ser o garante ideal de
um brilho eterno.

No se conhece ao certo a quantidade de pormenores como este,
mas so eles que conferem  grande casa Sotto o seu estranho
equilbrio entre peso e leveza, fazendo com que assente no
solo de Amorins to arrogante como um monumento e ao mesmo
tempo se levante e afaste, inacessvel a imitaes.

Os chs de D. Antonieta so o vcio, o pesadelo e a ambio da
vila, porque no  possvel a ningum preparar-se, pois que se
ignora o que vai ser julgado. E esse mistrio excita e adoece
senhoras que podiam passar a meia-idade na paz dos netos e dos
rendimentos.

Maria Carlos gosta de observ-las quando encostam os lenos s
asas do nariz porque a insegurana as faz humedecer como se a
temperatura se elevasse. Gosta de ouvir as frases perderem o
embalo, dissipadas no efeito do seu prprio vazio, lamentaes
de rola, murmrios de jardim. Prefere-as s mais novas, ainda
muito confusas com os primeiros partos, entregando e pedindo
confidncias numa tagarelice que a fatiga.

Nos chs da sogra, h muito desistiram de a ver participar.
Lanam-lhe uns delicados Viu, Carlinha?, A Carlinha no
acha? Experimentou?, desagradando a D. Antonieta a quem
repugnam os diminutivos.  esse seu ar tmido, diz ela, leva
as pessoas  condescendncia. De princpio assustou-se porque
Maria Carlos, grave e bela como era, podia ser tomada por uma
costureira que lhe tivesse enfeitiado o filho. Dizia-lhe a
experincia que um bom sangue corre habitualmente em queixos
descados, dando um ligeiro brilho alucinado a olhos que o
terror e a escassez de pestanas tornaram salientes muito
sculo atrs.  Mas, apesar do abandono da Viosa, o nome dos
Baio foi o bastante para que  recm-casada - que visitara a
quinta com a me umas frias de Pscoa quando tinha oito anos
e a prima Anabela quisera devolver as cartas de famlia que
chamavam os ratos aos bas -, foi o bastante para que 
recm-casada a acolhessem por direito prprio; alvo de amores
e de dios por conta de memrias de que ela no fazia a mais
pequena ideia.

Quando veio a saber-se que lvaro passeava pelos cafs da vila
como um demente e agarrado  rapariga, alguma coisa dessa m
notcia contaminou os chs da casa Sotto. As senhoras chegavam
um tanto afogueadas. E era como se trouxessem o silncio,
punham-no ao colo, assim, visvel e pesado, seguravam com
dedos muito tensos as malinhas de mo, comprimindo no mesmo
movimento agressivo os fechos e os lbios e a expresso do
olhar. E enchiam as gargantas de tomas de ar ansiosas,
enquanto declaravam andar sem apetite. Ocupavam-se mais de
Maria Carlos como se ela merecesse piedade.

Tornava-se evidente que tinham um segredo e que o prazer se ia
mudando lentamente numa lngua de cobra que doa, que teimava
em morder at que a vomitassem. D. Antonieta achou
insuportvel o modo como os nervos as faziam sorver o ch das
chaveninhas. O que foi? perguntou.

Maria Carlos lembra que ainda havia calor porque a sogra no
tinha mudado de saleta embora toda a gente, pela fora do
hbito, franzisse a testa olhando para a serra e passasse em
revistas os agasalhos. A agilidade com que D. Antonieta fazia
face ao que a ameaava tambm se revelara h uns anos atrs na
maneira como ela escapou aos calendrios, comeando a faltar
ao respeito pelas datas. Confiava somente nos sentidos.

Qualquer dia - dizia-lhe o marido com quem ela cortara
relaes desde que o vira bbado entre o povo na euforia da
revoluo; nenhum dos dois aceita recordar-se da causa, que
hoje lhes pareceria frvola e perdovel, sem consistncia para
garantir aquele tom de conforto e de elegncia que lhes d o
dormirem separados - qualquer dia, a senhora faz o Natal na
Pscoa s porque avistou neve nalgum pncaro. Mas ela
precisava de impor a sua ordem sobre a ordem humana e, de
certa maneira, sobre o que aqui em baixo de uma ordem divina
se deixava entrever, pois de ambas recolhera decepes.

Assim, foi na saleta dos mosaicos, como se lhe referiam
mostrando, num sorriso, que se davam bem conta da
impropriedade de tal designao, que as Sotto ouviram tudo o
que as visitas tinham a comentar sobre lvaro Roz. Mas o
escritor, irmo da Anabela? Que sim, irmo. Escritor, no
estavam certas, talvez que qualquer coisa menos sria, poeta,
ou s bomio, no sabiam. Usava barba e houve quem o visse de
casaco coado na torreira do sol como os mendigos. Mas um
Baio, para todos os efeitos. Diziam e inclinavam as cabeas
como para dar  jovem Baioa ali presente condolncias por
morte ou por vergonhas.

Maria Carlos conta que fitava os bicos dos sapatos, incapaz de
escolher uma atitude, perplexa com a brusca entrada de um Roz
na sua fortaleza de ao e penas. Pois claro que Anabela
aparecia, ficava para jantar sempre que vinha  quinta. Mas
era uma mulher gulosa e ponderada, tudo o que havia de
consolador.  Esse lvaro teria at, quem sabe, os mesmos olhos
claros, desvairados, da me.  Isso atemorizou-a de tal modo
que teve de pedir desculpa e retirar-se para se deitar no
escuro, at que a pulsao do crebro acalmasse e ela pudesse
enfim adormecer.

D.Antonieta acha bem quando a nora d mostras de uma
delicadeza que testemunha os mimos da sua criao. Porm
impacienta-se quando a crise se arrasta pelas horas da noite e
o filho comea a bufar nas escadas. Logo aps o jantar,
entrou-lhe pelo quarto e acendeu a luz. Vou escrever ao seu
primo, anunciou. Organizamos-lhe uma recepo. Imagine que o
seu marido e o meu j sabiam de tudo e viviam em paz. Com um
Roz a rebolar nas ruas.

Maria Carlos viu nesse exagero um sinal de que a sogra estava
desesperada e isso a levava, como de costume, a responder s
coisas atacando, a ponto de perder a sensatez. Nem Anabela me
ia perdoar, disse a Sotto, e parecia ser esse o argumento que
tudo decidira. A nora suspeitava que, mais do que acudir
quele rasgo nos laos de famlia, D. Antonieta queria
divertir-se; disse ao marido que se mantivesse atento, que
vigiasse a me. Mas os homens jamais admitiriam que essa
mulher de pedra envelhecera e poderia comear com disparates.
Era mais fcil duvidar de Maria Carlos, to atreita a doenas
da imaginao.

lvaro respondeu no que se entendeu ser um tom corts, j que
a caligrafia era ilegvel. No: no existe agora o seu
bilhete, pois D. Antonieta deitou-o  lareira quando, no fim
de tudo, o tentou decifrar e lhe pareceu, disse ela, na
segunda leitura, descobrir uma ou outra obscenidade pelo meio
de frases sem sentido. Mas tanto a polidez como o descaro
foram atribudos por D. Antonieta a um texto do qual, garante
Maria Carlos, nada se percebeu. Apenas se viu nele o que era
de esperar conforme as circunstncias.

Foram, pois,  Viosa, sogra e nora, depois de uma questo com
o Sotto velho que confessara conhecer bem lvaro do tempo em
que, rapaz, vinha passar o Vero aos Amorins. Sim, as famlias
davam-se, pois sim, eles conviviam, cerimoniosamente, porque o
lvaro tinha a conversa difcil e parecia preferir quem no o
entendesse. Um deles era at o filho do caseiro, o Santoro,
que agora estava a um ricao, dando uma triste ideia do que 
subir na vida. Mas, enfim, que deixassem o Alvarinho em paz.
Se ele nos quisesse ver, j tinha vindo. Que teima a sua, a
de arregimentar, dizia, ao que a mulher sabia retorquir que,
com essa recusa, mais se lhe reforava a determinao.

A visita  Viosa cumpriu-se com bons modos. Maria Carlos
conta que prestou pouca ateno quilo que foi dito.
Escutava-se a si prpria, a sossegar. Porque, confessa, todos
aqueles anos desde o seu casamento supunha que estaria em
falta por no querer ocupar-se da quinta, por l no ter
voltado alguma vez. E afinal via que no era aquela a casa de
que andara tanto tempo a lembrar-se. No tinha na memria
aqueles ngulos, nem aquele portal, nem a grande varanda
coberta a toda a volta do andar superior. No havia aquele
ptio nem aquela secura que voltejava, que fazia arder o cimo
do arvoredo. Uma das casas, a real ou a sua, se fora
deformando, ganhando outros contornos, outra disposio para a
runa, de forma que j no coincidiam, e ela podia dar-se
razo por ter falhado essa tarefa, que agora percebia no lhe
dizer respeito.


lvaro era moreno e parecia tranquilo. Nem lhes pediu desculpa
pelo estado das coisas. Recebeu-as naquilo que devia ter sido
a sala de jantar. E casava-se bem com aquelas sombras, como se
sempre houvesse morado no meio delas. Uma criada veio servir
um ch em malgas de alumnio e ele perguntou com naturalidade
se queriam repetir.

Coitado, o abandono a que chegou, disse no carro D.
Antonieta. E permitiu-se enfim um arrepio. O ch tinha-a
decerto nauseado.

lvaro acompanhara-as  sada e ento retivera as mos de
Maria Carlos e
olhara-a como se olha num reconhecimento ou numa despedida,
mas talvez fosse apenas para compensar um pouco a frieza do
encontro.

Para maior sucesso da sua recepo, D. Antonieta imaginara
mesmo comprar os livros de lvaro, sobre o que quer que
fossem, e exigir-lhe que lhos autografasse perante toda a
gente, dando graciosidade quela indiscrio. O livreiro em
pessoa veio, no prprio dia em que foi contactado, assegurar
que sim, que fazia uma ideia do nome e obra de lvaro Roz. Se
pudessem dizer-lhe qual era a editora ou, ao menos, a data das
publicaes. No, retorquira D. Antonieta. A cada um a sua
competncia. De edies e sapatos de desporto, que sei que os
vende a par na sua loja, quem deve saber tudo  o senhor.

O livreiro, irritado, garantiu que teria toda a palavra
escrita pelo autor em questo nos seus escaparates, dali a
cinco dias. Cinco dias  muito, disse a Sotto. Preciso
deles para sbado que vem. Encomendava, como flores ou bifes,
e o livreiro jurou entreg-los a tempo. Era, porm, daqueles
que no sabem mentir, dos que mordem a lngua como
principiantes. D. Antonieta deu o caso por perdido mal o viu
voltar costas. Tambm, considerou, bem--humorada, podia ser
que se tratasse apenas de algum chorrilho de inconvenincias.
E decidiu deixar no esquecimento os dons literrios de lvaro
Roz.

Bom, o Outono tinha enfim chegado, conta Maria Carlos, e era
aquele um Outono realmente confuso, to quente e amarelo que
as encostas da serra ainda se incendiavam  mais pequena
coisa. Mas sopravam uns ventos muito embrulhados de gua, os
bichos levantavam os focinhos. As criaditas riam no jardim ao
recolher as folhas em bides porque o vento lhes dava
bofetadas e lhes pregava as saias contra as pernas, fazendo-as
atrasar-se na tarefa. S raparigas novas podem rir daquele
modo  chegada do Outono, dizia a governanta, a desculp-las.
Mas
D. Antonieta andava intolerante, pusera j os netos de
castigo.

Talvez tivesse enfim compreendido quanto exagero havia no seu
zelo. A lista dos convites foi muito generosa. Toda a vila
sentiu, de uma maneira ou de outra, o choque que alastrava
como uma ondulao  ideia daqueles portes abertos a gente
que jamais sonhara ali entrar. Sem que o soubesse, a Sotto
imitava, a seu modo, Carolina Baio, empurrando as pessoas
para os factos, conduzindo os olhares ao que devia ver-se,
expondo to francamente as coisas sob a luz que ningum
poderia alimentar suspeitas.

D.    Antonieta decidira mostrar lvaro, entreg-lo, avisar
que a sua proteco se exerceria com severidade. A partir do
momento em que o apresentasse como um Baio e, logo, como
famlia sua, torn-lo-ia alvo de respeito, estaria a limpar o
riso das semanas, quem sabe se dos meses anteriores. Porm,
onde a Baioa procedia com pompa, com um certo talento para a
provocao derivado talvez do seu corpo excessivo, D.
Antonieta punha a subtileza, as suas dentadinhas arrogantes
que irritavam, faziam comicho no esprito de muito convidado
que s desejaria viver sem medo ou dvidas aquela promoo.
Houve, por exemplo, uma aluso ao trajo: que era de escolha
inteiramente livre, visto que na provncia no se cuidava
dessas exigncias. Isto teve o efeito desorientador que D.
Antonieta desejara.  Pois o que parecia uma cedncia era um
cruel trabalho sobre os nervos, minando a confiana dos
eleitos.

Com que subentendidos a sogra lhe sorria, diz-me Maria Carlos,
enquanto dava as boas-vindas a senhoras com vestidos s flores
e casaquinhos. A verdade  que vinham j muito fatigadas e
pareciam incapazes de afrouxar a vigilncia dos preparativos.

- Repare - comentou D. Antonieta - que resolveram no trazer
chapu porque depois, dentro de casa, no sabiam se o deviam
tirar.

Ficara a par de tudo pela modista.

- Acredita em castigos? - pergunta Maria Carlos. - A minha
sogra fez aquilo com maldade. Foi com maldade, sendo boa a
inteno. Espero que compreenda.  Porque, dizendo assim, tem
ar de um disparate. Mas tudo comeou a fugir-lhe das mos.
Choveu e anoiteceu cedo de mais, as pessoas levaram a
excitao para dentro. Ainda bem que ningum viera com
crianas, realmente os convites no as mencionavam. No havia
barulho: sussurrava-se, tal o medo que tinham de errar, de ir
contra as regras. Um sbado sinistro. Eu passei todo o tempo
com receio de que faltasse a luz, no sei porqu.

- Mas a luz no faltou...

- No, no faltou. s vezes penso que basta eu ter o medo para
demover as coisas, que a fora com que eu tenho o medo as
satisfaz e elas se deixam aplacar e passam, e j no teimam em
acontecer. Naquela tarde, dediquei-me  luz. E afinal estava
tudo noutro lado. Ao lvaro  que coube deitar abaixo a festa.

Suspira, fatigada. Falou muito. No comigo: sozinha,
descobrindo como tudo podia transformar-se num conto, como as
palavras estavam a servir para remeter os factos para longe,
para o terreno inocente das fices. Mas agora o dilogo
incomoda-a, vejo que se prepara de novo para fugir.

- Oua, fale-me do fim, como acabou o dia. O lvaro chegou e
foi mal recebido.

- Chegou. Morto de bbado e com a rapariga - diz ela e depois
olha-me de frente.  Oculta o rosto com as mos e ri. Deve
ter-se fechado no quarto para rir nessa noite, assustada,
porque a boa atitude seria indignar-se, adoecer de raiva como
a sogra. - Desculpe,  tudo to inconveniente.

Tem as faces coradas, sob o pequeno inferno daquele riso:

- Cheirava mal. Olhava para as pessoas, dizia Como est?
como se lhes cuspisse. E a rapariga atrs, escurinha,
atarracada. Deram a volta a tudo, s salas, e subiram para o
primeiro andar. Os meus filhos gritaram, mas no era por medo.
Era um pretexto para se excitarem, para virem ter connosco,
so crianas.  Nenhum de ns sabia o que fazer. O meu marido e
o meu sogro retiraram-se, vi-os desaparecer com um copo na
mo. Depois disseram que tinham ido debater uma estratgia,
uma maneira de abafar o escndalo. O que fizeram foi sair de
cena. Eu, no sei, acha que h a voz do sangue? Estava com
pena de lvaro. Imagine: pensava que devia dar-lhe leite e
ajud-lo a deitar.  Sabe?  Ele no estava nada embriagado. Era
outra coisa. Julgo que o convite lhe pareceu muito mal.
Compreende? Assim como se o chamassem  ordem. Foi agressivo
como um rapazinho.

- E a Lizette?

- A Lizette?

- A rapariga.


- Sempre atrs dele. Parecia um guarda-costas. De olhos
esbugalhados para as paredes. Era pobre, no era? Conhece-a?
Pois se a visse, via o que quero dizer.  No sei exactamente
de onde  que ela surgiu. No  dos Amorins. Bom, eles
desapareceram na cozinha. No sei porqu, mas foram para a
cozinha. E a minha sogra ainda tentou salvar as coisas, como
era quase a hora do jantar anunciou que ia mandar servir. Mas
apareceu a cozinheira espavorida, a queixar-se. A minha sogra
veio a despedi-la porque no aceitou que ela tivesse perdido a
compostura.  A verdade  que todos a perdemos. No sei
exactamente o que ele l fez, mas parece que os tachos e as
panelas andavam amassados pelo cho. A rapariga queria
segur-lo, houve gritos, enfim. Eu tinha uma vontade pavorosa
de rir. No meio de tudo aquilo, as pessoas trocavam as suas
impresses sobre o que era que haviam de fazer. A minha sogra
disse que lvaro enlouquecera e que tomara lcool com os
medicamentos, de modo que o jantar ficaria adiado. E que
contava, frisou bem, contava com a intimidade que dali em
diante a todos os unia para que defendessem da vila aquele
segredo. Ficavam to ligados ou mais que uma famlia. Ouviu
dizer alguma coisa por a? A minha sogra usou o nico
argumento que os podia calar. E pois calou. Uma mulher
espantosa.

- Imagino que no se resignou. Que teve de arranjar uma
resposta.

- Foi, sim.  Telegrafou  Anabela, depois falaram pelo
telefone e ela chegou, disposta a internar o irmo e, dizia, a
mandar prender a rapariga porque com gente dessa h-de haver
sempre assuntos de polcia a resolver. A minha sogra e a
Anabela juntas, atiando-se o fogo uma da outra. E a Anabela
ainda mais enfurecida porque de certa forma se culpava de o
ter abandonado. Sabia sim, sabia que ele c estava, confessou,
mas passara um ms nas termas. Tinha tomado as suas decises,
fica com asma se se preocupa. E a filha dele,
dizia, que era nova e saudvel, e no queria envolver-se em
responsabilidades? A Anabela interpretou estas figuras que ele
andava a fazer com a rapariga como uma censura pessoal. Como
um recado, entende? E enervou-se. Vinha disposta a intern-lo,
sim.

- E ele?

- Desapareceu. No sabia? Pois foi. Quando Anabela veio, uns
dois dias depois, j no o encontrou. No estava nem na quinta
nem em lugar nenhum.

- Mas como, se morreu aqui nos Amorins?

- No sei. Voltou, no ? Daquela vez o certo  que Anabela
regressou a Lisboa sem o ver.

- E a rapariga, ficou l na quinta?

- Acho que no - diz, e encolhe os ombros. Os factos comearam
a esvair-se,  preciso supor, conjecturar, e isso ela
recusa-se a fazer, no quer cuidar da histria como se fosse
sua, pode perfeitamente abrir a mo e deix-la cair para que
murche, para que seja entregue ao varredor.

- Se esperar pela semana que vem, a minha sogra conta-lhe tudo
mais em pormenor.

- J c no estou - respondo. - E ainda bem que a encontrei a
si.

- Sempre lhe vai escrever uma biografia? Ouviu falar na prima
freira, a Carmelita?

- No - digo, para que o susto daquele pensamento se retire
depressa do seu rosto.

Uma empregada surge das traseiras com a misso de me encarar
severamente.

- Meu Deus, passou a hora do almoo? Comea logo tudo a
transtornar-se. No  por sua causa, no, desculpe. Devia
t-la convidado a entrar. Ainda posso convid-la, no?

- Tambm estou atrasada - digo. E penso que me apetece muito o
peixe frito, os bolos de bacalhau que dona So Jos me serve
na penso com aqueles seus temperos brutais e carinhosos.

- Acompanho-a, ento - diz Maria Carlos.


Os ces mostram os dentes e bocejam. Ela estende-me os dedos
sem vigor. - Acha que ele estava doido?  Enlouqueceu?

- Estava doente. Nunca ouviu contar que muitos moribundos
dizem obscenidades, fazem coisas que a vida no os deixou
fazer?

- Tambm os doidos, h?

Rio-me. Para que tudo se torne numa graa, dita por bom humor
na despedida.  Mas ela cora e fecha-me o porto, sem evitar o
brilho hostil dos olhos.

- Eu ofereci-me para lhe contar. Voc  que no quis ouvir,
porqu?

- Julguei que ia mentir.

- Sabe-se l quem mente - diz Perptua.

Trouxe-me para a cozinha, para dentro do que a faz sentir-se
protegida: para esta escurido, de onde pode talvez tirar
alguns conselhos sobre como h-de
defender-se de mim, da minha vinda. Prepara o seu espectculo,
vira e revira a alma para que eu veja que  limpa e no tem
dobras, nada se oculta ali. Dir tudo o que sabe, contanto que
o relato no a faa perder o cho a que se agarra, no a leve
tambm para longe da Viosa. Pede-me juras. Fico embaraada,
h qualquer coisa de arriscado, de maldito no uso de palavras
compostas numa frmula que no me compromete ante mim prpria
mas a faz confiar, falar comigo como se a lngua me tivesse
sido atada. Jurando eu, pois, no tem que vigiar.

Sigo o caminho que lanam os seus olhos, ando com ela para
trs, ouvindo-a.  No se debate contra aquilo que conta, j
no se exprime por sacudidelas,

cansou-se ou aceitou-me ou ps-se a amar a histria, e leva-me
pela mo na sua voz. Eu tenho talvez febre, nem comi, vim
directa da casa dos Sotto para a quinta sob um calor que ainda
no devia aqui estar, que parece correr do sul no meu encalo.
A caseira e as sombras por detrs dela so atingidas por
pequenos focos doentios de luz. Oscilam. E esse embalo
arredonda, adormece, envolve toda a fala numa l onde me 
permitido recostar. Vai contar-me a verdade sobre o que se
passou mas isso, de repente, perdeu a importncia.

- Em certas chuvas, diz Perptua, as guas voam. Penazinhas de
rola que se fincam nos telhados, nas heras, que no caem, que
andam enviesadas, sem cair.  Metem-se pelas frestas, pela cal,
esgueiram-se para dentro como bichas, e isso faz o hmido das
casas. Penduradas em tudo e agarradas com as suas razes, de
onde vem a nascer esse bolor que, quem atentar bem, ver ser
planta com seus rebentozinhos a florir. Essas guas no pesam
e enganam. Cuidam que as atravessam sem grande prejuzo e
vai-se a ver encharcam mesmo at  medula, e muito mais
difceis de enxugar que uma chuva que escorra com limpeza.
Pois no dia aprazado para a festa, nem por querer,  que se
estreou o Inverno. Eles a sarem e ela a comear. Chuva que
no se ouvia, dessa de que falei, da que me veio entrando pelo
ar da cozinha com o seu cheiro a terras de fundura e esse lodo
nos barros que logo nos comeam a escorregar das mos, guas
falsas, no h que confiar; assim como se entranham pelo lado
de fora, se entranham no de dentro com a sua raiz onde se
aplicam a crescer e a sufocar, que no meio de um tal
emaranhado j o sangue no pode estender-se a seu contento.
Fique ciente: dessa chuvarada  que ele faleceu. Penou um
tempo, coisa de quinze dias, menos: dez, oito, no sei quanto
mediou entre o eles abalarem e o eu dar com o pobre nos
canios.

Morto, negro de morto estava ele, negro e rijo, embrulhado
naquele seu casaco.  Um troncozinho, um nada, ainda para mais
que ele em vida j tinha fraco alcance de corpo. Tudo um lamal
por perto, aude e terras feitos no mesmo, uma traio para os
ps. Vai eu: cuspir, benzer-me e arreliar-me. Via-se bem que o
homem tinha querido era acabar-se ali. Que tinha vindo sei l
por onde e a custo com aquele crescimento da gua nos pulmes,
como quem quer a prpria cama ou a me, j vi casos, para se
dar a morrer. Porque o trago da morte  muito azedo e ele
entendeu tom-lo onde nascera.

Mas logo tal em cima dos meus ombros. Previdente, eu,
pacfica. Capaz de confiana. Aqui, tomando conta sem
desinquietaes, guardando a ruindade destas quatro paredes
mais que se minhas fossem. E o desassossego a castigar-me.
Sero provas de Deus, isso no sei, mas se ele bota o olhar
nas intenes tem de mandar-me embora sem sentena. Porque eu
no chamei nada nem ningum e tudo me escolheu para desabar.
Assim o senhor lvaro, coitado, andar por fora e vir morrer
aqui. Benzi-me. Acobertei-o como pude, com umas mantas velhas
que
tive de queimar porque sabo nenhum limpa aquele cheiro. E
corri l para cima, levei junto, no mesmo passo, esconderijo e
pressa. Por pouco que os Correios no fechavam e no h outro
stio onde se fale sem que o ar esteja cheio de orelhinhas.
A vim a saber que conhecia o nmero da senhora sem papel, e
apanhei-a em casa.  Era isto a meio da tarde. Chegou, fazia
escuro h muito tempo. Sozinha, sim, sozinha, sem marido nem
filhos; que aquilo, a amizade, o conforto dos seus, s ia
empecilhar. Ela, nos Amorins: uma duquesa. Logo ali trouxe o
mdico, o prior.  Que sozinhas as duas o lavmos, o metemos na
cama. No enganava, bem se via que o santinho j se finara h
tempo. Mas em paz. Isso  bom que se diga: havia paz naquela
negrido. Tenho ideia que ele mesmo se deitou e deu o seu
suspiro com consolo, como um bicho se aninha no calor.
Fantasia. O que foi e o que no foi, ningum no viu que d
para contar. O funeral foi coisa estremunhada, um corropio, de
caixo fechado. Eu l, para fazer nmero. A senhora e a Dona
Antonieta, muito farejadoras, muito bravas, para no deixar
crescer murmurao.  Querendo enterrar, e andor!...
Envergonhadas. Tanto que nem pensaram deitar as mos ao fundo,
trazer  luz do dia o sucedido. Eu, em brasa, uma espuma, uma
secura, os nervos a ratarem por dentro o organismo. Para nada:
que no tinham os meios de ligar a mim a rapariga. Cuidaram
que o patro  que a tinha encontrado e trazido para a quinta
por derrio. E que ela o viu doente e o largou, e ele quis
voltar para casa, j estoirado. No posso ir contra isso, que
no sei. No a vi mais, depois de eles abalarem. Mas a Liza
escreveu para Lisboa, dois postais com figuras: que est bem.
 tudo o que me diz a minha irm. A patroa - no h como o
engano para manter sossegado o corao - ainda me deu dinheiro
para me eu calar. E se hoje, no presente, eu desatei a lngua
no  porque ganhei mais outro de voc. No. Cuidei que seria
mas agora, passadas estas noites e vendo-a aqui de novo,
compreendo: que voc tem de encher e eu de despejar, que
preciso
passar-lhe esta conscincia como quem cospe uma peonha, zs.
Que um segredo  um poo de agonia, uma lombriga, engorda c
nos fundos. E mesmo que o escrevesse, e o contasse, e que o
saiba a patroa, voc que acha? Eu dava todo o dito por no
dito. Que  dele, a rapariga? Desconheo. Ora bem: to valente
 a verdade que medra sem que a queiram semear. Por minha f
que nunca mais a vi.

Como foi que idearam de abalar? Isso foi derivado da tal
festa. Chegam-me a os dois repassadinhos, varados de gua,
como j lhe apresentei. E ele, sem fazer caso nenhum daquela
molha, logo assentado  mesa, a rir, a rir. Um rir-se j
cruzado com a tosse, a farfalheira, avisos de que h ndoa, de
que se remoinha o corao.  Desiguais: contente ele e ela
enfiada, que fora e que no fora, no dizia. Est bem de ver
que aqueles sonhos da cabea, de se ir meter no meio da gente
fina, rebentaram no ar como deviam. H casos de subida, mas
com tempo, tudo leva a fazer-se, e eu avisei. Nunca vim a
saber do fundamento, do que lhes ps as almas naquele estado.
Estou em crer que botaram na rua a rapariga por via de maus
modos que tivesse. Que aquilo  gente de outros ademanes,
maneiras de comer, de se assoar, falas, cheiros, no h que
lhe explicar, voc anda mais perto de l do que de mim. Eu
procurei a um e a outro, procurei; mas nenhum deles me trocou
resposta. De trombas, a Lizette. A parecer, sabe o qu? Um par
de acasalados.  Um arrufo. Acho que por ele rir, por achar
graa ao que a ela lhe estava a amargar. Olhares que a
rapariga lhe atirava: setas que s tantas ele sentiu picar.
A passou-lhe aquela tonteria, deu-se conta do frio, chegou-se
s brasas. Eu que ali estava feita um bom espantalho, que
ningum me dizia chus nem bus, fui-lhes aquecer vinho com
canela. O patro, a pensar por um bocado. Depois deu-me ordem
de arranjar um txi logo para de manh, bem manhzinha. Vou
pr-te como queres, disse ele para a rapariga. No posso
garantir que fossem estas, estampadas, as palavras. Fossem
quais fossem, tinham o sentido, a maldade do homem para a
mulher. O Ruo  que depois me veio contar que o patro foi
deix-la entregue a uma parente. E que no ps a mo na
rapariga, isto em resposta ao que eu averiguava. Mas homens,
j se v, mentem com gosto para encobrir as coisas entre si. O
Ruo, esse  quem tem a um carro velho, no  um txi, no,
mas faz viagens. Fui eu que lhe falei. Lev-la l? Nem sonhe.
Aquilo  gente que no se volta, que no d a salvao. Capaz
de disparar a caadeira.  Porque pensei no Ruo?  Ora, no
sei. Havendo txis l em cima, quer dizer?... Cuidei, talvez,
cuidei que abria conta, que podia cobrar-lhe mais tarde esta
ateno. Mas oua, no veio mal nenhum daquilo. O homem foi e
regressou no seu servio. O patro apeou-se a  entrada,
vinha muito doente, sim, contou-me o Ruo, j nada trabalhava
naquele corpo. Meteu direito  gua e l morreu.
No batem certo, os dias? Quem o diz? Encontrei-o passada uma
semana, perto de duas, v. No paga a pena andar s voltas com
a razo. O Ruo? Mora alm no Cho dos Fojos. S d com aquilo
quem sabe e eu no a levo. Eu  que c ficava para o sofrer.

Cruza os braos e encosta-se  parede. Os seus pequenos olhos
de animal desprendem-se de mim com deciso. Tem com certeza
coisas para fazer, ps-se a faz-las j, em pensamento, e o
grito dos bichos sob o sol vai ajud-la a no se demorar.

- Nem o homem descansa enquanto andarem a falar-lhe no nome.
Um morto quer  que lhe ponham flores na campa. No se deve
cham-lo - sentencia. E a severidade desta ideia f-la corar,
virar-se contra mim. Cospe e esfrega depois o cho com o
sapato.

Eu saio pela porta da cozinha e volto-me para trs, mas no a
vejo.

O Senhor Rosa esfrega as mos. Precisa de fazer circular a
energia como se, em vez desta torreira, ainda passasse um ar
de Inverno sobre ns. Insistiu em levar-me na carrinha,
abre-me a porta com deferncia e eu sorrio, entro com os
cuidados de quem use sapatos de salto alto e um chapu. Essas
so as mulheres do senhor Rosa e  deste modo que ele
descrever a sua companheira destes dias: a quem tanto ajudou
e que o queria reter para sempre, junto a si, num andar com
varandas. Fica nos Amorins mais tempo que o previsto, serve-me
e eu sirvo-lhe e, por baixo disto, comeou a nascer uma
amizade, plida, incerta, um rebentinho sob a pedra, mas que
devagar sopra e vai limpando, para que as grandes imagens se
dissipem e cada um de ns se faa amar, nu e sem importncia
na sua desnudez.

Contei-lhe tudo, a ele e  So Jos, inclinados os trs sobre
o balco da entrada, tentando equilibrar-nos na tontura que 
noite ataca ainda mais fundo na penso.  Olhmo-nos,
perplexos, e depois suspirmos para comear a rir, porque o
que eu lhes dissera que era tudo no era nada e no havia
histria.

- Amanh vou falar com o mdico. No sei. Tenho uma vaga ideia
de que conheo o filho. Tem o mesmo apelido e  destes stios.

- E pergunta-lhe o qu?

- Os pormenores da morte, pois no ? Foi ele quem passou a
certido.

- Estude a conversa - disse a So Jos. -  bom estudar sempre
antes a conversa.  O mesmo para o Ruo, no lhe v aparecer
assim desprevenida.

Ao Ruo, ao Cho de Fojos, levar-me-ia o senhor Rosa.
Recordava-se bem dessa famlia, ms rezes, porm belos
matadores. Gente arisca, talhada em cepa dura, pouco falante,
que valia pelas mos. Quanto a mos, isso, oh, faca danarina.
Espetar, cortar e desmanchar o porco, artista, reforava a So
Jos, que at esfregar uma fiada de degraus tem modo bom e
errado de fazer-se. E abrir um animal com ordem, com cincia,
isto j sem falar de ser certeiro, de parecer que o estava a
ver por dentro para lhe ir logo direito ao corao. E ento,
no acto de capar, zeloso e querido pela sorte. Procurado pelos
lugares de toda a redondeza:

- Era o pai destes, no seria, senhor Rosa? Lembro-me dele, eu
era tamanhinha.  De manh, tudo azul, tudo cheiroso, e eu a
espreitar  porta o movimento, o meu pai que Deus tem, as
minhas tias, as vizinhas mais pobres a ajudar. A minha me
chamava-me da cama, no me queria l fora, tinha raiva, pavor
do Ruo, embirrao, v'l. Ferrava-me aqueles dedos que eram
como tenazes, que aos entrevados sobe a fora para cima. E
punha-se a rogar pragas ao homem que se calhar tratou-a mal
alguma vez, ou ento no foi nada, j se sabe, uma doena faz
desarrazoar.

- H-de ser filho - confirmava o senhor Rosa.

- Ou neto. Eles hoje crescem como espigas.

A velha Ford arranca com presteza. Cheira a calor, a coisas
ressequidas sem qualquer resistncia  combusto. Eu recosto a
cabea, desolada.

- Correu mal - adivinha o senhor Rosa. - Mas, ao menos,
recebeu-a?...

- No segui os conselhos da dona So Jos. Preparar a
conversa, no a ouviu?  Praticamente o homem ps-me fora.

O senhor Rosa vira a cara para mim, procurando expressar
desgosto e escndalo.  E os seus grandes olhos salientes
fogem-me, divertidos, aplicando-se  estrada.  Passamos pelos
muros em cunhal onde se encerra a casa de D. Filomena, mas o
ar no transporta a esta hora nenhum aroma vindo das roseiras.

Deixmos para trs os Amorins. A paisagem d febre, to
pesada, com um excesso de flores e de zunidos que parece
tolher-nos o avano. O senhor Rosa guia devagar.

- Mas ento, conte l, que disse o mdico... Ou p-la fora,
sem lhe dizer nada?

- O homem no tem queda para a diplomacia. Ficou todo ofendido
e fez questo de no o disfarar. Pensei que ia bater-me. E
enorme  ele.

- Furioso, h? - insiste o senhor Rosa.

Metemos para a serra que no entanto se mantm l no fundo,
recuando  medida que a vista se aproxima, to ilusria como o
horizonte. O caminho  de p e de cascalho, e em volta h
prados roxos que estremecem como se um vento baixo os
agitasse.

- Culpa minha - convenho. - Culpa minha. Precipitei-me.
Perguntei-lhe as coisas como se o atacasse.

Passa por mim a imagem do consultrio branco, um espao
mineral de onde tudo o que possa sujar-se, apodrecer, foi
vigorosamente erradicado. Eu pensara que iria reencontrar ali
o cheiro a encerado, as colunatas e armrios de pau-preto, as
begnias-chuvo nos seus cache-pots que em casa do meu mdico
de infncia produziam a sntese esperada entre o mistrio e a
domesticidade. Mas este doutor Paiva Sobralinho, de bata bem
vincada e dedos speros por excesso de lavagens, pareceu-me um
enfermeiro ou um anjo de loas, grande, forte, grisalho, com ar
de quem confessa e desinfecta a carne antes de retomar o seu
papel. - Para ele, na verso dele, foi o caso do corao que
no aguentou. Um corao j fraco, com mazelas, que no podia
dar-se a excitaes. Enfim, teve que ver com a rapariga.  Diz
que acontece muito nos bordis.

- Oh - faz o senhor Rosa, perturbado. A Ford vai agora a passo
de homem, sacode o lombo como se a fadiga e o nosso prprio
peso a exaurissem. A pequena distncia, v-se um grupo de
casas com telhados em runa. - E zangou-se porqu?

- Quem?

- O doutor.


- Ah, porque eu perguntei pela autpsia. Perguntei se,
naquelas circunstncias, ele no devia ter autopsiado.
Fartou-se de gritar, mas no explicou.

- Amigo, muito amigo da famlia... - diz Agostinho Rosa, com
maldade. - J muito amigo, o Sobralinho pai... Puxam uns pelos
outros,  sabido. E o tal Sobralinho de Lisboa, seu conhecido?
No lhe falou dele?

A carrinha parou e h dois ces pardos que correm para ns,
mostrando os dentes.  Eu retardo a sada, conto o resto com
sbito vagar.

- Julguei que o acalmava com isso. Pois falei. Nem calcula o
que foi. A gota de gua. O Jos Sobralinho  filho deste,
herdou o nome, a profisso e tudo... Agora faz acupunctura com
chineses.  da que o conheo, das agulhas. Apaixonado por
aquilo. Tanto que renunciou a prosseguir carreira no hospital.
Disse-me o pai, por mim no o sabia. Fazia assim com as mos,
assim para a porta, vociferando contra os curandeiros e contra
os jornalistas, tudo gente sem estofo, sem moral, bons uns
para os outros. Foi um desastre. Vi-me na rua como que soprada
por algum furaco!

Rimo-nos porque andamos a rir de quase tudo, o enigma
tornou-se uma adivinha, um labirinto em feira popular. Vamos
l ver agora, murmura o senhor Rosa.  um Ruo. Tirei-o pela
pinta.

O homem arredara a rede de pescar que protegia a porta dos
insectos. Fez com certeza algum sinal aos ces porque j no
os vejo em nenhum lado. E agora cospe para o cho e espera.

- Deixe que eu falo - avisa-me o meu guia.

E, em verdade, prefiro descansar, assistir ao espectculo da
esgrima entre o perguntador e o perguntado, entre o furo e o
coelho sob a terra. No posso competir nas armadilhas que um
caixeiro-viajante aprendeu a estender durante toda a vida. E o
senhor Rosa arranca bem, com cumprimentos, com apresentaes;
depois, jogada certa, com memrias. Mas o Ruo no joga, no
se furta nem deixa o rasto para que o persigam. Fita-nos com
os olhos insolentes, semicerrados, menos pelo sol que pela
inteno de nos dar conta da nossa pequenez. Sentou-se na
soleira e nem sorri do desconforto com que nos mantemos de p
 sua frente, transpirados e sem sabermos que fazer das mos.

Sinto que h gente em volta, nos janelos, nos lados escondidos
das paredes. As galinhas lamentam-se na sombra. Sob a branca
penugem dos cabelos, o crnio do senhor Rosa congestiona-se. A
voz sobe, afilada, mais senil. O outro ergue-se e d por
terminada a conversa que mal chegou a haver.

- No h mais nada para contar - declara.- A pequena ficou no
Porto, numa prima, uma mulher chamada Francisquinha. E o homem
veio de volta para a Viosa.  A tm.  Que querem?  Folhetins?

- Ah! - exclama o senhor Rosa, apaziguado. -  J nos diz
qualquer coisa. E quanto tempo, lembra-se, por favor, de
quanto tempo  que se demoraram na viagem?

- Deixe-se disso - diz o Ruo, e entra na escurido da casa
que parece abater-se um pouco mais.

Vamos, peo, lembrando-me dos ces. O senhor Rosa ri-se,
estica as mangas um pouco amarrotadas do casaco. Quer deste
modo dar a entender que alcanou o que tinha desejado
alcanar, que a luta foi renhida e ele pode agora sacudir-se
do p que levantaram. Eu vejo-o to mirrado, to aflito no seu
corpinho velho, ainda ginasticado de muito saltitar  roda das
pessoas, que j no quero avaliar o encontro, tornar patente a
minha decepo. Viramos para trs, ele marca um ritmo com os
dedos no volante e ao fim de pouco tempo consegue realmente
ficar entusiasmado.

- Temos ento uma senhora Francisquinha. Francisquinha, no
Porto, uma parente.  questo de ir, de conversar com a
rapariga.

- Francisquinha?... No Porto?... - repito, procurando no pr
muita acidez nas reticncias.

- Acha-se, sim. Contanto que no seja gente fora de portas.
Que no , so famlias de raiz. Entrando em quatro ou cinco
lojas, dou com ela. Quer partir amanh cedo?

A viagem de volta foi mais curta, o Cho de Fojos fica bem
mais perto do que ainda h bocado me pareceu. Chegamos 
entrada da penso. O senhor Rosa espera uma resposta.

- J no tenho mais tempo - digo. E toco-lhe no brao com
vagar, para lhe agradecer. - De qualquer forma, o senhor sabe
que isto no faz nenhum sentido.

Ele demora-se um pouco, finge procurar coisas no fundo da
algibeira:

- Quer que eu v? Oua, no me custa nada.

A dona So Jos vem receber-nos.


- Demos com a rapariga. H que ir ao Porto - diz Agostinho
Rosa. E esfrega as mos como antes de partirmos, olhando para
mim com um sorriso que a determinao tornou cruel.

Enquanto eu dormitava no meu quarto para que o resto das horas
da tarde se apagasse, a minha vinda aos Amorins soltou-se,
desprendeu-se de mim como um cachorro que vai morder e cativar
 toa. Foi a filha da dona So Jos quem subiu a chamar-me
para o jantar. E os seus belos olhos sombrios, dissimulados,
pela primeira vez encontraram os meus, com curiosidade e
alguma censura, nessa avaliao contrariada com que as
mulheres supem ver noutra uma rival.
Sorriu-me e suspeitei que ouvira qualquer histria ou que
invejava algum dos meus vestidos. Convidei-a a ficar enquanto
me arranjava e ela encostou-se  porta e no falou.

 natural que as coisas se transformem ou, melhor, explorem
todos os limites da sua prpria corporizao, alargando,
encolhendo, aprofundando a cor, abrindo em certas noites como
um pano de boca sobre vises a que ningum se quer furtar,
pois a penso j comeou assim. Fora da pedra-m que h por
baixo, disse um especialista de passagem. Fermentao dos
vinhos na despensa, contrape o marido da dona So Jos. Seja
o que for, jamais se foi ao ponto de ter de lamentar o
sucedido. Passa-se um pouco de gua pela nuca, d-se um
furtivo belisco na perna e tudo volta a enroscar-se no seu
canto.

Mas agora, mal entro na sala de jantar, sinto que o que
acontece pertence a outra ordem menos inofensiva; que decorre
um espectculo no qual eu desempenho um papel relevante e -
pelos bons sorrisos que todos me dirigem - destinado a merecer
carinho e proteco. Sento-me  pressa para que o senhor Rosa
no se aproxime a tempo de ajeitar a cadeira. No aparelho de
televiso, um locutor parece sufocar, fala como num sonho,
emudecido. E, virados para mim, os comensais abanam as
cabeas, aprovadoramente. Penso que, de repente, algum vai
levantar-se e sugerir um brinde. Mas todos recomeam a comer.

O senhor Rosa toma lugar  minha mesa. Porm, no brinca j s
ligaes secretas. Comenta a sopa, o vinho e o guisado na sua
voz de velho que se eleva e  recebida com um oh de
simpatia. E um rapaz muito magro, de pele rsea onde no se
adivinha qualquer pilosidade, inclina muito o corpo na nossa
direco como quem quer estender-se e alcanar-nos sem
percorrer o espao que h no meio.

- Como  que eu nunca ouvi falar do homem?  Acho muito
esquisito ele existir - diz e encolhe muito prontamente,
reunindo a comida com furor. Pela sala esvoaa um burburinho.
Apanho aqui e alm o nome de lvaro.

- O que  isto? - pergunto ao senhor Rosa.

- Estamos todos a colaborar - responde, e eu vejo que no vale
a pena irritar-me, ou sair, ou convenc-los de que anda ali
abuso e despropsito. Porque, afinal, no lhes pedi segredo, a
ele,  So Jos. Dei mesmo  histria, ao trat-la como algo
que se esconde porque h nela um sentido a decifrar, um ar de
discrio e de mistrio que no lhes deixaria a lngua
sossegada. Entreguei lvaro, por leviandade. Entreguei-o sem
querer a estes oito ou dez habituais clientes da penso, j de
si - pois que a ela voltam sempre - dados a manter fios
demasiado elsticos, retorcidos, quebrveis, com o mundo real.
Como posso ordenar-lhes que se calem, que no se atrevam a
alimentar-se da substncia picante, suculenta, a que acabaram
de deitar a mo?

Sorrio ao senhor Rosa, envergonhada. Quero comer depressa e
retirar-me. Mas os outros terminam muito antes, deixam os
pratos cheios e acercam-se, no se chegam sequer a levantar,
arrastam as cadeiras sob as coxas.

So grandes caras rudes onde o sol corroeu e escavou, com
grosseria. H dentes de ouro e anis de brasileiro, barrigas
que se empinam, revelando o fole das camisolas interiores. E
h com certeza o cheiro masculino a tabaco, a cabelo e a carne
quente que a gua-de-colnia, evaporada, apenas conseguiu
unificar. Mas na penso da dona So Jos os refogados e o
caramelo no consentem que nada para alm deles impressione as
narinas, a no ser quando se trata de alucinao, e as paredes
ressumam, por exemplo, a maresia.

Sou a nica hspede na sala. Outras duas mulheres com quem j
me cruzei no comparecem nunca s refeies. Por momentos,
suponho que me deixei cair num centro de armadilha. E, como
no entendo a origem da ameaa, no sei de que maneira reagir.
Eles riem-se baixinho  minha volta com um pequeno som
rosnado, afectuoso. S o rapaz que h pouco se indignou se
mantm  distncia, mais corado. A dona So Jos chega-se ao
grupo, cruza as mos sob o peito, a dar sinal de que vai
decorrer uma conversa e de que se acabaram as tarefas que at
ento a mantiveram afastada.  porta, a filha e uma criadita
espreitam nervosamente para o grupo, espetam uma na outra os
dedos, para se rirem. Falta o marido, o homem escuro e cptico
que se ausenta por vezes, sem motivo, confidenciou-me a dona
So Jos, s porque uma penso pede s pessoas que entrem e
saiam, no  bem um lar. Esta ligeira distraco do pensamento
acalma-me, e pergunto se no vem o caf.

- Primeiro as novidades - diz ela e estica o queixo para
baixo, para o Rosa. O homem que se ps mesmo a meu lado d-me
pancadas cmplices no brao. Usa pulseira de ouro. Sinto a sua
respirao asmtica, excitada. Ri, mostra muito os dentes
amarelos, e o seu rosto crestado de servente que se guindou a
construtor civil espalha uma luz ansiosa, de criana.

- Ento, uns dormem e outros fazem o trabalho. H? - exclama
ele, realmente enternecido. E, como se este comentrio desse
por encerrada a prvia conteno, atropelam-se todos uns aos
outros para me explicarem qualquer coisa.

Como num torvelinho, durante o fim da tarde a ateno dos
hspedes foi sendo arrebatada para a histria de lvaro e da
rapariga.  medida que entravam, caam naquele vento. E
agradados, pousando as bolsinhas de calfe, puxando, os que
fumavam, da sua cigarrilha, davam opinio, liam indcios. At
que um deles, o Ascenso Menino, cuja vozinha, fina e
melindrosa, bem se harmoniza com o apelido, resolveu que se
agisse porque, enfim, ali estava uma mo cheia de homens
capazes de lanar a sua rede cada qual para seu lado, de modo
a abarcarem zonas de influncia cuja soma haveria de cobrir
todo o espao de hipteses possvel. Este Ascenso Menino
negoceia com trutas e tornou-se optimista.

O telefone no baixou no seu descanso e a dona So Jos abriu
uma excepo e deixou que servissem cervejas e vermutes fora
de horas e fora do lugar.

H dois ou trs, entre eles o senhor Rosa, que arvoram um
sorriso de modstia e falam muito menos do que os outros,
querendo dar-me assim a entender que a grande descoberta lhes
calhou. Dou por mim arrastada pelo entusiasmo como por uma
dana que primeiro se recusa por ser um tanto obscena e
infantil. Atinjo o ponto de impacincia que eles esperavam e
que em todos os jogos de adivinhas se faz durar porque supe
um amvel, um risonho poder sobre aquele a quem coube o papel
de ignorante. Deixo-os brincar ainda um pouco mais, vejo-os a
salivar e a agitar os dedos, to concentrados como
bonecreiros. Depois cansam-se e eu canso-me, e h como que o
abrir de um espao para que a fala se movimente com
serenidade. Relata ento a dona So Jos que conseguiram
localizar a Francisquinha, de seu nome correcto Francisca
Ingls Murtal, com u, sublinha, pois, com u, ecoam eles,
viva de um doutor Murtal em cujo nome se mantm registado o
telefone. Sem filhos, esta dona Francisquinha, e senhora de
bens apreciveis. Que relao tinha com lvaro? pergunto.
Prima, era prima. Mas por linha de mulheres, o que deitou
abaixo o apelido.  Ento, e a Lizette? Estava l?  Algum
tinha falado com a Lizette?

- Qual! - diz o senhor Rosa, e os companheiros murmuram em
unssono, deplorando os coraes ingratos que h no mundo. - A
senhora, se o primo lho pediu, disposta at, quem sabe, a
adopt-la.  uma simpatia de pessoa, viu-se pela maneira como
desabafou sem sequer conhecer com quem falava. Casa boa,
primeiro uma criada para atender ao toque, depois ela,
sentadinha na sala, com certeza, habituada a que l v tudo
parar. E a rapariga no durou uma semana. A senhora no disse,
mas deu a entender que, alm do mais, tinha roubado pratas.
No  que eu queira ir muito por a, disse ela, porque,
aprofundando o assunto, acaba por fechar-se a alma  caridade,
mas h comportamentos que j vm ditados por herana e que no
mudam. Essa mida  ordinariazinha.

Parece ento que Liza no quis aprender nada, que soprava,
fechada no seu quarto e pedia dinheiro para sair, para comprar
pastilhas e ouvir msica, j que a senhora havia proibido e
dera ordem para se deitar fora uma espcie de rdio de feira
que ela tinha. Fez-lhe falta Perptua para a aconselhar, para
lhe falar de clculo e ambio, narrando novamente a histria
favorita, da D. Bia do coronel dos Amorins. Insultou, pois, a
dona Francisquinha, que andou doente e, ainda pior,
desesperada da condio humana. Uma bela manh, desapareceu.
Perder assim essa oportunidade, um caminho de vida to feliz.
Que o sangue, comentou a dona Francisquinha, vive sempre 
procura da sua prpria gente e a rapariga onde se queria ver
era com a criada na cozinha. A criada, segura no seu posto,
pessoa muito antiga no servio, tratava-a com distncia, com
frieza, com m-vontade,  certo, obedecendo a todos os
desgnios da patroa, mas rezingando contra a intruso. Estava
a preparar-se ali o inferno e o ela ir-se foi para bem de
todos, conclura a senhora, suspirando. No. Nem pde avisar o
Alvarinho porque entretanto ele veio a falecer. Que ela no
quis pensar exactamente no que o unira quela rapariga.
Proibiu: proibiu toda a entrada a pensamentos desses no seu
crebro. Era uma triste histria, mas enfim, como podia ela
recusar?  No, da Lizette no sabia nada, nada queria saber.
Para ser sincera, no gostara dela.  Logo, assim que lhe ps a
vista em cima.

- E o lvaro, ento?  No ficou l?

- No ficou, no. Seguiu com o motorista.

- S quis dar um futuro  rapariga. Bem parva foi em no
aproveitar.

Comentam, e a conversa multiplica-se em pequenos murmrios
consternados. - Voltaram ento logo para a quinta? - insisto,
e eles nem me do uma resposta.

- Por hoje  tudo - diz o senhor Rosa. - Mas isto vai no adro,
a procisso.  Pensamos descobrir a rapariga.

Olho em volta, assustada, mas percebo que no posso det-los,
que at o desconforto que  decerto visvel na expresso do
meu rosto lhes parecer perplexidade e admirao.

- Sim, sim - diz o dos dentes amarelos. - Sabe que eu tenho um
genro na polcia?

- Isto  que se arranjou um entretm! - exclama um dos mais
tranquilos que puxa um leno e d uma palmada no Ascenso
Menino. Reconhecem-lhe o mrito da iniciativa.

A dona So Jos alarga os braos numa pequena bno e sorri,
como se se revisse numa sua ninhada.

- Amanh comeamos aqui pela Viosa. No leve a mal, mas isto
agora vai. No lhe dou cinco dias que a no tenha ao telefone,
ou ao vivo. E a pergunta tudo
o que quiser - promete-me o senhor Rosa. Esqueceu-se de que eu
disse que partia.  No sinto obrigao de lho lembrar.

Quase digo: Preciso vomitar. Mas consigo sorrir polidamente
e,
levantando-me, assentir: que sim, que falaremos com Perptua
Dimas, que seguiremos no encalo da Lizette. O rapaz magro que
ficou  parte encara-me hostilmente e aproxima-se, ergue o
indicador como quem vai fazer uma pergunta, mas  lento e eu
consigo escapar-me para a porta onde as rapariguinhas j no
espreitam. Volto-me ainda para trs e agradeo. Eles acenam,
risonhos, generosos.  Vo levar muito tempo a adormecer.

Sem acender a luz, estendo-me sobre a colcha de gorgoro
estampado. Mesmo que feche os olhos no me poupam, assisto a
tudo o que sucede s coisas, a penso Pr-do-Sol passeia-se e
rasteja entre o meu estmago e um qualquer recanto brilhante e
doloroso que inesperadamente se me acende no crebro.
Disparou-se um relmpago - e a carne, e todos os revestimentos
aprazveis ficaram obrigados a mostrar, transparecendo, as
fezes, o esqueleto, a roupa apodrecida nas gavetas. Como se um
magma, um solo sobreaquecido fizessem borbulhar, estalar a
casa, e as paredes estivessem a ressumar humores que at agora
a determinao da dona So Jos, com a sua vassoura e os seus
desinfectantes, manteve aprisionados como maus pensamentos.

No consigo meter-me entre os lenis. Como pude viver estes
dias aqui, excitada pelos horrios, pelos cheiros da
provncia, como um filho-famlia no seu primeiro emprego? A
verdade  que o quarto me agonia, desmascarado como o vejo,
enfim, cheio, quem sabe, de vestgios mal lavados de quanto
corpo j por ele passou. As manchas amarelas da coberta, que
sempre me pareceram grandes rosas, crescem, empastam sob as
minhas pernas, estendem para me agarrar dedos em que a matria
no teve ainda tempo para se refazer. Levanto-me e encosto-me
 janela, ouvindo a noite.

 uma noite de onde os seres humanos se afastaram h horas, e
que por isso exibe os seus rudos sem nervosismo, ouvindo-se a
si prpria, espalhando com vagar a limpidez. V-se que dura
desde h sculos, igual, fiel aos Amorins, sujeita apenas s
ligeiras mudanas de estao: descendo, abrindo as asas,
murmurando enquanto se acomoda sobre as telhas, sobre a
extenso dos campos em que a esperam, tremendo, os animais.
Viu D. Pedro Roz chegar com os saltimbancos, viu Hermengarda
a carregar nas plpebras com os indicadores, to fatigada por
acordar e por adormecer que s assim aliviava os olhos.  Viu,
esta mesma noite, crescer o Alvarinho: saltar, se no mentiu
Jlio Santoro, pelo quintal para dentro da penso, para se
meter na cama da Estelinha. Talvez algum dos hspedes
roncasse, como hoje, combatendo o pesadelo.

Foi esta mesma noite que se disps a receb-lo no regresso,
que lhe soprou na testa o mesmo bafo com a sua mistura de p e
de resina, para se dar a conhecer no escuro, do modo como
fazem as antigas amantes. Ele, no entanto, tinha-se esquecido.
Escutava as corridas dos ces por entre o mato, a frico
obsessiva dos insectos. Mas as recordaes dissolviam-se,
longe, entre os bancos de nvoa, e deixavam-no limpo do seu
toque. Ele tentava encontrar o fim da circunferncia, o ponto
no vazio de onde nascera. Mas, cumprido o trabalho de tirar
para fora tudo o que a alma tinha acumulado, tudo estendido ao
sol para ser mexido, julgado e enfim sujeito ao saque e ao
fogo, ainda assim no podia sossegar porque aparecia gente em
toda a parte, porque o puxavam pela manga e lhe gritavam para
que comesse, para que se interessasse. E agora, tantos meses
depois da sua morte, eis que por minha culpa est a passar
tambm por dentro destas bocas, misturado no vinho e na
batata, por mim entregue a homens que arrotam e que deixam
crescer demasiado as unhas, que exibem a carteira com boal
dignidade e pegam nesta histria de lvaro e de Lizette para
fazerem prova de influncia e ganharem o apreo de mulheres.
Talvez, penso, talvez ele no se indignasse, talvez sorrisse,
como se sorri das momices que faz um animal, de um espelho
deformante numa feira.

No  to grave quanto me pareceu. A personagem de que eles
falam, que eles procuram, est longe de ser lvaro Roz.
Aquilo a que deitaram a mo vivia ali, pronto a criar aquela
confuso para os satisfazer, para os iludir, para divertir as
suas atenes. Enquanto o Alvarinho se escapava, como sempre,
para a beira da gua na represa.

 para l que a insnia me convida. Foge-se facilmente da
penso, ningum dormita no balco da entrada e h uma luz
vermelha de viglia que revela o chaveiro junto  porta.

A vila h muito se entregou ao sono, o peso e o calor dos
corpos concentrou-se, a envolver as camas, a curvar-se sobre
quem aqui mora. E as ruas, no exterior desses abrigos, gelaram
e ecoam, rarefeitas. O tejadilho do meu carro est coberto de
campnulas roxas de onde escorreu um sumo que nauseia. E os
faris, em vez de esclarecerem a posio das coisas, o
caminho, cegam, iludem. Sei perfeitamente que estes vultos que
saltam sobre a estrada, estas formas que acenam, muito brancas
como cabelos de velha, estas muralhas que se erguem e retiram
no tempo de um olhar para se irem pr  espera mais adiante,
estes bichos esqulidos que correm paralelos a mim, mostrando
os seus focinhos, a sua lngua em brasa - ah, sei
perfeitamente que no estavam aqui, que, na realidade, aqui
no esto. Resultam do embate da luz contra a espessura,
contra os diversos ngulos da treva. Mas o freixo que marca o
desvio para a Viosa arrancou-se tambm do seu lugar,
esvoaou, dissipou-se. No o vi. Vou-me afastando mais dos
Amorins.  Se isto fosse uma fuga, o mais difcil ficava para
trs.

Encosto o carro a um recanto e as coisas entram nos seus
lugares, rapidamente as sombras se arrumam, dando espao 
negra filigrana das ramagens. Os rudos disparam, esto de
novo emboscados e irrompem em pequenas surtidas, chocam, pelo
efeito do seu estonteamento, contra as pedras e o cimo dos
cabeos.  Criaturas que gritam, que se avisam, como na
iminncia de um incndio.

Se tudo galopasse  minha volta, se a matria, empurrada por
esse movimento, se afastasse, deixando no seu centro um
vrtice que aos poucos me quisesse afundar, eu no me sentiria
mais distante, to separada estou dos Amorins, to capaz de
formar recordaes e juzos ligeiros, dos que a alma vai
compondo com tempo e sem paixo. Talvez lvaro tenha tambm
traado a circunferncia como as crianas fazem sobre a areia
e dentro dela se distanciasse, encolhendo, encolhendo, at se
reduzir ao instante de um ponto - e depois nada,
definitivamente defendido do alcance dos homens, dos seus
olhos.

Contra o fundo dos cus,  minha esquerda, a serra ergueu a
sua escurido como quem deixa a marca de uma ausncia. As
luzes dos casais no irradiam, houve ali um transtorno e elas
cumprem tarefas inimigas da sua natureza. Cintilam mas
convocam o negror, tudo o que seja vulto ou claridade se
precipita, corre ao seu encontro, absorvido na fome dessas
bocas.

E num daqueles lugares, no na encosta mas a meio caminho,
onde o terreno se tornou convulso, est o homem que viu, pela
ltima vez, o lvaro Roz. Foi ali, h apenas umas horas, que
eu, por preguia ou por benevolncia, confiei na percia do
senhor Rosa e encolhi os ombros, desistindo, resignada 
pobreza do encontro.  certo que os clientes da penso
descobriram o rasto de Lizette - ele tambm um falso rasto,
uma miragem -, porm, nesta Lizette no haveria j um sinal de
Alvarinho, esquecem-se depressa as raparigas de tudo o que no
sejam desastres ou vistosas encenaes do amor, e as semanas
de Liza na Viosa devem parecer-lhe agora confusas e
inquietantes, de forma que lhe  fcil enxot-las com o
desprezo que merece um pesadelo.


Mas o Ruo, o dos olhos insolentes, o que pediu

- foi ele ou a Perptua? - que no incomodssemos os mortos,
esse estava a
doer-se, estava preso a uma lealdade. Nenhum vazio, nenhuma
indiferena podiam produzir os seus maus modos. Estava muito
cheio, o Ruo, a ponto de escarrar contra ns, de me assustar.
, portanto, preciso que eu l torne, que retome o poder sobre
as perguntas ali, onde o perdi para o senhor Rosa, e onde tudo
caiu e se sujou. Devo apressar-me, chegar l a tempo de
apanhar os destroos da conversa antes que o cho a engula e
elabore um novo material em que j nada do que ento se passou
se reconhea. Nem posso consentir que a noite acuda, d
conselhos ao Ruo sobre como se monta uma defesa de mentiras.

Passam camionetas de carga com espantosas exibies da
iluminao. Ouvi uns sinos, tero dado as horas mas no os
entendi. Arranco e levo o carro devagar, procurando o desvio
para o Cho de Fojos, leio as placas que apontam para a serra.
No ser mais que uma maneira de ocupar-me, pois que  penso
no quero regressar. Mas uma busca, ainda que comece por mero
desfastio, no se contm que no seduza e envolva o buscador
na teia do seu vu.

Oh, exclama, e ergue os braos com exasperao. Vira-se para
dentro, para a luz, oh, repete, e parece que est a dirigir o
lamento a algum que o entenda e o saiba consolar, a algum
que h-de vir tambm espreitar  porta e levantar o escndalo
debaixo dos meus ps. Mas no: nada acontece, as casas dormem,
os ces no vigiaram, os animais da noite comunicam
serenamente as suas posies.  Dir-se-ia que  hbito chegar
um automvel fora de horas a este lugarejo.

O homem tem vestidas umas calas de Vero e passa agora os
dedos pelo peito. Ande, deixe-me entrar, digo e empurro-o um
pouco para o lado. Sinto-lhe de raspo a pele molhada, o sal e
a gordura que a mantm fria e viscosa, pronta a deslizar. Ele
afasta-se apenas o bastante para que eu veja o seu
consentimento, depois fecha-me o espao. E h o seu cheiro a
cabelo, s pequenas imundcies que correm sobre o corpo e se
misturam, azedam e apodrecem, repugnando. Conheo o perigo: a
nusea que se forma e imediatamente se desfaz, como junto
deste homem se devem desfazer todas as prevenes, como aquilo
que afastava se torna de repente um foco de atraco. Talvez
lvaro o tenha tocado e se indignasse com tanta sujidade e
depois comeasse a espaar as lavagens, aprendendo a coar-se,
a ver crescer essa espcie de lodo contra a pele. Escapo-me
para dentro num estico, exactamente como quem se solta.

O cho foi protegido com ramagens que se deslocam sob os
nossos passos.  Devem acoitar bichos, porcaria. A lmpada
baloua num suporte de esmalte, tem umas pinceladas de tinta
ou de fuligem que adensam mais a sombra nas paredes.  Sombra,
poalha, fumo: nem consigo perceber onde acaba esta cozinha,
onde se abrem ou fecham as sadas para o resto da casa.

Sente-se, ento, v l, concede o Ruo e eu fao um
movimento para trs, derrubo qualquer coisa de metal e oio
borbulhar o contedo, um lquido que vem tocar-me o calcanhar
antes de se perder por sob as urzes. H uma mesa de abas com
gavetas e ele afasta os copos e o po para um lado do tampo.
Deve achar isso uma delicadeza.

Abre um pequeno frigorfico e a chapa daquela claridade
atravessa-o, revela uma beleza que irradia da carne e  carne
torna. Traz as duas cervejas e comea a insultar-me
vagarosamente.

Quer l voc saber do velho para nada. Como deu com o
caminho, assim de noite?  que tomou sentido h um bocado,
quando a veio atrs do pequenote.  Julga o qu? Corri mundo,
vi mulheres. Voc pensou que vinha achar a a Morgadinha, no?
Um mar de parvos. A perguntar, a oferecer dinheiro, armada em
viscondessa, s para ter sensaes. Conheo-as bem. Mulheres
como voc, tive-as, pois no, na Frana, na Alemanha, onde
passei. J sem saberem que fazer  vida. E capazes de coisas
que a mim, repare, a mim me metem nojo. Digo-lhe a si, que
est sentada e est vestida: o que c veio fazer puxa-me os
vmitos. O que vocs precisam  de serem cansadas. Ganhei
muito dinheiro para as cansar.

Mal entreabre os lbios para a fala, est um pouco inclinado
para trs e
espreita-me atravs das pestanas que so anormalmente longas
para um homem.  Murmura, desprendido, sem precisar de pausas
para se ouvir pensar, como se repetisse alguma ladainha, como
se segredasse ao meu ouvido as expresses obscenas que h
muito ps na ordem e na intensidade que sempre lhe garantem
resultados. A verdade  que aquilo se insinua, causa uma
irritaro que se parece muito com um fascnio, corta a vontade
da pessoa pelo meio.

E ele chama, chama, o peito brilha e ofega, to aplicado est
no seu trabalho de cuspinhar, de dar a impresso de que deitou
as mos  roupa da mulher, de que est a olhar-lhe para
dentro. Metendo os dedos para l do ventre, para l do
corao: a remexer na grande obscuridade de onde o humano h
muito se escapou.

 apenas algum - reflicto - usando a voz, usando o seu
conhecimento das palavras que so intoxicantes como um mosto,
como uma grosseria de taberna.  Tocou assim em todas as
mulheres e, de certa maneira, convidou-as a vergar os joelhos,
a rojar os cabelos nos degraus. E elas recordaro as suas
noites com um sorriso e um fugidio rubor como recordam todos
os pecados. No  mais que um pedao de azulejo roubado de um
palcio em decadncia, este Ruo, no passa de um sabor que
desarranja o zelo da dieta. Mas ele sussurra, ofende e
entontece, dispe desse poder, f-lo passar atravs do seu
corpo.

No h porm aqui nenhum perigo, o seu toque seria um forte
ardor e
evaporar-se-ia sem outras consequncias. Doena que a seguir
me vitimasse viria de mucosas infestadas e no de rendies do
corao.

Bebo um golo da cerveja que entretanto aqueceu e separo-me
destes pensamentos.  Esfrego os olhos e vejo um homem que
envelhece, que vai perdendo a sua cor doirada.

- Est completamente equivocado - digo.  H-de haver um ponto
por onde ele enfraquea, por onde ele comece a esvaziar-se, a
entrar na verdade da sua pequenez, e talvez seja ouvir como
lhe falam sem tremura na voz, como as palavras pegam umas s
outras com dureza.

Vir por a no meio da madrugada, vir a casa de um homem, o
que ?, replica.  Entendo o que pensou de mim, entendo o que
esta vinda o fez pensar. - Oua-me - peo. E entrelao os
dedos porque sinto desejos de lhe passar a mo pela cabea tal
como se consolam as crianas que interpretaram mal uma
promessa.
Explico-lhe com pacincia, com afabilidade: como lvaro Roz
se retirou para vir morrer no stio onde nascera, como todos
tommos isso por um capricho e ficmos  espera, conhecendo
que ele seria incapaz de o prolongar; como, enfim, tanto tempo
sem notcias, no querendo ns forar uma intruso, fomos
inquirir junto de Anabela, e ela nos disse que o irmo l
estava onde devia, no jazigo da famlia.  E disse aquilo com
clera, sem luto. Especulmos um pouco mas depois voltmos
todos para o nosso dia-a-dia. Pegando com cuidado no que
lvaro legara a cada um de ns. Legara, isto  um modo de
dizer.

De ns, quem?

- Dos amigos.

E a si, deixou-lhe o qu? - Um gato.

Um gato, pois, repete. E aperta um contra o outro os largos
maxilares, inspira com rudo como numa suspeita. Um gato
azul, no foi um gato azul? 

Falara-lhe no gato, o Alvarinho. Imagino que o Ruo tenha
estranhado a cor e ocultado a estranheza. Quer dizer que houve
entre eles memrias, confidncias.

Eras amante dele, afirma o Ruo.


Inclino-me para trs, surpreendida.

Eras, pois. Ele falou-me das amantes. A uma delas deu um gato
azul.

- E que mais?  Que mais coisas lhe contou?

De que falam os homens? De aventuras. Mulheres, negcios,
tropa quando  caso.  De terras no estrangeiro. Ressalvando a
distncia das idades, ele e o velho tinham experimentado muita
parecena em modos de viver. A comicho na sola dos sapatos.
De aqui para alm, de alm para outro lado. Tendo fortuna, 
claro, tudo corre com outra ligeireza, no h dormir em
tbuas, no h humilhaes. Mas saltaram os dois muita janela,
dobraram muita esquina s arrecuas. Por capitais do mundo, sim
senhor.

Ento, depois de ter lavado a alma com Lizette, nos dias da
Viosa, lvaro dispusera-se a ench-la, como se desistisse de
morrer. E, olhando em volta, achara apenas aquele molde para
vazar a sua personagem. Era o molde de um homem andarilho, de
um homem com o rosto muito gasto por ventos e afagos de
mulheres.

lvaro fez apenas a viagem do fim da juventude, a Paris, a
Anturpia, e pouco viu. Fechava-se nos quartos dos hotis e s
saa  tarde, entorpecido por experincias do pio, sofrendo
de enxaqueca e confuses. J vivi, disse, olhando para a
rua. Estavam num bar onde ainda se falava de mulheres a quem
tinham rapado a cabeleira para as punir dos seus amores com
alemes. Chovia e o calor secava o cho. lvaro levantou-se e
partiu para tomar o primeiro comboio, abandonou bagagem e
amigos. Era um grupo de moos com dinheiro e alguma excitao
surrealista. Sempre atrasados, ns, sempre a pegar nas sobras
das ideias, contara-nos um deles, o Maceirinha, que se
politizou nessa viagem. L fora, aquele fermento, uma alegria,
mesmo na crueldade do ps-guerra. E eles, e, mais que todos, o
Roz, a quererem encontrar o princpio do sculo, a doena, a
volpia, a anarquia. Lembrara como o viram afastar-se, muito
encolhido j no sobretudo, alquebrado, apesar do assomo de
energia que sustentava aquela deciso. J vivi, disse, e
nunca mais viajou. Tinha ento pouco mais de vinte anos e
ningum o sabia um bom poeta.

Um homem que era um livro, diz o Ruo. Desses de quem podia
declarar-se terem vivido inteiramente a vida.Deves saber. Se
calhar, no, atira-me ele, a lembrana que mais o cativou.
Que lembranas teria o Alvarinho, do jardim para a casa, de
casa para o jardim, recusando os ouvidos ao barulho que as
mulheres da famlia levantavam? Construra o seu mundo para
dentro, via e ouvia as palavras, as sereias.

- Uma mulher - respondo.

Uma mulher!... De tantas que ele teve no distinguiu nenhuma.
Lembrava-se melhor do que lhes deu. Falou de ti, mas foi por
causa do tal gato.

Sorrio, fatigada, e ele supe que me enervei, que tento
disfarar o despeito.  Espreita-me, colocou-se de novo no seu
posto, gostando de ofender e de caar.
O que eu sei dele, no o sabes tu. Tinha nojo s mulheres.
Ganhou-lhes nojo quando foi para Lisboa, rapazote, e o pai o
levou s raparigas. O prprio pai. Para qu? Para lhe pegarem
o mal de que o pai, esse, j sofria. Foi a herana que lhe
quis deixar. Contou-te isso a ti? No. E nem podia. Nem
queria, se calhar. s amantes, no  para dizer nada.

Que histria houvera entre lvaro e D. Pedro, que caminhos
tomou para chegar  boca deste Ruo, para ser certamente
talhada ao seu tamanho, entendida e narrada como uma outra
histria, j irreconhecvel, monstruosa, sofrendo a corroso
deste azedume? No vou deixar que permanea  minha frente a
dar nas vistas, exibindo as confidncias que lvaro lhe
entregou e ele faz agora desfilar para meu constrangimento,
imaginando que, na sua condio de homem, de macho muito
acreditado, lhe entrou na alma como mais ningum. Noutra
altura, em diferentes circunstncias, ficaria com ele,
gast-lo-ia at que se tornasse transparente e eu entendesse
os seus assomos de maldade como as mes compreendem os
desgostos das crianas que choram sem razo. Us-lo-ia at que
se deitasse, desconsolado j do seu papel, querendo falar,
querendo recordar-se, aceitando passar aos poucos para mim.
Depois dobr-lo-ia, metia-o na gaveta de reserva,  mistura
com outras personagens. Mas no. O Ruo ficar inclume,
liberto do meu toque, mais do que hei-de ficar do dele. O que
eu quero  partir, pois o que ignoro sobre os ltimos dias do
lvaro Roz  aqui preenchido com fices que no me informam
mais do que um delrio. E o Ruo fala agora de barcos, de mil
portos, dos areais onde cantavam as nativas de cujo feitio
lvaro s pudera escapar porque um velho marujo o prevenira.

- Sim. As ilhas, as rochas flutuantes. Conheo tudo, de uma
ponta a outra. Quero  que me explique o que fizeram, por onde
andaram at ele morrer.

O Ruo emudeceu. Tenta adaptar-se ao novo tom da minha
voz.Vacila.
Tremem-lhe um pouco as mos. Poder reagir iradamente. Ou
ceder. Ou esconder-se para sempre.

- Passaram pelo Porto - insisto -  prima dele. Francisquinha
Murtal, uma viva rica e sem filhos. Est a ver? Eu sei.
Entregaram-lhe l a rapariga. Por sinal, roubou coisas e
fugiu. Voltou a v-la?

No, responde. E estuda-me com meios olhos, com
desconfiana. Que me admira a mim que no ficasse. Cada qual
no seu poiso e eu no meu.

- Que fizeram depois? Que fez voc?

Ele sorri, recupera a insolncia: Tambm ests na ideia que o
matei? Tive mulheres que me pediram para as matar. Homens,
at. Pediam e choravam.

- Tambm, porqu?

Maneira de falar. Para que havia de matar o velho?

E parece fazer a pergunta a si prprio, demora um pouco 
volta daquele som como se lhe agradasse mastig-lo at
compreender que o seu sabor era nocivo e se devia deitar fora.
Para o roubar? Achas que isto  casa de um ladro?

A escurido abriu-se levemente e posso ver os tachos na
parede, uma louceira, os ramos onde as moscas se devem
abrigar. Atingimos a hora: o pequeno minuto antes da luz do
dia em que a fosforescncia deixa ver o belo corao azul das
coisas.

-  quase manh - digo. - E acabou-se. Pode ficar para a com
os seus segredos.  Quando eu escrever, invento o que quiser.
At a seu respeito, compreende? Fao de si aquilo que me
apetea.

E isso que valor tem? Invente tudo. J agora, invente o fim
que lhe faltou.

Abriu-me a porta. O ar aguarda-me l fora, to denso e to
brilhante que receio ficar cada na viscosidade, na seda das
aranhas que passaram. Vires-me acordar assim no meio da noite
e nem levares uma recordao ... , censura o Ruo, e
pe-me a mo no ombro.

- Eu volto - digo. E no sei bem se  a mentir.

A promessa tornou-o mais amvel. Acompanha-me ao carro e eu
ouo em volta o ofegar dos ces.

Dele, o que interessa  o estado no cemitrio. No ?
Tomaram muitos l morar.

- No fui ao cemitrio, nunca vou.  Tenho pavor da morte.

Quem no tem?, exclama. Dou a volta com o carro e, sob
aquele instante dos faris, vejo apenas um homem intrigado que
franze os olhos para se proteger.

Os bichos comearam a chamar e alguma gente, ainda sem
feies, passa dificilmente pelas ruas. Esfregam os braos,
correm, para limpar os bocados do sonho que ficaram. Eu meto a
chave  porta da penso e subo, tacteando na penumbra.

O quarto continua a repugnar-me. No posso tomar duche, estar
descala nessa casa de banho colectiva onde me arrisco a
encontrar pegadas, espuma cada de outros sabonetes. Enfio a
roupa s cegas para dentro da mala.

A So Jos empurra a porta de mansinho: - Eu bati, no me
ouviu. No dormiu c?

Aperta a gola do roupo acolchoado, cheira ao calor da cama. O
cabelo cado pelas costas emoldurou-lhe cruelmente o rosto.
Penso que numa noite, nesta noite, ela viveu e envelheceu
vinte anos. E que as diversas partes do seu corpo se
estragaram a ritmos diferentes, tiveram cada uma o seu
relgio, de modo que os cabelos e a papada no batem certo,
coabitam em angstia.

- Que foi, aconteceu alguma coisa? - insiste. Eu espeto as
unhas discretamente no meu prprio brao para que a dor me
desperte das vises.

Telefonaram-me, explico, de Lisboa. Tenho de ir trabalhar j
hoje; frias mais curtas do que eu tinha programado.

- Portanto, no ouvi o telefone - observa, e desce para tirar
a conta. Portanto, diz, atraioada pelos anos em que falou
na lngua dos franceses. Portanto, digo quando fico s, hei-de
tirar algum proveito disto tudo.

- E ento o resto, a histria da Lizette? - pergunta a So
Jos no balcozinho.  Parece agora muito consternada.

No sei como me devo despedir. Eu volto, eu telefono-lhe,
asseguro. Mas isso irrita-a:

- A gente c est, no?  Para a receber. - declara. E  cerra
os lbios com determinao. Eu no me atrevo a prolongar a
despedida.

Sei que vou sentir sono na viagem e que no devo recordar a
noite, nem mesmo a madrugada. Preciso de tirar estas pessoas
de dentro do meu esprito, tranc-las nas suas prprias vidas,
conseguir que aqui fiquem e me deixem partir. Comeo, a duas
horas de caminho, a pensar no que vou dizer a Zaratustra, nas
contas que ele me pode pedir pelo abandono. T-lo-iam
escovado, mudar-lhe-iam a gua e o areo?

Sobre o teu dono, no descobri nada, confessarei. E posso
imaginar o seu olhar severo e indiferente. Ento, para merecer
essa beleza, pr-me-ei de joelhos junto  sua poltrona e
encontrarei um fim para esta histria.

E isso que valor tem?  Invente tudo. J agora invente o que
lhe falta, disse o Ruo.

Zaratustra ouvir por uns momentos, como  costume, por
condescendncia.  Vejo-o: depois suspira, esconde um pouco
mais o focinho entre as patas e adormece, completamente
desinteressado.

lvaro no queria regressar, nem a Lisboa, nem aos Amorins.
Siga, siga, disse ele ao motorista. E o velho Peugeot, que
cheirava a gasleo e estremecia todo nas subidas, avanou, sem
ter muito para onde.  pouca terra,  estrada curta, veja.
Em meio dia, sai-se do pas, observava-lhe o Ruo.

Tanto me faz, d voltas. Siga, siga.

 noite acharam-se entre os camies, jantaram numa sala to
branca e to sonora que lvaro comeu mal e percebeu, sobre
aquela crueza tumular, que transpirava e tinha frio e febre.
Era uma casa de comidas para viajantes que gritavam, corados
pelo vcio de fazerem correr as criaditas ainda que fosse
falsa a sua pressa.  Alugavam-se quartos nas traseiras e foi
a que entre o lvaro e o Ruo se lanou essa ponte a que no
pde chamar-se exactamente uma amizade, embora tenha dado as
suas provas.

Tu s o meu primeiro confidentes, disse lvaro. E, embora lhe
contasse mentiras porque se tinha posto a inventar uma vida
contrria  que vivera, pensava nisso com sinceridade. Com
mulheres, sabes, est-se sempre s.

Conversavam, deitados em caminhas de ferro como num
dormitrio. s duas da manh ouviram risos, vozes que se
baixavam, numa clera. Adivinhavam-se negcios, intrujices,
raparigas velozes nos ajustes de amor. Isto, que poderia
t-los embaraado, provocou-lhes espertina e deu um tema para
trocarem memrias. E lvaro entregava-lhe, no as suas, que
no havia onde as enraizar, mas as de muito livro e muito
sonho. E eram tidas por boas, e valiam. Tanto que, ao
despontar da madrugada, quando o ouviu gemer e tiritar, o Ruo
foi estender o sobretudo por cima da coberta de algodo e
ps-lhe a mo na testa, num cuidado.  J admirava lvaro;
estava agora a deitar contas ao que ganharia com ocupar-se
dele, com fazer-lhe as vontades e salv-lo, o que nos velhos
to difcil  de levar junto, de conciliar.

Partiram: Segue, segue, ordenou lvaro. Queria falar e
ouvir. Quanto ao caminho, parecia ser chamado por atalhos, por
empedrados onde no passava sequer uma carroa. Atravessavam
chuvas e incndios que agora se extinguiam, fumegando. Eles
ouviam os grandes troncos negros a rechinar sob as primeiras
guas. Faz-se de noite, disse o Ruo.

Segue, segue.

Estavam longe e o Ruo sentiu medo. Via a curva dos montes e a
palha amassada entre as pedras, consumida. O fogo andara em
toda a parte e os carreiros perdiam os contornos de repente.
J no sei onde vamos, confessou. Mas lvaro, tranquilo,
adormecera. E a luz pousou no cho por um instante, depois
estremeceu e dissipou-se como uma nvoa que se evaporasse.
Bem, bem, bem, trauteou o Ruo, respirando fundo para se
acalmar. Com o carro parado, ouvia os lobos.

Quando lvaro acordou, j o metal e os estofos de napa
regalavam. O Ruo aconchegou-o como pde. Bem, bem, bem,
repetia. E lvaro riu quando ele comeou a dizer palavres,
culpando-o de ali estarem. Mas dizia-os serenamente, como se o
mimasse. Cabro. Estupor do velho. Aquilo soava a uma
lengalenga.  S por causa do frio no tornou a mergulhar no
sono. Conversavam para passar o tempo. Com a febre, era fcil
falar continuamente. Algumas frases no se percebiam, mas isso
entre eles perdera a importncia.
O Ruo quis partir mal clareou. O carro no pegava e, ao
empurr-lo, os ps escorregavam-lhe na lama. Eram ervas e gelo
sem resistncia. E ele soltava um gemido, um som de esforo,
tinha as veias do peito dilatadas. lvaro achou-o muito belo
sob a raiva, imaginou que s vezes as mulheres o fariam zangar
para o amarem melhor.

Quando enfim conseguiram arrancar, no se avistava o sol em
nenhum lado. O ar corria branco como leite. No h maneira de
me orientar, dizia o Ruo. E fome?  No tem fome? As rodas
mastigavam o terreno.

Pelo meio dia, a nvoa levantou-se. Mas s pedras e cinza se
avistavam. D-me impresso de andar s voltas, porra. lvaro
dormitava, abriu os olhos quando ouviu praguejar. Falou sem
nexo:  o que me convm. Tremia, no parava de tremer.

Os pastores apareceram de repente, poderia pensar-se que no
estavam ali ou que nunca dali tinham sado. Era um casal,
imvel, assombrado. Ouviam-se os chocalhos, mas as rochas
escondiam certamente os animais.

Onde  que isto vai dar? Onde  a estrada?,  perguntou-lhes
o Ruo.  Aproximara-se, querendo dissimular o nervosismo com
um sorriso a que eles no responderam. Por donde  que vieram
vocs?, disse o rapaz, e deu  frase uma inteno severa.
Daqui at l baixo so trabalhos, no  lugar para carros.
Mas lanou o brao para diante e assim, ao menos, dava a ideia
de alguma direco. A mulher espreitava pelos vidros para os
cabelos de lvaro. Tem fome, est cansado, disse o Ruo,
compramos qualquer coisa de comer.  Ela foi pr meio po
sobre uma laje e depois afastou-se. No deixava de manter a
distncia, como um bicho.

Vo com Deus, vo, e acenaram ambos. Estavam a empurr-los
para fora.

O Ruo mordiscou o po. Puxava pelo carro aos arrancos, numa
fria. Era agora uma luta que travava a ss com aqueles
stios, humilhado por se deixar prender num labirinto. Temos
de ir dar a algum ponto, repetia. Quase se esqueceu de
lvaro, levava apenas aquele fardo a seu lado, deixara de se
pr  sua escuta.

Depois, a estrada lisa, de gravilha e de areia, uma ntida
estrada cor de terra surgiu e ocultou-se. O Ruo procurou-a,
aos tropees, receou por momentos que fosse uma iluso, at
que viu a linha do acesso. Deixara o carro a trabalhar e
lvaro nem se apercebera da paragem. Mas o outro sentiu-se
muito s, aguentava melhor o medo que o alvio. Estamos
quase, gritava. E abanou-o. Bem, muito bem, disse lvaro,
indiferente.

Fizeram talvez mais de dois quilmetros at se deparar a
camioneta. Estava completamente atravessada e as rodas da
frente suspendiam-na sobre um pequeno abismo. Da sua carga de
carneiros e cabras restavam corpos espalhados, a inchar. No
h passagem, murmurou o Ruo. O desespero ia-se transformando
numa coisa exterior, colava-se  paisagem, aos obstculos.

Teriam de render-se, de esperar. Desistindo de agir, davam a
vez, cediam o seu turno da jogada. Algum viria endireitar a
camioneta, no era propriamente um saco de castanhas que
pudesse deixar-se abandonado. Ento ach-los-iam, mesmo que
eles entretanto ficassem sem sentidos, esgotados de fome e
confuso.

Mas lvaro ofegava, parecia no saber libertar-se do sono. O
suor escorregava-lhe para a boca, como se todo o rosto
soluasse. Preciso de o levar ao hospital, pensou o Ruo,
vai morrer-me aqui.

Saiu do carro e ps-se a chamar  nas quatro direces.
Chamava e ouvia os ecos a marcarem, numa troa, a ausncia de
respostas. Estavam rodeados de montanhas que se tornavam roxas
com o entardecer. Foi depois que vieram as mulheres.

Eram duas, j velhas, com cabazes. Usavam grandes arrecadas de
oiro e pareciam faz-las balanar propositadamente,
envaidecidos com aquele pedao incorruptvel e muito luminoso
dos seus rostos. O Ruo recordou-se da me, de como os brincos
se lhe haviam soldado ao furo das orelhas e a tiveram de
enterrar com eles. De como uma das filhas falara em retalhar
num golpe, com jeitinho.  Queria guard-los de recordao.
Embora fossem gente afeita s facas, no podiam esquecer-se
desse escndalo que lhes causara um frio nas entranhas.
Lembravam-se e tentavam perdoar, mas a memria no
desaparecia, continha a nitidez de um julgamento. E agora,
enquanto as velhas se chegavam, o Ruo ouvia novamente a
discusso.

No soube nunca se elas acorreram de longe ao chamamento ou se
desciam para algum lugar. Vistas de perto, eram assustadoras,
com o cabelo s manchas amarelas e os olhos cobertos de
gordura. Isso, s por manh. Calhando haver quem venha,
comentaram. O morto era o que tinham de levar. Ficavam
quietas, cheias do seu tempo. E o Ruo devia parecer-lhes
infantil ao implorar, ao exigir, uma passagem. Uma delas
tocava com o p na barriga j tensa de uma cabra. Esta daqui
no vai para nenhum lado, um prejuzo que eu sei c. Usava
uns sapatos de lona e com certeza que o cheiro pegajoso dos
cadveres seguiria com ela para casa. Deixe a o seu carro e
venham, filho. Por manh, voltam. Isto faz-se bem.

No posso, disse o Ruo. S ento entenderam. A doena
chamou por elas como um mel. Estavam coradas de solicitude.
Ah, pobre alma, pobre alma, repetiam e, pela porta aberta,
pegavam nas mos de lvaro. Meta para cima, l para onde
veio. Faziam grandes gestos de braos para que assim o carro
comeasse a recuar. O Ruo resolveu obedecer. Sentia-se
assustado com a noite.

No tinha espao para dar a volta e arrancou devagar em marcha
atrs. Pensou que acabaria por faltar-lhe o gasleo mas foi s
um pequeno pensamento, incapaz de instalar-se e apoquentar.
Acendeu os faris. As suas luzes devassavam as pernas das
mulheres, magras pernas de velhas que corriam aos tropees,
acompanhando o carro. C, vire aqui. Batiam fortemente na
chapa.  Encaminhavam-nos para um casebre. Bote-o l dentro.

E os donos?

Fugiram. Fugiu tudo.

Fugir de qu?  De qu?

Ai, da misria, oh! , exclamaram elas e
puseram-se a rir, limpando a boca com as costas da mo.

Dentro da casa era difcil respirar. Havia uma repulsa dos
pulmes por aquela poeira de gramneas. As mulheres
dirigiram-se aos objectos, apressadas,
seguras dos recantos. Devia ser ali que pernoitavam sempre que
rebentavam temporais. Uma delas tentava chegar lume a um
pequeno candeeiro de vidro mas os fsforos deixavam a cabea
desfeita numa papa contra a lixa. Deixe que eu fao,
ofereceu-se o Ruo.

Elas deitaram mantas secas sobre sacas onde a palha, moda,
endurecera. Eram mantas de l cardada, escura, que mantinham o
cheiro dos animais. Estenda-o a, mas ponha-lhe uma roupinha
fresca. Havia camisetas de reserva, tinham-nas protegido de
mais com naftalina. Isso j passa, passa, garantiram.
Levavam uma chama num papel, do candeeiro at s aparas de
lenha que faziam um monte sobre o lar. Por um instante, no
claro da labareda, o Ruo viu a casa distorcer-se, oscilar,
abrir fendas contra a noite como se um grande vento lhe
soprasse. Mas foram s as sombras que se desarrumaram. Em
fervendo, mas bem, d-lhe este ch, disse a mulher que
vigiava o fogo. E ps-se a partir lenha com a perna dobrada,
uma pancada assente no joelho. Os troncos eram muito finos,
quebrariam s num torcer de mo, pensou o Ruo. E sorriu da
mulher, do aparato.

Ofegavam, na nsia de partir. No descobriam luz para o
caminho. Ele h-de haver a uma candeia. Uma pilha,
diziam, e j estavam esquecidas do doente, da piedade que as
obrigara a demorar ali. S o pavor dos montes existia.
Benzeram-se ainda antes de sarem, mas isso no pareceu
apazigu-las.

Descobriu queijo e o resto de um enchido numa caixa de lata.
Aqueceu-os nas cinzas do braseiro e aquele fumo atiou-lhe a
fome que ele pudera manter domesticada at ali. Salivava,
queimava-se nos dedos. As vontades do corpo estavam soltas. O
sono dominou-o de repente, no o deixou continuar o seu papel.
Era um sono pesado, que cegava.

De madrugada amparou lvaro, levou-o l fora, a urinar. Havia
em volta o mesmo vu leitoso, pesado, imperscrutvel como um
linho.

Se me levares para tua casa, eu pago-te com todo o meu
dinheiro, props lvaro. O ch parecia t-lo melhorado.

Muito?

Todo o que tenho.

O Ruo segurava-o.  Era leve, na leveza de um homem baixo e
enfraquecido, mas a terra puxava por ele com toda a fora.

No sei. Por mim,  de ir ao hospital.

Passo-te um cheque em branco, disse-lhe lvaro: um negcio,
um suborno que soava no entanto entre os dois como um rodeio,
um escrpulo de amor.

Uma das mulheres veio muito cedo. S uma, e eles nem sabiam o
seu nome.  Trouxe leite num frasco. Ainda l est, ainda no
livraram o caminho. Por esse meio dia ou mais, talvez.

Traga-nos de comer, pediu o Ruo. Tinha chegado a uma
deciso. Porm, a mulher riu-se do pedido. Isso, meu filho,
andar para baixo e para cima. Os pobres tm muito que fazer.

Ele foi virar o sobretudo de lvaro, encontrou-lhe a carteira
e o envelope de plstico com cheques. Estendeu  velha notas
de mil escudos. E assim?

Ela fincou os dedos no dinheiro, fez um esgar como algum que
se doesse. Mas depois suspirou alegremente.

Voltou acompanhada de dois homens que mal falaram. Encostados
 parede, mostravam que s vinham proteg-la contra perigos de
que ela se queixara e a que no saberia resistir. O Ruo
suspeitou de que o agrediriam e o entregariam  Guarda ou 
polcia se usasse novamente de dinheiro.

A camioneta?

Ainda l est, disseram.

Aqui o homem tem que descansar, explicou. Eles concordaram,
amansados.

V-lhe fervendo as folhas do salgueiros, recomendou a velha.
E ps na mesa o po, o peixe frito e o vinho que trouxera. O
Ruo desejava que partissem livres da excitao daquele
enigma.  meu pai, disse. Eu levo-o para casa, mal o ache
capaz de viajar.

E era tudo o que eles queriam ouvir.

S dois dias depois  que partiram. lvaro declarava-se
curado, porm o Ruo conhecia aqueles sinais, uma euforia meio
enlouquecida. As tmporas azuis, muito escavadas, no deixavam
abrigo s iluses. Chamavam-lhe a visita da sade: a sade a
fazer as despedidas. E as asas dela, o comovido aceno,
animavam o sangue pela ltima vez. Ao afastar-se, apagaria a
luz.

Isso coincidiu com a chegada. Quando tomaram o desvio para o
Cho de Fojos, j o Ruo sabia que a seu lado estava um corpo
sem voz nem pensamentos.  Respirava por hbito, talvez por
distraco. Coincidiu tambm com o escurecer, com o instinto
protector da noite. O Ruo carregou-o nos braos para casa, e
nem se perguntava o que fazia. Tinha aquele homem agarrado a
si, colado a si como um suor ou uma cria. Esperou que ele
morresse, viu passar horas, manhs e tardes, nevoeiros.
Postou-se, vigilante, andando em roda, a defend-lo, a
defender-se do exterior. Qualquer som, qualquer grito o
assustava. Depois sentiu saudades daquele tempo.

Chovia e o Ruo escorregava, s cegas, com o seu morto aos
ombros, querendo dar-lhe aquele funeral. Querendo tambm
limpar-se de trabalhos, das interrogaes malevolentes. lvaro
assinara vrios cheques, mas tinha a mo to trmula que o
banco iria duvidar e inquirir. Por isso, o Ruo nunca os
levantou.

Foi deix-lo na beira da represa. lvaro pouco lhe havia
revelado da infncia, mas recordara muito aquele lugar.

Ento, ao afastar-se, dentro da luz da noite, viu o pequeno
lvaro sentado ao p da gua. E, pelos olhos dele, olhou para
as mulheres que l viviam dentro, para os espelhos de metal
doirado onde elas penteavam os cabelos. Viu como o seguravam
no regao, cantando. E, mal diziam as palavras, as coisas
nomeadas apareciam e estoiravam no ar, sobre a criana. Viu
que ele queria crescer sem se afastar, crescer apenas o
suficiente para que lhe transmitissem o segredo. Havia idades
que o ameaavam, que se emboscavam para alm dos montes. Mas
no devia atormentar-se ainda. Viu que ele sorriu antes de se
encostar na grande maciez, no lombo acolhedor, e adormecer.
